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14 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

der a execução d'esse regulamento, sem querer saber se os clamores eram justos ou injustos?

O que aconteceu com o imposto do sal? Por quantas transformações passou aquelle imposto regenerador? Estava então o sr. Fontes á frente do governo, e teve de transigir, e muito bem, porque é justo transigir com o que é rasoavel. (Apoiados.)

O illustre deputado, referindo-se ao relatorio que acabei de ler á camara, admirou-se de que eu apresentasse um deficit ordinario de 151:000$000 réis.

Admira-se agora o illustre deputado que eu apresente um deficit ordinario de 151:000$000 réis, e não se admirou n'outra epocha, quando um grande estadista apresentava no orçamento um saldo positivo do 27:000$000 réis! Não era um deficit de 151:000$000 réis, era um saldo positivo de 27:000$000 réis, que pouco depois nós vimos transformado em deficit de 9.000:000$000 e 10.000:000$000 réis. (Apoiados.)

Não posso discutir n'este momento o projecto do illustre deputado, nem quero mesmo discutil-o, mas pedia a s. exa. que adiasse a apresentação d'elle por mais um dia a fim de melhorar a sua redacção, porque me parece que s. exa. até quer suspender o que já não existe, quer matar o que já está morto.

O sr. Arroyo: - Esses mortos são os homens de Pombal?

O Orador: - Os homens de Pombal clamavam contra o inquerito agricola e não contra as licenças; todos podem fallar nos tristes acontecimentos de Pombal e só deve ter todo o cuidado em não fallar alguem que tenha qualquer mancha de sangue nas mãos.

(Sussurro.)

O sr. Arouca: - Mas quem é esse alguem?

O Orador: - Ao governo cumpre lastimar os casos tristissimos do Pombal, e se alguem tiver manchas de sangue em si proprio, esse alguem, seja quem for, não deve fallar n'esses acontecimentos.

O sr. Arouca: - Peço ao sr. ministro da fazenda que se explique; que diga quem é esse alguem. (Muitos apoiados.)

O Orador: - É isso o que o poder judicial ha do inquirir. (Apoiados.)

O sr. Arouca: - V. exa. ha de explicar-se e dizer quem é esse alguem, aliás podemos affoutamente dizer que essa phrase é para armar ao effeito no paiz. (Apoiados.)

(Agitação.)

O Orador: - Por mais que clamem, como eu já sei qual é o seu proposito, podem estar certos de que.

O sr. Arouca: - Qual proposito? Eu não consinto que v. exa. me faça insinuações de ordem alguma. V. exa. ha de explicar categoricamente esse ponto.

Vozes: - Ordem, ordem.

O Orador: - Não sei se sou eu que estou fallando, se é o sr. Arouca.

O sr. Arouca: - Não dou direito a v. exa. nem a ninguem a que me falte ao respeito. Nunca lh'o permitti, nem lh'o consinto. Repito, v. exa. ha de explicar-se categoricamente sobre este ponto. Ainda que eu incorra em todas as penas que a presidencia me quizer applicar, não desistirei de exigir do sr. ministro da fazenda explicações terminantes. Quero saber se pelos meus actos ou pelo meu procedimento s. exa. ou alguem está auctorisado a dizer que eu tinha o proposito de...

Vozes: - Ordem, ordem.

O sr. Manuel d'Assumpção: - É preciso que s. exa. se explique.

O Orador: - A primeira cousa necessaria para alguem se explicar é que quem deseja explicações esteja tranquillo e callado.

O sr. Arouca: - A primeira cousa necessaria é pedil as.

O Orador: - Se o illustre deputado continuar n'esse tom, eu não posso dar explicações. Eu accentuo que a primeira cousa necessaria para alguem que deseja explicações poder obtel-as é ouvil as tranquillamente, aliás é impossivel dal-as, e acrescento que dou explicações á camara, não porque o illustre deputado m'as exija, porque não lhe reconheço direito para isso.

O sr. Arouca: - V. exa. referiu-se a mim pessoalmente, e por consequencia não é á camara, mas a mim que ha de dar explicações.

(Susurro).

(Ápartes).

Quanto mais irritado for o tom dos illustres deputados, mais tranquillo e pacifico ha de ser o meu. (Apoiados). Eu tambem me irrito facilmente; mas quando absolutamente não quero, ninguem n'este mundo é capaz de me fazer irritar. (Vozes: - Muito bem). O illustre deputado falla em tal tom, que não poude ouvir as minhas palavras, repetindo lhe que dou explicações, porque desejo dal-as, e não porque reconheça a ninguem, senão ao sr. presidente, o direito de exigir-m'as n'esta casa. Dou as á camara.

O sr. Arouca: - A camara e a mim, que tenho direito a exigir-lh'as. Ha de darm'as n'este ponto por força. Não tem o direito de offender-me. Não imagine s. exa., que saio d'este terreno.

O Orador: - Esteja o illustre deputado no terreno em que quizer, que eu hei de manter o meu. O paiz e a camara julgará se s. exa. está no bom terreno da maneira como está procedendo, ou se sou eu.

Ainda não pude conseguir fallar, porque o illustre deputado tem estado sempre a interromper-me. Esteja s. exa. callado cinco minutos e verá como eu lhe ponho tudo claro.

Eu disse, porque o sr. deputado Arouca se levantou do seu logar irritado a proposito de palavras minhas a respeito do Pombal.

(Interrupção do sr. Arouca.)

Eu disse que por muito que o sr. deputado Arouca, ou outro qualquer deputado, se mostrasse irritado, eu, que conhecia muito bem o seu plano politico, não me irritaria por cousa alguma.

Aqui está o que eu disse. (Apoiados}.

O sr. Arouca: - Desde que v. exa. declara que foi isso o que disse, a mim serve me perfeitamente. (Riso).

O Orador: - Ora, se os illustres deputados me deixassem fallar, ficavamos todos logo satisfeitos. Assim só agora o poderam ficar. Bem me parecia que o accordo não tardaria.

Quanto ao caso de Pombal, repito o que disse com o mesmo tom sereno e tranquillo; que os acontecimentos de Pombal não tiveram por origem nenhuma, questão de licenças, mas uma resistencia boçal contra o recenseamento agricola ; que estes acontecimentos tinham causado algumas victimas, que ao governo e a todos cumpre lastimar; mas, que se alguem houvesse que tivesse as mãos manchadas de sangue derramado no Pombal, esse alguem nunca poderia levantar a voz para fallar dos acontecimentos de Pombal.

(Interrupções.)

Confessem v. ex.as que não me querem deixar fallar.

(Interrupções.)

Dão licença que eu falle?

Vozes: - Póde fallar.

O Orador: - Pois obrigado!

Eu julgava que este direito me provinha do regimento, que o sr. presidente deve manter; mas como é permissão dos illustres deputados, acceito e agradeço. (Riso.)

No Pombal houve infelizmente sangue derramado.

O poder judicial está inquerindo. Se o poder judicial averiguar que houve criminosos, e deve havel-os, esses criminosos, sejam elles quaes forem, estejam elles onde estiverem, esses é que nunca poderão levantar a voz para fallar dos acontecimentos de Pombal, excepto perante os juizes que tenham de os julgar.
Creio que não ha nada mais correcto.