O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

4344 I SÉRIE-NÚMERO 103

cara enfrentando ele próprio o perigo e a morte para salvar a vida de um soldado ferido e aflito.
Democrata de raiz, é republicano e liberal, não lhe sendo conhecida quaisquer atracção especial ou evidente pelo socialismo. Franciscano de espírito e pensamento tinha a noção suprema de que só a liberdade e as liberdades, juntamente com a autonomia e a descentralização, são as condições indispensáveis para a prosperidade pátria. Nos Factores Democráticos na Formação de Portugal escreve lapidarmente:

Ao lado do carácter universalista que marca a Nação desde as origens, nós vamos encontrar na base das suas liberdades públicas e da própria independência nacional, a vivificá-las, a renovação das condições de trabalho e um espírito da autonomia em luta e oposição permanente contra o estrangeiro.

Com Raul Proença, António Sérgio, José de Figueiredo, Afonso Lopes Vieira, Raúl Brandão, Polido Valente e outros, funda o chamado «Grupo da Biblioteca», que produziria o Guia de Portugal, agora reeditado pela Gulbenkian, por não haver outro igual.
Planfletário contra a ditadura no seu exílio em Paris, Cortesão toma o contacto com as correntes da historiografia moderna: lança-se sobre a cartografia, as crónicas, os documentos, para redescobrir Portugal e a sua gesta marítima.
Para ele a história não é um compêndio de heróis e narrativas. Considera Portugal como um problema em si a exigir soluções. «Que é isto de Portugal?», pergunta num dos seus opúsculos, pretendendo definir a linha dorsal desta terra, na sua própria expressão.
Mais tarde dirá: «A história é a consciência dos povos. Podemos acrescentar que é igualmente a consciência da Humanidade, tanto mais o será quanto com a deste se confunda ... O traço entre todos existente da fisionomia nacional é o carácter profundamente universalista na sua origem, na sua formação, na sua missão, nas suas consequências, da história portuguesa.»
Jaime Cortesão é um dos raros historiadores que constróem a história pátria vivendo-a fora do seu rectângulo natal. A história do Brasil é para ele inseparável da história de Portugal. Até os estudos de Jaime Cortesão, a historiografia brasileira é vaga e dominada por intuições, não obstante os trabalhos do Barão do Rio Branco, que aproveitou a sua estada de diplomata em Paris para estudar a cartografia e o Tratado de Madrid.
Mas é o nosso homenageado de hoje que sobressai como patriarca de toda a investigação sobre as origens do Brasil. A começar com a tese de que a descoberta de Pedro Alvares Cabral é um acto oficial de uma terra já anteriormente conhecida, Cortesão mostra-nos o movimento dos Bandeirantes, dando-lhes, entre outros frescos literários, o retrato de Raposo Tavares e a contribuição decisiva do Tupi - «o mapa e a bússola vivas», no seu dizer- da delimitação das fronteiras naturais da ilha, Brasil, fixando a rede hidrográfica do Prata ao Amazonas.
Jaime Cortesão não foi apenas o investigador do Brasil e da acção dos Portugueses nos 5 continentes, com o requisito indispensável para o contributo da história de Portuga).
Como docente, em 1944 é convidado para leccionar para os diplomatas brasileiros no Itamarati, onde expõe magistralmente a sua teoria dos descobrimentos, a reformulação da história e da identidade brasileira e os fundamentos da sua independência e, obviamente, a contribuição portuguesa para a definição da cultura na «terra achada de Santa Cruz», a ciência de «ver o claramente visto» do índio, criando e cimentando nos jovens e experimentados diplomatas e políticos brasileiros a convicção de «todo o brasileiro ser um português à solta», na expressão sugestiva de Manuel Bandeira. Pode dizer-se sem exagero que a actual política atlântica do Brasil é ainda hoje tributária do ensinamento de Cortesão.
Entusiástico organizador da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, é aí que para a história do Brasil Jaime Cortesão deixa a sua indelével marca de político e historiador, deixando para a posteridade o seu último testemunho do seu génio de português.
Regressado à Pátria, sai discretamente do palco, preparando em terra própria o seu encontro com a morte. Exclamou um dia Braudel: «Portugal tem o Cortesão!» Também os Portugueses podem dizer: «Nós tivemos Cortesão!»
Jaime Cortesão é a síntese perfeita do espírito do povo português. Democrata, liberal, amante da sua pátria e da sua independência, criador de nações e vivendo fraternalmente com toda a humanidade. Homenagear Jaime Cortesão é, por isso, celebrar a própria grei portuguesa.

Aplausos do CDS, do PS, do PSD e da ASDI.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Lino Lima.

O Sr. Lino Lima (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Tantos anos depois de ter morrido, o nome de Jaime Cortesão é pronunciado respeitosamente nesta Assembleia e incensado por deputados de todas as suas bancadas, que põem em relevo não só o contributo que deu para a compreensão da nossa história e a lealdade da sua vida dedicada à democracia e à liberdade, mas também sublinham o sentido patriótico da sua intervenção cívica e política.
Creio que foi bom e que foi justo isto ter acontecido assim. Foi bom e foi justo, Srs. Deputados, que todos nós aqui tivéssemos erguido o facho de luz da verdade e com ele tivéssemos queimado muitas mentiras do passado, muitas mentiras com que durante anos e anos quiseram sujar o nome de homens íntegros como o de Jaime Cortesão.
Exilado durante muitos anos no Brasil, Jaime Cortesão escreve aí uma obra monumental sobre os nossos descobrimentos e atingiu um tal prestígio junto dos meios literários, científicos e políticos e do povo brasileiro que o seu nome de banido da Pátria se transforma em cada momento na acusação viva de um regime que expulsava do seu solo homens como ele. É esta circunstância e, segundo se dizia na época, as próprias instâncias do Governo Brasileiro, que acabam por forçar o ditador de Portugal a, apesar do seu ódio, consentir no regresso de Jaime Cortesão.
Mas antes de ter ido para o Brasil, após ter chegado de França em seguida à invasão nazi, Jaime Cortesão