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9 DE MAIO DE 1984 4343

No prefácio que escreveu para a edição de Os Factores Democráticos na Formação de Portugal afirma, com a autoridade que lhe é reconhecida, Vitorino Magalhães Godinho: «A estatura de Jaime Cortesão não se compadece com a pequenez de calar discordâncias, com o subterfúgio do panegírico que evita a caracterização da personalidade com receio que esta se esbarrando se a não cobrir o manto espesso do caudal laudatório. A obra de Cortesão é de cantaria de granito. Seria amesquinhar-lhe a traça e duvidar da qualidade dos materiais não dizer claramente o que ela é aquilo que não pretendeu ser. Porque garantia - e tão diáfana, no entanto -, requer, exige a discussão, o choque de ideias, o viril enfrentar de problemas. Jaime Cortesão estava voltado, do cerne, para o futuro, sabia amar a juventude. Seria atraiçoá-lo, por isso, não irmos mais longe, comprazermo-nos no já feito - no que ele fez e com que primor e segurança de ofício-, em vez de tentarmos a nossa própria aventura, pelos caminhos que ele inclusive entendia que não havia que tentar. Deixemos o aplauso para o anacronismo de redoma, deixemos a fidelidade de subserviência para os que, acatando-a desrespeitam os valores antenticamente humanos.»
Admirável síntese do sentido de vida de quem foi uma das figuras cimeiras do pensamento do nosso século, exemplo vivo de intelectual com a consciência desperta para os mais profundos interesses do seu e nosso povo a quem serviu como o poeta. Como o poeta: «Numa mão a espada, noutra a pena.»
Pois raros serão na nossa já dilatada existência como nação quem disto tenha sido vivo exemplo: médico, professor, voluntário combatente na Primeira Guerra Mundial, onde foi ferido, director da Biblioteca Nacional, onde deixou, a par com Raul Proença, uma obra inigualada e donde a ditadura estupidamente o viria afastar em 1927, percorreu os duros caminhos do exílio, desde Espanha, onde assistiu à dolorosa Guerra Civil, a França e, por fim, ao Brasil, onde ergueu uma obra histórica ímpar e manteve uma actividade que de tal maneira o honraram e honraram Portugal que os governos brasileiros o souberam aproveitar quando os desgovernos que nos governavam o ignoravam ou o perseguiam.
Poeta e dramaturgo, participante da «Renascença Portuguesa», ao lado de homens como Pascoais ou Leonardo Coimbra, homem daquela plêiade que, com um projecto cívico, se agrupou à volta de «Seara Nova», incansavelmente prosseguiu uma obra toda voltada para a compreensão do nosso devir histórico e do homem português.
As suas arreigadas convicções políticas, cuja coerência lhe valeriam longos anos de exílio, não o impediram de colaborar em obras colectivas cujo interesse nacional lhe era evidente. Ouçamos a sua voz, meditemos as suas palavras nesta hora em que evocamos a sua memória de grande português. Em Paris, já no exílio, em 1928, escrevia:

A história é ou deveria ser a consciência dos Povos. A vida das Nações não se conta por anos, mas por séculos; e toda a obra eficaz e salutar do presente supõe um acordo último, uma sequência lógica com os factos do passado, ainda quando seja para reformá-los.
E em 1959:

Raras vezes na história nacional terá sido mais necessário chamar à consciência activa dos seus deveres os Portugueses, acomodando-nos [...] ao ritmo da civilização a que pertencemos.

Ouçamos e meditemos, repito, esta voz de um grande português, hoje, aqui nesta Assembleia da República, cujo mandato por livre eleição foi um dos fulcros da luta de Cortesão.
E seja-me permitido fechar esta curta intervenção ainda com as claras palavras de Magalhães Godinho no prefácio referido:

[...] não apontámos ainda com suficiente nitidez aquilo que constituiu a condição necessária para Cortesão, como Duarte Leite (como lá fora fora um Marc Bloch ou um Lucien Febvre), terem sido grandes historiadores; é que foram de aprumada cidadania. Não sacrificaram nas asas do oportunismo mais ou menos de encomenda; sabiam que a verdade pode ser, ou pode, pelo menos, ser considerada por alguns, inoportuna e, logo, importuno o historiador; mas sabiam também que a grandeza da pátria está na verdade plena e que ao autêntico historiador não são cabidas concessões a César ou a Mamon, pois ele é consciência da nação que sabe ver-se de frente nas suas glórias e nas suas misérias.
Jaime Cortesão tendia a focar sempre em primeiro plano todos os valores positivos - mas à escala de um humanismo ecuménico [...] porque era fundamentalmente bom e generoso e abnegado e desinteressado e altaneiro, não por quaisquer transigências ou interessado pudor.
Jaime Cortesão: homem bom e generoso e abnegado e desinteressado e altaneiro ... Ê este o retrato verdadeiro de um homem dos maiores do nosso tempo português que nos honramos de homenagear.

Aplausos do PS, do PSD, do PCP e da ASDI.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Narana Coissoró.

O Sr. Narana Coissoró (CDS):- Sr. Presidente, Srs. Deputados: Falar de Jaime Cortesão é falar de Portugal, falar de Cortesão é falar do Brasil. Falar de Cortesão é falar da imensidão do Mundo que o português calcorreou na sua ânsia nunca satisfeita de conhecer e amar a Humanidade. «Cortesão é o homem dos horizontes sem fim, da perspectiva à escala do globo e que pretende tudo repensar, desafiar todas as verdades sensatas a fim de tudo compreender», como diz Magalhães Godinho.
Espírito polifacetado, em todas as searas onde labutou ou deitou semente produziu frutos de primeira qualidade - como médico, poeta, dramaturgo, polemizador, político e, acima de tudo, historiador de Portugal.
Quando estudante de Coimbra foi um dos dirigentes da greve de 1907, agitou a opinião pública, para o País entrar na guerra de 1914-1918, em nome da defesa da liberdade e da preservação das colónias africanas. Generoso e valente, é conhecido o seu gesto de. sendo alferes médico voluntário, ter tirado a más-