73
DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
Que depois que regressára a esta villa, o mesmo capitão Bayão mostrára sempre o seu affecto ao partido da opposição, acompanhando sempre com os caudilhos d'ella e conferenciando com elles; constando-lhe tambem que para isto fôra algumas vezes a casa do dr. Agostinho Thomás dos Santos Viegas, um dos principaes influentes da mesma opposição, e aonde se achavam sempre os correligionarios em sessão permanente, e aonde eram formados todos os planos; sendo certo que o mesmo dr. Agostinho pertence, como quasi todos os influentes do partido da opposição n'este concelho, á parcialidade miguelista, e como tal, inimigos do actual governo, e inimigo capital do candidato governamental o dr. Manuel Eduardo da Motta Veiga, e do administrador Elisiario Casal. Que consta e é publico e notorio que o capitão Bayão recebêra dinheiro da opposição para fazer e publicar, como publicou, o seu protesto; e na manhã do dia 15 de outubro findo, disse o mesmo capitão no adro da igreja d'esta villa, que: «a guerra civil estava proxima a rebentar no nosso desgraçado paiz, e que a responsabilidade do primeiro tiro pesava toda sobre El-Rei». E mais não disse, e sendo-lho lido o seu depoimento, o ratificou e vae assignar. = Pereira = Francisco Saraivada Costa.
15.ª
Luiz José Ferreira, viuvo, negociante, de cincoenta e cinco annos de idade, morador n'esta villa, testemunha devidamente ajuramentada, prometteu dizer a verdade. E perguntado pelo assumpto do auto retrò, que lhe foi lido por elle administrador syndicante, e com relação aos factos no mesmo auto mencionados, disse ao primeiro que é falso ter sido roubada a uma na assembléa eleitoral d'esta villa, á parte os esforços que os influentes da opposição empregaram para a roubar na noite do dia 14 de outubro findo e no dia 15. Ao segundo disse que a força armada entrára na casa da assembléa eleitoral, sem que para isso houvesse ordem ou requisição do presidente da assembléa ou do administrador do concelho, sabendo com tudo que estes a consentiram ali, por se convencerem de que a sua vida e a uma corriam perigo, por isso que tendo sido avisados de que estava formado o plano de os assassinarem e roubarem a uma, tinham combinado anteriormente ao acto eleitoral com o capitão Bayão, que este entrasse com a força do seu commando na casa da assembléa, quando visse chegado o momento de perigo; presenceando elle testemunha que alguns individuos da opposição soltaram n'aquella occasião vozes de «morra o administrador». Ao terceiro disse que já havia respondido. Ao quarto disse que havia tambem respondido na ultima parte do seu depoimento, com relação ao segundo facto. Ao quinto disse que as posições que a força armada occupára dentro da igreja, foram-lhe indicadas sómente pelo seu commandante o capitão Bayão, sendo estranhos a este facto o administrador do concelho e presidente da mesa. Ao sexto disse que é falso e destituido de fundamento o dizer-se que fôra preso um cidadão eleitor na casa da assembléa eleitoral; e não póde dizer-se de boa fé que o administrador do concelho tratára a todos bem, não praticando a menor violencia, e se elle não fôra tão bom como é, talvez que não se praticassem muitos factos que se praticaram. Ao setimo disse que ninguem protestára perante a mesa ou administrador do concelho, e que se a opposição saíu da igreja para protestar perante o poder judicial, foi porque se não quizeram sujeitar a serem revistados pela auctoridade administrativa, que pretendeu verificar se estavam armados, como já tinha feito a alguns eleitores que tinham votado com o candidato governamental. Ao oitavo disse que a mesa estava no mesmo sitio em que sempre foi collocada para aquelles actos, e de qualquer ponto da igreja se podia verificar a legalidade do escrutinio, e tanto mais que se podia chegar até ella, sendo sómente prohibida a estada de qualquer pessoa por detrás da cadeira da presidencia, porque o presidente receiava, como já disse, ser assassinado. Que a uma estava de pé sobre a mesa, e sómente o presidente a inclinava para elle, quando tinha de fazer a extracção das listas, collocando-a em seguida na primitiva posição. Ao nono disse que é publico e notorio que o capitão Bayão, na assembléa eleitoral de S. Gião, sendo chamado para prestar auxilio ao administrador do concelho, que se viu ameaçado de morte, se difficultára a levantar-se da cama em que já estava deitado, acompanhando ali com Joaquim Manuel da Silveira, de Sandomil, um dos influentes da opposição, e em casa de quem depois estivera quando regressava para esta villa. Que durante a residencia do mesmo capitão n'esta villa, fôra elle algumas vezes conferenciar com os caudilhos da opposição a casa do dr. Agostinho Thomás dos Santos Viegas, que, como bem sabido é, pertence ao partido miguelista, sendo por isso inimigo do actual governo, como tambem o é rancoroso e figadal do candidato governamental o dr. Manuel Eduardo da Motta Veiga, e do administrador do concelho, Elisiario Casal. Que tambem lhe consta que o referido capitão recebêra uma porção de libras para fazer e publicar o seu protesto, e ácerca do qual depõe. E perguntado por elle administrador syndicante a que grupo politico pertenceu durante a ultima luta eleitoral, respondeu que foi completamente neutral. E mais não disse, e sendo-lhe lido o seu depoimento o ratificou e não assigna, por dizer que não sabia escrever. = José Pereira Monteiro.
E não podendo ser inquiridas mais testemunhas n'este dia, elle administrador mandou encerrar este auto, que vae assignar, sendo primeiro lido por mim, Antonio Saraiva da Costa Ribeiro, escrivão, que o escrevi o assignei. = José Pereira Monteiro = Antonio Saraiva da Costa Ribeiro.
Anno do nascimento do Nosso Senhor Jesus Christo de 1878, aos 23 dias do mez do novembro, n ella villa de Ceia, e na secretaria da administração do concelho, aonde se achava o dr. José Pereira Monteiro, administrador do concelho da Guarda, em commissão regia n'este de Ceia, commigo escrivão de seu cargo, a fim de proceder a este auto para conhecimento da veracidade dos factos mencionados no auto retrò, e do qual este fica fazendo parte. E para isto mandou elle administrador vir á sua presença as testemunhas abaixo mencionadas, que continuou a inquirir pela fórma que segue.
16.ª
Bernardo Augusto de Abranches Pinto e Pina, presbytero, parocho da freguezia de S. Gião, aonde é morador, de quarenta e seis annos de idade, testemunha devidamente ajuramentada, prometteu dizer a verdade. E perguntado ácerca dos factos indicados no auto retrò, que lhe foi lido por elle administrador syndicante, disse que sabe, por ouvir dizer, que durante o tempo que o capitão Bayão esteve na freguezia de S. Gião, declarára ali algumas vezes que não era affecto ao partido do governo, por pertencer ao da opposição, presenceando elle depoente, na noite de 13 para 14 de outubro findo, e na occasião em que houve tumulto na casa da assembléa, promovido pela gente pertencente ao partido opposicionista que ali se achava, ouvindo dizer que este tumulto fôra feito de proposito para assaltarem a uma; o furriel da força militar ordenára á sentinella que se achava postada á porta lateral da igreja, que chamasse ás armas, porém esta não satisfizera a tal ordem, que lhe foi dada primeira e segunda vez pelo mesmo furriel, e sómente satisfez a ella quando á terceira vez foi ameaçado pelo dito furriel, chamando então ás armas, mas em voz baixa e voltada para o lado opposto aquelle em que se achava a guarda, não sabendo porém elle depoente se a dita sentinella fizera isto de proposito, e talvez por instrucções que lhe fossem dadas pelo referido capitão Bayão. Que sabe tambem que o mencionado capitão fôra por mais de uma vez avisado de que se planeava algum mau acontecimento, e por isso que para o prevenir seria bom que elle se aproximasse da casa da assembléa eleitoral, e elle nunca dera importancia a tal cousa, mostrando-se sempre indifferente e negligente. E mais não disse, e sendo-lhe lido o depoimento
Sessão de 13 de janeiro de 1879