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614 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

mais importantes que o de Monsanto, e nunca ninguem pediu um general para elles.

Se o sr. ministro da guerra quer unicamente ficar auctorisado para collocar n'aquella posição um general quando no futuro as condições do plano geral de defeza assim o exigirem, isso entendo eu; mas querer fazel-o desde já parece-me uma cousa impraticavel, porque em Monsanto não ha sequer uma casa onde o general possa dormir e recolher o seu cavallo; por consequencia o general nomeado tem de ir residir para o hotel central, e quando o inimigo entrar em Portugal, o general parte do caes do Sodré e chega ao forte de Monsanto, com certeza muito antes do inimigo cá chegar.

Sr. presidente, isto deve ter um limite. O paiz não póde com certeza com a carga que lhe estão pondo. Um pequeno exercito, bem disciplinado, bem organisado, com officiaes illustrados, aptos para o serviço e capazes de defenderem a patria, é o que nós precisamos; agora estar a accumular um grande numero de officiaes para os collocar onde não são necessarios para o serviço, é um manifesto desperdicio.

Não podia estar o general na torre de S. Julião ou na torre de Belem? Não sei para que ha de estar nas fortificações de Monsanto, só se o sr. ministro da guerra sabe que nós estamos ameaçados de uma invasão; roas parece-me que a invasão mais perigosa não é a das armas é a das idéas, que póde um dia obrigar-nos a grandes sacrificios e a defender-nos com mais furia do que se fossemos atacados por qualquer inimigo externo!

Eu peço ao meu nobre amigo o sr. ministro da guerra que queira ter a bondade, já não direi para commigo, mas para com todos os meus collegas, que valem muito mais do que eu, de dar algumas explicações a respeito d'este estado maior que se destina para uma praça feita de barro, que não tem accommodações nenhumas, que se desmancha em qualquer dia e que se torna a reparar no outro.

O sr. Presidente do Conselho de Ministros: - O meu nobre amigo o sr. conde de Cavalleiros, de certo não foi a Monsanto, porque se tivesse ido, s. exa., que é um homem muito verdadeiro, intelligente, que foi militar, não vinha aqui chamar fortificações passageiras ou de campanha, que podem ser construidas em poucas horas, a umas fortificações que levaram muitos annos a construir, em que se gastaram muitas centenas de contos de réis, e que foram dirigidas pelos primeiros engenheiros portuguezes.

Posso dizer até que o forte de Monsanto, que o digno par diz ser feito de barro, e que está a cair, é hoje a nossa primeira praça de guerra.

Senti, portanto, que s. exa. viesse fallar de uma cousa de que não tinha conhecimento, porque se o tivesse, não teria dito o que disse.

Realmente faz pena ver que em um assumpto tão importante, e na camara dos dignos pares, se apresentem proposições d'esta ordem, e digo isto para honra do digno par, e meu amigo, o sr. conde de Cavalleiros, porque s. exa. não diria o que disse, se tivesse visitado as fortificações de que trata este projecto.

A fortaleza da serra do Monsanto faz parte de um sysma de fortificações que se divide em duas partes distinctas, uma que envolve a cidade por meio de fortes destacados, como ha em París, em Anvers, e outras cidades importantes da Europa, e a outra, a mais reentrante, de que a fortaleza Monsanto é o centro. Esta parte é a que constituo a praça de guerra a que o projecto se refere.

Logo que se concluam as obras que estão a acabar, fica construida a fortaleza do centro, que é a de Monsanto, e umas poucas de lunetas, de fortes avançados, e um campo entrincheirado que tambem se ha de construir, junto da fortaleza de S. Julião da Barra, que não devem ficar abandonados, como ficariam se não se tomasse esta providencia.

Não trato de apreciar agora a complicada questão do melhor modo de defender Lisboa, questão que é grave e importante, e que tem sido discutida pelos nossos mais distinctos engenheiros; mas o que posso assegurar á camara, é que o systema de fortificações adoptado tem uma grande importancia, relativa porque a fortaleza de Monsanto não faz só parte de uma das linhas de defeza de Lisboa, o seu fim principal é evitar que o inimigo, qualquer que elle seja, occupe uma tão importante posição, que tornaria impossivel a defeza da capital.

Estas fortificações, que se acham quasi concluidas, precisam ser guarnecidas, porque não se gastam centenas de contos de réis para depois se deixarem estragar; e, então, não me parece que a camara, e o meu amigo, o sr. conde de Cavalleiros, deixem de dar o seu voto ao projecto, tanto mais que o augmento de despeza que elle produz para o thesouro é insignificantissimo, pois que o governador, general de brigada ou coronel, que ha de ser nomeado para esta commissão de serviço, sae do respectivo quadro do exercito, e o que se cria de novo, alem d'este governador, é um ajudante de campo e um major da praça.

Não me parece, pois, que possa caber no espirito esclarecido do sr. conde de Cavalleiros negar estes pequenos recursos ao governo, para o habilitar á conservação de uma praça tão importante e que está quasi concluida.

O sr. Conde de Cavalleiros: - Dou parabens á minha fortuna por me ter dado uma occasião de ser agradavel ao meu antigo amigo, o sr. presidente do conselho, porque se não fossem as minhas reflexões, s. exa. não nos diria cousas tão bonitas sobre o modo por que estamos fortificados e preparados para resistir a todos os inimigos, venham elles de onde vierem.

S. exa. e os seus collegas desculparão de certo que eu, assustado com o desequilibrio financeiro, que s. exas. têem trazido no intuito de serem uteis ao paiz, mas por todas estas medidas aggravado, tivesse tido medo do forte de Monsanto.

Sr. presidente, Lisboa tem duas ou tres linhas de defeza desde Monte Sobral até estas de Monsanto, de que se vae fazer uma praça de guerra, mas estas linhas não podem defender a capital quando o inimigo venha pelo sul, por onde ella póde tambem ser atacada.

Hoje, com a grossa artilheria que está adoptada em todos os exercitos, o Tejo é nada, se o inimigo estiver senhor dos fortes e das montanhas que estão do outro lado do rio.

O sr. Presidente do Conselho e Ministro dos Negocios da Guerra: - Não se póde fazer tudo ao mesmo tempo. Está-se tratando tambem das fortificações ao sul do Tejo.

O sr. Conde de Cavalleiros: - Será bom. Essa para mim é a grande defeza. Mas, seja o que for, dou parabens ao sr. Fontes pelas novas fortificações.

Agora no que não posso concordar com s. exa. é em haver desde já necessidade de guarnecer as fortificações de Monsanto e preparal-as para o ataque, porque tudo isto é dispendioso.

Sr. presidente, as despezas que se têem feito com aquellas fortificações parece que são do agrado de toda a gente, era uma cousa que estava no animo de todos a defeza da capital, e todos a queriam, e o desenvolvimento que se tem dado ás obras destinadas a essa defeza veiu a proposito, porque hoje a doença geral é fallar em guerra.

Eu é que não acredito que haja guerra, e sou tão incredulo que não creio nem na guerra do Oriente. Nem lá, sr. presidente, quanto mais aqui.

Todavia não quero negar ao governo os meios de defeza, votei-lhe os 680:000$000 réis para armamento, e isso prova a minha disposição de espirito a tal respeito. Se então fiz algumas reflexões, e pedi garantias, foi para que houvesse na segunda compra de armas mais cautela do que não houve na primeira.

Da mesma sorte, não nego agora ao sr. ministro da