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o principio da monarchia temos lido isto, que se chama representação nacional e por classes; das diz-se que isso erão os tres Estados Sr. Presidente, nem por isso que se quer hoje um Rei, não se segue o queiramos como antigamente - despotico, e absoluto, livre de todo o obstaculo, que possa entorpecer a sua marcha, quando ter contraria aos interesses nacionaes. Eu sou eleito do povo, e devo cingir-me á vontade do mesmo povo, e pelo que toca ao meu districto deve declarar mui explicitamente, que não fallei com uma só pessoa de consideração do meu districto, que tivesse a opinião de uma só Camara, porque viam os precipicios, a que isso nos podia levar - de maneira que póde dizer-se que aquelle archipelago, que consta de 200 mil e tantas almas, população quasi igual a da capital, e com pouca differença conforme com a minha opinião.
Antes porem de terminar o meu já longo discurso, devo declarar que com o acabamento da revolta passou a batalha do campo para o parlamento. Aqui teremos de soffrer com a Nação a derrota de Farsalia, ou havemos de conseguir a victoria do Maratona. D'aqui sahirá o thema de hymnos de bençãos pelo triunfo da liberdade, ou o de trovas insultuosas pelo seu inteiro perecimento. E' pois com a intenção de evitar este desdouro nacional, esta calamidade, que seria mal de tantos outros e para regular o imperio da liberdade, e para fazer germinar seus fructos em todas os pontos da monarchia portugueza sem odios, sem rivalidades, e sem partidos, que já nimiamente nos tem sido funesto, que eu julgo absolutamente necessaria a existencia das duas Camaras. Voto por ella.
O Sr. Derramado: - Sr. Presidente, eu não faço uso da palavra, que agora me competia, porque muitos illustres Oradores tem defendido a minha opinião, e apresentado argumentos, com que a fortalecem, por isso eu cedo a palavra para ter o gosto de ouvir o meu nobre amigo, o Sr. Conde da Taipa, a quem muito desejo ouvir nesta materia.
O Sr. Conde da Taipa: - Sr. Presidente, eu não tinha intenção de fallar nesta materia, sobre se deve haver uma ou duas Camaras, porque eu entendo que esta materia está já discutida, e porque de todos os governos representativos, ou sejam monarchicos, ou republicanos não ha nenhum sem duas Camaras; e então eu tinha feito tenção de não fallar, porque ora gastar o tempo, como esses máos gastadores do tempo, com fabulas sonhadas, a eu estou persuadido que isto de uma Camara só é uma fabula sonhada, e não vejo a razão, porque só faz uma discussão a esta respeito. Porem tenho ouvido um discurso, feito pelo meu amigo o Sr. José Estevão, em que tractou da historia de dous partidos, que estão á testa dos governos representativos, e tendo ouvido asseverar alguns factos menos exactos, que podiam fazer alguma impressão, pedi a palavra para os verificar.
O Sr. José Estevão disse que o meu illustre amigo o Sr. Derramado tinha contado a historia d'uma maneira, muito extraordinaria, e que tinha tirado más consequencias dos factos, que relatou entretanto eu acho que o Sr. Derramado leu a historia muito bem, o Sr. Derramado trouxe para exemplo da circumspecção, que era preciso ter com a organisação do paiz, os excessos da revolução franceza no tempo do terror, e anathematisou-as como todas as pessoas, a quem a humanidade importa para alguma cousa. O Sr. José Estevãoo passou a fazer um elogio da energia desenvolvida pelos conselhos, pelos comités revolucionarios em 1793, que pela sua energia tinham livrado a França do jugo estrangeiro. Isto é um facto, que a energia daquelles conselhos livrou a França do jugo estrangeiro. O Sr José Estevão disse que não tinhaa sido uma energia, que tinha sido uma dictadura espantosa, tambem é verdade: foi uma dictadura espantosa, que livrou a França do jugo estrangeiro, mas essa dictadura espantosa, já tinha sido exercida por Luiz 11.°, e Luiz 14.º Um rei o mais tyranno, que houve em França, e o outro Luiz 14,°, o rei mais despotico que houve. Ambos exerceram essas dictaduras espantosas; mas ellas allucinavam a França, estas monarchias carregaram com a tyrannia, mas para impor aos inimigos exteriores. Mas aqui tracta-se de saber, se essas dictaduras de Luiz 11.º, e Luiz 14.° e dos comités da revolução queriam a liberdade. Não de certo, pois então não podemos ir buscar a Luiz 11.° e 14° senão os meios de empregar o despotismo, para nos livrarmos delle na Constituição, que havemos de fazer, e havemos de ir buscar aos comités as calumnias, que se faziam á liberdade, para mostrarmos ao povo portuguez que aquella não era a liberdade, mas sim uma calumnia, que e lhe fazia.
Sr. Presidente, veio depois o Sr. Deputado José Estevão com o monstro horrendo da aristocracia. A revolução franceza não foi feita pela aristocracia; a revolução Franceza foi feita por todos, todos tem a sua culpa nella - a aristocracia, a democracia, o cortesanismo, o throno, todos, ninguem póde dizer, pondo a mão no coração, eu estou livre, de culpa. Taes foram os motivos, que deram logar á revolução Franceza. Primeiramente foram as grandes dilapidações da côrte, e dos cortesãos: estas grandes dilapidações trouxeram uma crise financeira, e peço perdão á Camara, porque depois de tão grande discussão, pouco restava a dizer e por tanto, se eu disser alguma cousa fóra do leito devem desculpar-me. A revolução Franceza foi feita pelas dilapidações da côrte, estas dilapidações trouxeram uma crise financeira quando chegou essa crise, o que havia fazer a côrte? Appellou para aquella boa gente do terceiro estado a que paga, porque não havia outro remedio, e era impossivel pôr pela sua propria força mais tributos. Reuniram-se os tres estados, nesses tres estados veio a aristocracia, mas esta aristocracia era aquella, que eu não quero de maneira nenhuma, e aquella, que póde deixar de se querer, era uma aristocracia, que tinha muito menos onus de hoje o terceiro estado, e cujas terras não pagavam impostos; e era uma aristocracia, que tinha mais direitos do que o terceiro estado, porque havia certos logares, que ninguem podia exercer sem ter os pergaminhos na mão: contra essa aristocracia seria eu o primeiro a votar, e seria uma cousa, contra que toda a Nação generosa devia combater até perder a ultima gota de sangue. Mas elles vieram aos tres estados, o não quizeram ceder daquelles privilegios, que não deviam ter. Fez-se uma coalisão para lhes resistir: a massa dos representantes quiz ver se podia fazer uma combinação para ficarem bem todos os partidos, mas a massa da aristocracia não o quiz assim: houve o juramento do jogo da pella, e então formou se uma Camara só, que se declarou constituinte. Então reuniu-se-lhe a minoria da nobreza, todo o terceiro estado, e a maioria do clero, porque essa maioria era composta do baixo clero, que não era o privilegiado; mas essa minoria da nobreza, se o era em numero, em qualidade era maioria, porque os grandes Senhores de França, os maiores adheriram á revolução, como era Lafayette, Montesquieu, Lameth, etc., todos se reuniram ao terceiro estado, e então formou-se a Assembléa constituinte com uma só Camara. De mais em França veio o flagello de uma fome, e esse flagello fez principiar os horrores da revolução, porque fez com que o Povo se mettesse em tumultos. Os intrigantes aproveitaram-se dessa occasião, principiaram a formar clubs, e uma minoria turbulenta a supplantar a maioria, que queria dar uma Constituição á França, conforme o projecto, que lhe apresentou a Commissão de Constituição da Assembléa constituinte; e é hoje sabido que muitos votaram contra a sua consciencia assustados pelas ameaças de fóra. Que veio daqui? Porque essa Constituição chamou uma Camara só, e de que serviu ella? De destruir a monarchia, e de proclamar uma republica, de convocar a convenção, e de entregar a França nas mãos dessa dictadura espantosa. Essa dictadura não serviu de nada para a liberdade, porque só combateu os inimigos