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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

se achava deitado, sendo o administrador salvo pelos paizanos. Que o dito capitão Bayão, chegando a esta villa no seu regresso de S. Gião, dera aqui sempre provas exuberantes de pertencer ao partido da opposição, não só porque na manhã do dia 15 de outubro findo disse no adro da igreja que, «a guerra civil estava proxima a rebentar no nosso desgraçado paiz, tocando toda a responsabilidade do primeiro tiro sobre El-Rei», mas tambem porque acompanhava constantemente com os principaes caudilhos d'ella, tendo com elles conferencias em casa do dr. Agostinho Thomás dos Santos Viegas, testemunha que já depoz, e d'onde elle depoente o vira saír no referido dia 15 já noite. Que o referido dr. Agostinho pertence ao partido miguelista, como quasi todos os que n'este concelho formavam a parcialidade da opposição, e por isso inimigos do actual governo, sendo inimigo figadal e rancoroso do deputado governamental o dr. Manuel Eduardo da Motta Veiga, e do administrador d'este concelho, Elisiario Vaz Preto Casal, e foi em casa d'elles que se acharam reunidos sempre e alojados os individuos assalariados pela opposição e os caudilhos d’esta, saíndo d'ali todos os planos de desordem, e tanto que o mesmo dr. Agostinho, anteriormente ao acto eleitoral, precorrendo algumas povoações d'este concelho a pedir votos, dizia aos eleitores que para o mez de janeiro tinham de pegar em armas contra o actual governo. Disse mais que lhe consta que o mencionado capitão Bayão recebêra dinheiro para fazer e publicar o seu protesto, e é certo que elle trouxera 500$000 réis para José Mendes Diniz Belem, testemunha que tambem já depoz, e que foi um que mais se distinguiu por parte da opposição na ultima lucta eleitoral. E mais não disse, e sendo-lhe lido o depoimento o ratificou e vae assignar. = Pereira. = Luiz de Almeida Mello.

14.ª

Francisco Saraiva da Costa, solteiro, pharmaceutico, de trinta e seis annos de idade, morador n'esta villa, testemunha devidamente ajuramentada, prometteu dizer a verdade. E perguntado ácerca dos factos constantes do auto retrò que lhe foi lido por elle administrador syndicante, disse ao primeiro que, por ver e presencear, sabe que a uma não fôra roubada; e que, assistindo ao escrutinio, tambem presenceára que elle fôra feito pela fórma que a lei determina, não havendo na leitura das listas substituição de nomes; dando-se a cada um dos dois candidatos o numero exacto de votos que haviam obtido em resultado da votação, e se continham dentro da mesma uma; e nem os que representavam o partido do governo tinham necessidade de praticar um tal facto, por isso que já desde a vespera tinham a certeza de terem a eleição vencida a favor do seu candidato por uma grande maioria, e isto por antecipadamente se terem contado as listas que entraram na urna, e que ali foram entregues aos eleitores; mas tambem porque sendo as listas, que continham o nome do candidato governamental, de formato muito maior e muito differente das que continham o nome do candidato da opposição, nenhuma difficuldade houve em saber o numero exacto das que tinham entrado na urna a favor de um e de outro candidato. Ao segundo disse que desde o exame a que por parte do poder judicial se procedeu na urna para se verificar se havia sido arrombada, se conservára sempre na casa da assembléa eleitoral, até muito depois da força armada ali entrar, e que conservando-se sempre proximo do administrador do concelho e do presidente da mesa, não presenceára, nem vira, nem lhe constára, fosse por estes dada alguma ordem ou vocal ou por escripto ao capitão Bayão, para entrar com a força do seu commando na mesma casa, da assembléa, e se ella ali entrou, foi por mero arbitrio do mesmo capitão; e talvez porque, apresentando-se os caudilhos da opposição com grande numero de individuos assalariados, suspeitos e de má fama dentro da igreja, com ares e maneiras provocantes e ameaçadoras; e tendo-lhes sido dito anteriormente ao acto eleitoral pelo presidente da mesa, que se tentava contra a sua vida, e se projectava o roubo da uma, conforme aviso que lhe havia sido feito, seria bom e até conveniente fizesse occupar a casa da assembléa, no momento de perigo, pela força do seu commando, que o mesmo capitão praticára este facto; e é certo que o presidente da mesa e o administrador do concelho, em vista da combinação que haviam feito com o capitão, convencendo-se que este alguma cousa tinha observado, no sentido que deixa exposto, e que por isso o momento de perigo era proximo, não deram ordem para que a força saísse da casa da assembléa, e consentiram que ella ali permanecesse Ao terceiro nada disse, por ter já respondido. Ao quarto disse que na occasião em que a força armada entrára na casa da assembléa eleitoral, estavam ali os caudilhos da opposição com toda a sua gente, e pela maneira que se apresentaram, e como já disse, mostravam bem pretendiam alterar a ordem publica, sendo necessaria toda a prudencia que os eleitores do partido governamental tiveram, para que hoje não houvesse muitas desgraças a lamentar. Ao quinto disse que viu e presenciou que a força armada depois de entrar na igreja, occupou ali as posições que lhe foram indicadas pelo seu capitão commandante, e a que foram completamente estranhos o presidente da mesa e administrador do concelho, e tanto que o referido capitão, depois da collocação da força nas posições que por elle lhe foram indicadas, voltou-se para a assembléa e disse: «fica assim para que a uma fique desaffrontada». Ao sexto disse que, durante o acto eleitoral, o administrador do concelho tratára a todos os eleitores, tanto governamentaes como opposicionistas, com a maior delicadeza e urbanidade, e é falso que elle prendesse algum d’elles. Ao setimo disse que, perante a mesa, ao administrador do concelho não fôra feito protesto algum por parte da opposição, e se esta saíu da igreja, foi porque não quiz sujeitar-se a que os seus caudilhos fossem revistados pelo administrador do concelho, que pretendia verificar se estavam armados, como o mesmo administrador já tinha feito a muitos do partido do governo; constando-lhe a elle depoente que a saída da opposição da casa da assembléa eleitoral tambem tivera por fim irem planear a fórma de entrarem á força dentro da igreja, e saberem a gente que para isto seria precisa, sendo certo que se mandára vir de Sandomil muita gente, e em numero de mais de cem pessoas; que na estrada real, junto a Torrozello, foram detidas por uma senhora, que de proposito e para este fim ali se achava, e que a mesma opposição, conhecendo as inconveniencias d'este plano, fôra depois protestar perante o poder judicial. Ao oitavo disse que a mesa estava collocada dentro da igreja, e no sitio aonde sempre esteve e para actos identicos áquelle a que se estava procedendo, e que os eleitores podiam muito bem verificar a legalidade do acto eleitoral se quizessem, pois que sómente era prohibido a qualquer d’elles o collocar-se na retaguarda do presidente da mesa, pelo receio que este tinha de ser assassinado, como lhe tinham dito, e elle depoente já declarou; que sobre a mesa estava a uma de pé, e que se algumas vezes o presidente a inclinava para elle, era pela muita difficuldade que tinha em extrahir d’ella as listas, em rasão de ser de baixa estatura, e alta a mesa e a uma, como se póde muito bem verificar. Ao nono disse que o capitão Bayão não teve o comportamento que allega em seu protesto, durante a lucta eleitoral, porque em S. Gião, como elle testemunha foi informado, vendo que se projectava o roubo da uma, se deitára na cama, allegando que estava muito enfadado, e depois sendo chamado para prestar auxilio ao administrador do concelho, que se viu ameaçado de morte, sendo-lhe posto um rewolver ao peito, se difficultára em se levantar e prestar o auxilio que lhe era requisitado; e na mesma povoação entrando em casa do padre José Lopes Freire, pedíra ali um copo de vinho, e brindara ao triumpho do partido opposicionista, e que sendo como era seu correligionario politico, havia de empregar os meios ao seu alcance para que podesse alcançar a victoria.