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2866 I SÉRIE - NÚMERO 87

o clientelismo, a corrupção e o compadrio e que me dirijo ao meu partido para lhe lembrar que esses são males que devemos combater. Sr. Deputado, não sou só eu. Os documentos oficiais aprovados no Congresso e o Presidente do partido fazem as mesmas referências e temos no nosso património, como é evidente, essa preocupação. Na verdade, o que nos diferencia é o facto de eu nunca ter visto qualquer Deputado do Partido Socialista a preocupar-se com os fenómenos de corrupção, clientelismo e compadrio,...

Vozes do PS: - Oh!

O Orador: - ... por exemplo, no poder local do Partido Socialista,...

Aplausos do PSD.

... donde, até. sem fazer qualquer imputação concreta, é pressuposto, por razões estruturais e conjunturais, que eles existam. De igual modo, não vemos, sobre muitas matérias, o Grupo Parlamentar e os Deputados do Partido Socialista terem uma linguagem crítica sobre si próprios, que é um bem que, felizmente, o meu partido preserva, mesmo com as extensões e dificuldades que isso gera entre nós, muitas vezes, o que é, em parte, inevitável. Mas é exactamente essa diferença que não nos dá essa esquizofrenia, em termos científicos e técnicos. Isto é, podemos criticar-nos, podemos ter os nossos conflitos, mas eles não perturbam um fundo de cultura comum, que corresponde, aliás, a muitas características da cultura política espontânea do povo português, que os senhores tiveram oportunidade de ver na televisão durante a transmissão do último Congresso do PSD, pelo que não podem alegar ignorância.

O Sr. Mário Tomé (Indep.): - Isso foi só depois de Cavaco se ir embora!

O Orador: - Dito isto, fiquei espantado por o Sr. Deputado Jaime Gama não ter feito o que eu previa que fizesse, quanto à citação de Sá de Miranda. Sá de Miranda era conservador em relação à gesta dos nossos Descobrimentos e, neste verso, que é célebre, queixava-se, no fundo, de os portugueses irem para a índia atrás da canela. Os senhores teriam, aí, oportunidade para fazerem um pequeno "brilharete" e dizerem que também querem ir para a índia atrás da canela e, assim, mostrarem a novidade que têm para trazer ao povo português. Infelizmente, não o fizeram, ficaram só pelas virtudes culinárias do cheiro da canela, que era, aliás, o que eu previa que acontecesse, porque, evidentemente, era esse o sentido da minha crítica.

Aplausos do PSD.

Para terminar, já que estamos em tempo de metáforas, aconselho o Partido Socialista, para ter uma boa descrição da sua política sob uma forma um pouco mais literária, a ler o livro Alice no País das Maravilhas.

Risos do PSD.

Já não digo que o Partido Socialista passe para "o outro lado do espelho", onde as coisas são todas ao contrário, mas nesse livro há uma personagem, aliás, trágica, que é um pobre de um cavaleiro, que encontra Alice e se gaba de ter uma armadilha muito eficaz contra os ratos. Se tomarmos como metáfora essa armadilha eficaz contra os ratos, como uma descrição daquilo que é o conjunto das propostas políticas do Partido Socialista, ficamos a saber o que elas são, de facto. Essa armadilha contra os ratos era uma panela virada ao contrário, com a qual ele pensava apanhar os ratos que nela se meteriam. Evidentemente, ficou muito surpreendido quando lhe chamaram a atenção para o facto de que a armadilha não tinha qualquer espécie de eficácia. Ora, o problema da política do Partido Socialista é que é feita segundo o modelo desta armadilha contra os ratos. Ou seja, é uma política que, como o Engenheiro Guterres mostrou na gaffe, não revela que ele não saiba qual é o produto interno bruto, porque ele sabe-o, mas, sim, que ele sabe qual é o custo proibitivo das propostas e das promessas que faz e não tem coragem de o dizer aos portugueses, o que levou ao que os senhores chamaram de bloqueio. Com efeito, isso foi um momento de verdade, o qual, em televisão, foi mortífero para o Partido Socialista, porque foi o verdadeiro retraio do que os senhores têm para propor ao povo português.

Aplausos do PSD.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Manuel Alegre.

O Sr. Manuel Alegre (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: André Malraux procurava "esse lugar crucial da alma onde o Mal Absoluto se opõe à fraternidade". Esse lugar é onde o racismo começa. E aí, onde ele nasce, a alma morre. Por isso, muito mais do que um problema de polícia, o racismo e, sobretudo, um problema moral e cultural.
As agressões cometidas pelos "cabeças rapadas" são agressões a uma certa ideia de Portugal, a uma certa ideia que temos (ou tínhamos) de nós mesmos. É particularmente revoltante que tenham sido realizadas, em nome da raça, no Dia de Camões.
Eles não sabem, porque ninguém lhes ensinou, que Camões escreveu um poema de amor anti-racista, onde fez o elogio da "pretidão"
Eles não sabem, porque ninguém lhes disse, que, na sua Carta a D. Manuel, Pêro Vaz de Caminha elogiou a superioridade da beleza física e moral das índias e dos índios do Brasil.
Eles não sabem, porque ninguém lhes explicou, que se há algo de específico e verdadeiramente significativo na cultura portuguesa é essa capacidade de compreender o outro, de admirar a diferença e até de amá-la e misturar-se com ela.
Eles não sabem, porque ninguém lhes fez essa pedagogia, que a mestiçagem é um elemento estruturante da nossa cultura e da nossa identidade.
Esses são os valores de que devíamos orgulhar-nos e não os massacres de Wiriamu, que Kaúlza de Arriaga, o "ultra" da guerra e da supremacia branca, ocultou e proeurou desculpar e encobrir, não a liquidação do outro, como queria Alpoim Calvão, quando assaltou Conakry, para assassinar Amilcar Cabral.

O Sr. Mário Tomé (Indep.): - Muito bem!

O Orador: - No dia 10 de Junho, no serviço público de televisão, enquanto estes responsáveis do fascismo e da guerra eram quase promovidos a heróis, o Presiden-

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