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18 ANNAES DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

assim se pensasse hoje, o Douro não teria motivo para reclamar contra o actual estado de cousas, porque, tendo mercado certo e seguro para os seus vinhos, não veria agora a miseria bater-lhe á porta, nem os poderes publicos teriam de intervir para afastar uma grande calamidade economica e as consequencias da miseria, que não primam pela tranquillidade para as sociedades no meio das quaes ella existe.

O Douro, no auge da sua grandeza, foi surprehendido pela epiphytia que lhe devastou os vinhedos. Aquella região, que então se ostentava rica, de densa população, alegre como todos os felizes, tornou-se, em poucos annos, nos seus montes seccos e escalvados, offerecendo um desolador contraste. Os habitantes lançaram-se em caminho do Brasil, á procura do pão que lhes faltava na terra em que haviam nascido. Ninguem ali pediu esmola. Quem rapidamente se viu privado da mediania, que lhe dava uma vida facil, foi esconder a sua miseria em terras de Santa Cruz, que certamente regava com lagrimas. A necessidade, que, como é de costume dizer-se, não tem lei, não levou a população do Douro a perturbar a ordem publica. E não póde dizer-se que isso fosse demonstração da sua fraqueza de animo. Não; quem conhece o caracter do habitante do Douro sabe que elle se avantaja pelas suas qualidades masculas. Ali a miseria bateu á porta, mas a honra não sahiu pela janella. Então, como hoje e sempre, se acontece que algum habitante d'aquella região tenha de comparecer perante os tribunaes criminaes para responder por delictos que lhe imputem, interrogado, como de costume, se já estivera preso, se, na verdade preso estivera, responde, altivo e solemne, que esteve preso, mas não por ladrão.

O comprador dos seus vinhos na vindima deixa-os na adega dos lavradores, onde os melhora cem aguardente. O comprador tem a mais absoluta segurança de que jamais lhe faltará um litro de vinho por motivo de infidelidade do lavrador.

Com estas qualidades, os habitantes do Douro eram dignos de melhor sorte.

A sua tenacidade e energia de caracter evidenciou-se mais ainda depois da crise phylloxerica.

A videira, indigena desappareceu na voracidade da epiphytia. Apresentasse, como uma, sorridente esperança, a cepa americana, pela sua capacidade de resistencia á phylloxera. Mas, como podia ser aproveitada n'aquella região, onde as plantações são dispendiosisimas, sobretudo com cepas americanas, que exigem mais profundo e largo arroteamento do que exigiam as cepas indigenas? A população tinha rareado notavelmente; o credito para acquisição de capitães tinha-se perdido, como facilmente se comprehende. Reservas na bolsa dos habitantes do Douro não havia. E, comtudo, para plantar um milheiro de cepas era preciso dispender de 100$000 réis a 500$000 réis, conforme os terrenos. Plantações se fizeram no Douro que custaram cerca de l:000$000 réis por mil videiras. Podem attesta-lo o Sr. Antonio José da Silva, com a quinta do Noval; o Sr. José Joaquim Guimarães Pestana, com a quinta da Romaneira.

Era, pois, enorme o sacrificio a fazer.

A miseria era muita, e promettia não abandonar o Douro.

Houve esperanças na cultura do tabaco, cujo ensaio foi permitido pela lei de 12 de março de 1884. Foi ephemera a esperança.

Alguns lavradores do Douro, confiados no exito da cultura, abandonaram por completo a da vinha, com prejuizo grande, pois não tardou que se fizesse a demonstração inequivoca de que os terrenos do Douro, de encosta e seccos, não eram proprios para a cultura nicocianica. Assim, esta cultura teve de restringir-se a alguns terrenos fundos, onde em breve foi batida pela cultura da vinha.

Começou a replantação das vinhas pelos terrenos fundos, de menos dispendiosa preparação, e, pouco a pouco, como uma bola de neve, as plantações desenvolvem se e multiplicam-se, dando-se assim um exemplo eloquente de quanto póde e vale um povo que quer viver honradamente pelo seu improbo trabalho.

Segundo o que foi apurado no Ministerio das Obras Publicas, embora sujeito a rectificações, nos dez annos decorridos desde janeiro de 1893 a 31 de dezembro de 1902, foram plantados e replantados 62:855 hectares de vinhas. N'este total entram: o districto de Villa Real, com 10:994 hectares; Vizeu, com 3:810; Bragança, com 3:214; Guarda, com 2:084. Nos quatro districtos em que a região vinicola do Douro está contida, as plantações attingiram 20:052 hectares, em dez annos, ou seja cerca de 30 por cento das plantações feitas no continente do reino. Não quero dizer que todas essas plantações, nos quatro districtos que especializei, tenham sido feitas na região do Douro. Não, na parte alta d'esses districto, ha vinhas plantadas, sem que se possa dizer que estão na região do Douro. Na maior parte, porém, foram plantadas na região duriense.

Avalia-se por isso a somma de esforços que foram empregados para valorizar novamente a terra, tornada nua e esteril pelos effeitos devastadores da phylloxera. Deu-lhe o Estado a annullação da contribuição predial por sinistros fia phylloxera a permissão da cultura do tabaco, cujos resultados já apreciei, perfunctoriamente, e mais nada. E o Douro, á custa do seu trabalho e do enorme esforço dos seus habitantes, replantou em grande parte as suas vinhas, indo a caminho de uma relativa prosperidade, quando novo flagello, tão destruidor nos seus effeitos, o lançou em uma situação desesperada. Mas, como é que hoje o Douro não póde viver, e hontem podia dispender quantiosas sommas em refazer os seus vinhedos?

A resposta é simples, clara e concludente. Hoje, em quanto que o vinho do sul entra em grande quantidade nos armazens de Villa Nova de Gaia, o vinho do Douro é consumido nas tabernas a preço vil, ou transformado em aguardente. Em 1905, a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro abriu no Douro, para as suas compras, o preço de 18$000 réis por cada pipa de 550 litros. Teve em offerta muitas vezes a quantidade de vinho que necessitava! Em 1906, em janeiro ultimo, a mesma companhia abriu, como de costume, as suas compras na Régua para vinhos da colheita de 1905, vinhos cheios de mildew uns, descorados outros por effeito de grandes doses de hyposulfito de soda para poderem limpar, vinhos maus, emfim. A companhia, reconhecendo a triste situação do Douro, da região cujas prosperidades fizeram as suas, não querendo concorrer para de todo se perder o Douro, abriu o preço de 20$000 réis e 19$000 réis por pipa, quando é certo que o podia obter por preço inferior ao do anno antecedente. É que o vinho do Douro, em vinho de pasto, não se avantaja a outro qualquer. É de notar que a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro comprou 6:000 das 20:000 pipas de vinho que lhe offereceram.

Triste e dolorosa situação esta! Onde hoje dão 15$000 rés ou 18$000 réis por uma pipa de vinho, ha annos os compradores disputavam a preferencia dos lavradores por cinco vezes aquelle preço. E isto acontecia quando no Douro não havia um palmo de terreno que, podendo sel-o, não estivesse aproveitado para vinha, quando as plantações de videiras indigenas eram menos dispendiosas, quando o amanho custava menos dinheiro, quando o mildew não tinha apparecido nos seus vinhedos e, por isso mesmo, não obrigava a repetidas sulfatações. O amanho de cada pipa de vinho produzido no Douro custa mais do dobro do que dão pelo vinho. A consequencia é o estado afflictivo em que se encontra.

Mas a substituição do vinho do Douro pelo de outras procedencias, que ha trinta annos era motivo de profundo