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DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 201

muito estudado, é construido; póde ou não corresponder á sua missão; supponhamos que não corresponde, supponhamos que se conhece que esse melhoramento, muitas vezes tão desejado pelos povos e tão encarecido pelos seus representantes em côrtes, não corresponde aos sacrificios que custou. Deixa por isso de ser um caminho de ferro feito, irrevogavel? Portanto é necessario toda a prudencia da parte dos poderes publicos na approvação de qualquer lei que os estabeleça.

"O caminho de ferro da Beira Alta é um caminho essencialmente difficil.

"Sr. presidente, eu não sou dos extremamente apaixonados por argumentos de auctoridade; não posso comtudo deixar de os acceitar como argumentos muito ponderosos. Desde que ha conformidade de opiniões de homens technicos que procuram a resolução de um assumpto, que estudam sem paixão e unicamente animados do desejo de acertar, essa conformidade de opiniões é um argumento muito attendivel."

Era tão difficil o caminho de ferro da Beira Alta, que elle entendia que o governo devia ser muito prudente e previdente, antes de propor uma similhante linha.

Cabia-me aqui perguntar ao sr. Lourenço de Carvalho, onde ficaram essa prudencia e essa previdencia, que aconselhava como deputado ao governo.

E cabia-me perguntar-lhe ainda porque deixa de ser prudente e previdente, agora que é ministro das obras publicas, e que tem por dever zelar os interesses da nação, e ser coherente com as idéas que sustentava antes de subir ás regiões do poder.

Para corroborar a sua opinião adduzia o sr. Lourenço de Carvalho os argumentos de auctoridades, que elle julgava de grande força e de grande valor sobre este assumpto, e afiançava á assembléa - que todos os engenheiros estavam de accordo sobre este ponto; que não havia um só que divergisse. Não se contentava em o affirmar, tratava de o provar, de o tornar evidente, confrontando os differentes ante-projectos feitos para o caminho de ferro da Beira Alta, e demonstrando com toda a lucidez que esse caminho nunca poderia ser internacional.

S. exa. não se contentava só em apresentar os argumentos de auctoridades, corroborava-os com o estudo e trabalhos d'essas competentissimas auctoridades, e com os anteprojectos dos engenheiros Sousa Brandão, Boaventura José Vieira e Combelles, e exprimia-se pela fórma seguinte:

"Eu, que sou engenheiro ao serviço do governo, se o sr. ministro das obras publicas me fizesse a honra de me escolher para fazer o projecto do caminho da Beira Alta, e me marcasse as condições de curvas de 500 metros de raio e rampas de 10 metros, eu forcejava quanto em mim coubesse para me esquivar a essa missão, na certeza de que me seria impossivel satisfazer a ellas, porque, por mais que se queira, por mais que se medite, por mais que se percorra o terreno, por mais soluções que se estudem, lá estão sempre os costados dos valles, as rapidas inclinações dos montes, a inclinação geral do terreno, os seus accidentes e as suas rudezas a protestar contra todos os esforços do engenheiro e a resistir a todas as locubrações do seu espirito."

O aferro do engenheiro á sua opinião sobresaia pela convicção com que a expunha, pelo desassombro com que a sustentava, e por isso tanto maior é a impressão que causa n'aquelles que o ouviram a sua mudança repentina de doutrinas, de principios e de idéas.

O periodo que a camara acabou de ouvir ler, significa bem o que s. exa. pensava relativamente áquelle caminho de ferro. Significa que s. exa. julgava o de tal ordem, que ainda que o governo o obrigasse a proceder a estudos para que esse caminho podesse ser internacional, esquivar-se-ia por todas as fórmas a tomar sobre si um similhante encargo.

Porque se esquivava s. exa. então, e porque não se esquiva agora ao fazer ao paiz um tão grande desserviço?

As difficuldades do caminho de ferro da Beira Alto existiriam só quando s. exa. era deputado, e desappareceriam agora pelo simples facto de s. exa. ser ministro? Confesso que nunca esperei esta transformação do sr. Lourenço de Carvalho, e que me maravilha sobremaneira.

Vou ainda ler outro trecho para mostrar á camara que, quando approvou o projecto para a construcção do caminho de ferro da Beira Alta, votou um projecto que custa o dobro do que ali se propunha. Esta opinião não é minha, é do sr. Lourenço de Carvalho. Por consequencia, ainda desta vez o governo illudiu a camara, propondo-lhe só a despeza de 7.500:000$000 réis quando essa despeza importará no dobro, se não importar em mais; não sou eu que digo, é o sr: Lourenço de Carvalho. Este costumo de enganar o parlamento tornou-se já systema para o actual gabinete. O mesmo que agora faz para o caminho de ferro da Beira Alta é o mesmo que já tinha feito para os caminhos de ferro do Minho e Douro, que vieram a importar no dobro da despeza orçada. Eis o que diz o sr. Lourenço de Carvalho:

"O caminho de ferro da Beira Alta está orçado em réis 34:000$000 de custo para cada kilometro. Não faço questão d'esse calculo, mas posso com aquella convicção resultante do conhecimento do terreno, e dos ante-projectos já feitos, e com aquella lealdade e aquella franqueza que devo ao meu paiz e a esta assembléa em quaesquer questões d'esta gravidade, asseverar á camara que, se se fosse construir o caminho de ferro da Beira Alta nas condições em que foram construidos os caminhos de ferro do norte e leste, o custo kilometrico d'esse caminho não podia ficar abaixo do dobro e seria até muito maior."

A camara, votando a somma orçada para o caminho de ferro da Beira Alta, votou uma illusão.

Não sou eu que o digo, é o actual sr. ministro das obras publicas, cuja auctoridade n'esta materia é competentissima.

Custa 15.000:000$000 réis, pelo menos.

Esta é a opinião do sr. Lourenço de Carvalho, engenheiro muito auctorisado por todos os motivos, não só pelos muitos conhecimentos technicos desenvolvidos pela grande experiencia e observação, mas tambem pela posição que tem occupado, já como engenheiro subalterno, já como director na construcção dos differentes caminhos de ferro do paiz.

S. exa. não se contentou em demonstrar a excellencia do traçado do caminho de ferro da Beira Baixa sobre o da Beira Alta, fez mais, demonstrou á evidencia que o caminho de ferro da Beira Baixa era a unica linha internacional, e exprimia-se do modo que a camara vae ver pela leitura do periodo seguinte:

" Eu tenho ouvido classificar como caminhos de ferro internacionaes quasi todos aquelles, cujos planos têem aqui sido apresentados. Para mim o caminho de ferro internacional é áquelle que pozer o porto de Lisboa em communicação tão rapida quanto possivel com o centro da Europa.

"Se Lisboa estivesse no Algarve, o caminho de ferro internacional seria o do Algarve; se estivesse na Beira Alta, seria o da Beira Alta; estando aonde está, a linha internacional, a meu ver, só pôde.ser a da Beira Baixa ou melhor a do Valle do Tejo.

"Esta linha parece-me que satisfaz mais cabalmente a estas condições, embora tenha entre si um augmento de percurso de 140 a 150 kilometros, que não se póde computar em menos, e tenha como complemento obrigado em Hespanha a construcção da linha da fronteira a Malpartida e de Malpartida a Madrid."

O sr. Lourenço de Carvalho n'este interessante periodo declara que se Lisboa estivesse na Beira Alta não poderia ser linha internacional senão o caminho de ferro da Beira Alta, se estivesse no Algarve seria a do Algarve, mas estando onde está só o póde ser o do Valle do Tejo, o que equivale a dizer o da Beira Baixa.