96 DIARI0 DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
tes processos, e que, embora luctemos intransigentemente uns com outros, oppondo idéas a idéas, sustentando cada qual os seus principios com energia e com firmeza, não andemos sempre a enlamaer-nos uns aos outros, offerecendo ao paiz um espectaculo deploravel. (Muitos apoiados.)
As questões de moralidade são precisamente aquellas em que os exageros e os desmandos, da paixão partidaria podem ser mais perniciosos. É por isso que eu peço, tanto ao sr. Arroyo, cujos enthusiasmos tribunicios ficam tão bem na opposição, como ao meu amigo o sr. Antonio Maria de Carvalho, que, apesar da sua dedicação pelo governo, tem um invencivel temperamento opposicionista, que não tragam por fórma alguma para a discussão relativa ás obras do porto de Lisboa nem sequer resaibos de qualquer excitação politica ou partidaria. (Apoiados.)
É preciso que se lembrem todos de que nos ouve o publico das galerias, de que nos escuta o paiz inteiro, e que é absolutamente indispensavel, para bem de todos, que se não supponha, lá fóra que n'um assumpto d'esta natureza nós nos achamos aqui divididos em dois bandos cegos e desordenados, um empenhado era encobrir quaesquer abusos, outro disposto a inventar suppostos crimes. (Muitos apoiados.)
Encaremos todos a questão, com serenidade, com imparcialidade, como quem quer apurar e liquidar bem todas as responsabilidades, como quem deseja que se faça inteira luz sobre tão melindroso assumpto, mas não nos apaixonemos, não nos irritemos, não nos zanguemos. (Apoiados.)
Ha um proverbio francez que diz: tu te fache, donc tu as tort. Não nos zanguemos para que o paiz não supponha que não temos rasão. (Muitos apoiados.)
Q sr. ministro das obras publicas póde ter hoje muitos, amigos mais lisonjeiros e mais pressurosos do que eu; mas, nas horas da lucta e da adversidade, não teve companheiro mais leal nem mais dedicado.
Ora é era nome dessas antigas relações que eu desejo dirigir a s. exa. um pedido, antes de terminar.
Não, sáia o illustre ministro do terreno em que nobremente se collocou, e aguarde serenamente o exame da questão.
Estimei muito vel-o propor o inquerito parlamentar; folguei com a promptidão com que se tem declarado habilitado para todas as discussões.
Consinta s. exa. que eu lhe peça que se mantenha n'essa attitude, e que diga aos seus amigos mais impacientes que não sejam mais papistas do que o papa e que o trop zèle prejudica quasi sempre todas as situações.
Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O orador foi muito comprimentado.)
Postas á votação as propostas do sr. Marçal Pacheco e Alfredo Pereira foram ambas approvadas.
ORDEM DO DIA
Continuação da discussão do incidente sobre a questão das licenças e tumultos
O sr. Franco Castello Branco: - Não pedíra a palavra, quando fallava o sr. Antonio Maria de Carvalho, na persuasão de que hoje poderia responder ao illustre deputado que o procedeu no debate que faz parte da ordem do dia, levantando tambem algumas phrases proferidas pelo sr. presidente do conselho e aproveitando o ensejo para alguma cousa dizer tambem ao sr. Antonio Maria de Carvalho.
Começára pois por este ultimo ponto, expondo á camara as suas considerações muito breves, muito singelas e muito claras com respeito ás insinuações que o sr. Antonio Maria de Carvalho dirigiu a este lado da camara.
(Pausa.)
Como não está presente o sr. Antonio Maria de Carvalho, estima que esteja presente o sr. ministro das obras publicas, e estima-o para que, ouvindo o que elle orador vae dizer, possa dar cabal testemunho sobre se a opposição parlamentar logo desde a primeira sessão se apresentou com o proposito de calumniar alguem, ou se pelo contrario manifestando o rigido dever de fazer accusações, mas só depois do estudo minucioso dos factos, não recuando diante d'esse dever por qualquer ordem de considerações; queria tambem que o sr. ministro das obras publicas lhe dissesse se era a opposição regeneradora, que procedendo assim, merecia ser accusada de calumniadora pelo amigo de s. exa., o sr. Antonio Maria de Carvalho; ou se é alguem, que na sessão de 1885, sem coragem para levantar a questão dos caminhos de ferro, a que tambem imprudentemente se referiu o sr. Antonio Maria de Carvalho, não tivera pejo de dizer a Fontes Pereira de Mello, a cuja honestidade e grandeza moral, hoje todos rendem preito, que esse homem não podia mais entrar n'esta casa de cabeça levantada? (Apoiados.) Referia-se ao sr. Emygdio Navarro.
O facto é bem conhecido, e podia ter consequencias gravissimas, por ter ferido alguem, que de perto pertencia áquelle cavalheiro.
Compare o paiz o procedimento da opposição sobre a questão das obras do porto de Lisboa, com o procedimento de s. exa. o sr. ministro das obras publicas, na sessão de 1885.
Accusára-se a opposição regeneradora pela fórma por que está procedendo, calumniam-n'a, quando pretende simples e friamente examinar os factos, emquanto que a opposição progressista, e ainda não eram, corridos muitos annos, por uma das suas vozes mais auctorisadas, atacava d'aquella sorte a honra e a probidade de um homem como Fontes Pereira de Mello, a quem depois de morto os seus inimigos prestaram a homenagem não só de justiça mas tambem de arrependimento e penitencia, pelo muito que o tinha offendido e maltratado.
Aprecie agora a camara e todos que o ouvem o procedimento que segue a opposição regeneradora na adjudicação das obras do porto de Lisboa, para com o ministro que se diz victima de accusações injuriosas n'essa mesma questão, e compare-o com o procedimento d'esse mesmo senhor em 1855 para com o sr. Fontes Pereira de Mello.
Que era facil cpmprehender a rasão por que similhante incidente se levantou hoje na camara. Que hontem no Diario do governo publicaram-se, não os documentos que haviam sido requeridos pelo sr. João Arroyo e Pedro Victor, mas unica e simplesmente uma consulta da commissão de obras publicas do porto de Lisboa, e uma consulta da junta consultiva de obras publicas. Que esses documentos de data recentissima, foram logo commentados no jornal mais affecto ao sr. ministro das obras publicas, e que tal facto era bastante para demonstrar que se esperava uma influencia benefica para a situação de s. exa. Que mais nada se publicou d'aquillo que estava incluido no requerimento dos srs. João Arroyo e Pedro Victor, e ainda não conhecido do publico.
Que quando, nem o sr. Antonio Maria de Carvalho, nem todos os que o escutavam conheciam taes documentos, vinha o mesmo sr. Antonio Maria de Carvalho, deputado pelo circulo de Arouca, amigo intimo do ministro e membro do inquerito agricola levantar a questão por fórma tão insolita!
Sente que o provoquem e aos seus amigos de um modo tão insolito e tão inconveniente, quer para a justiça devida ao sr. ministro das obras publicas, se é que lhe era devida, quer para o socego e tranquillidade de todos. Que em questões d'esta ordem, levantadas por fórma que não só envolvem responsabilidades politicas, mas que tambem podem ser desagradaveis para as pessoas que estão n'ellas compromettidas, não eram os que precisam defender-se, que devem vir com insinuações injuriosas áquelles que, ac-