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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

votos, bem como geralmente se dizia, que esta maioria não podia ser supplantada pela votação da assembléa d'esta villa.

Que por este motivo e attendendo ás occorrencias da noite, que já relatou, alguns eleitores da opposição, e entre estes o dr. Antonio Hortensio e dr. Agostinho, se dirigiram com um requerimento no dia 15 de manhã, a casa d'elle juiz, requerendo exame directo na urna, que suspeitavam viciada;

Que igualmente, pelo ver e presencear, sabe, que o juiz da comarca, acompanhado do ministerio publico, se dirigiram á igreja matriz para proceder ao referido exame, e apenas elle juiz saíu da igreja; logo se soube que a uma estava intacta, porque o mesmo juiz no adro disse em voz alta, que a uma não tinha sido arrombada ou viciada;

Que quasi immediatamente á saída d'elle juiz e ministerio publico viu elle depoente, que a tropa, em força de quarenta praças, pouco mais ou menos, e por ordem da auctoridade administrativa, entrou dentro da igreja por uma das portas lateraes, unica que se conservou aberta, e que depois da tropa estar dentro da igreja, é que foi permittida a entrada dos eleitores; mas um por um, e revistados á proporção que entravam;

Que, entrando dentro da igreja, depois de revistado como já disse, viu que a tropa estava formada em roda da uma, com ordem de não deixar approximar ninguem junto d'ella, sendo elle depoente um dos que tentou fazel-o, mas foi pela dita força publica repellido;

Que ao pé da mesa e da uma viu elle depoente os eleitores Antonio Hortensio, Thiago, Frias e Agostinho, que disputavam com o presidente da mesa o direito de ali estarem, e que o seu direito d'elles era igual ao d'elle presidente, ao que este replicava em voz alta, que não começava a extracção emquanto ali estivessem.

Declarou mais que, insistindo os ditos eleitores pelo seu direito, foram a final expulsos pela força, dando o administrador voz de prisão ao dr. Antonio Hortensio, e levando-o aos empurrões para fóra da area da tropa;

Que durante esta occorrencia observou, que o capitão da força se dirigiu, para junto da mesa a fallar com o presidente, e sem saber o que é que elle lhe expoz, o dito presidente disse em voz alta e enfurecido «que elle ali não mandava nada, e que havia de obedecer ás suas ordens d'elle», e por tal motivo o capitão se retirou para o seu posto e disse para o eleitor Thiago, de modo que toda a gente podia ouvir, que não tinham remedio senão saír, porque elle não podia deixar de cumprir as ordens recebidas, mas que podiam dal-o como testemunha;

Que, logo que os ditos eleitores foram expulsos pela fórma dita, começou o presidente a tirar listas da seguinte maneira: tirou primeiro uma que leu e rasgou, e em seguida e por mais de uma vez tirou as listas ás mãos cheias e as rasgou sem as ler; e vendo isto, e que todos os eleitores da opposição foram expulsos violentamente de junto da uma, sem que fosse possivel romper o cordão da tropa, elle depoente se retirou da igreja, e não sabe o que depois se passou pelo ver, mas é voz constante, e um facto geralmente sabido, que a força publica se conservou dentro da igreja na mesma posição já dita, até que terminou o escrutinio.

Declarou que os já ditos eleitores Antonio Hortensio e os outros acima ditos conseguiram approximar-se da uma por estarem já dentro da igreja, por terem acompanhado a elle juiz por intimação d'este, e assim ficaram na igreja depois de terminado o exame, e antes de entrar a tropa, porque de outra fórma não precisava o presidente da mesa e auctoridade administrativa de empregar a força para os expulsar, visto que não lhes seria permittido romper o cordão da tropa.

Declarou mais que a tropa, pelo modo que estava disposta e formada, vedava a entrada e passagem, não só para junto da uma e mesa eleitoral, mas para a maior parte do centro da igreja.

Declarou mais que ao retirar-se da igreja viu, que em roda d'esta andava uma patrulha de cavallaria constantemente, e que a porta principal da igreja e outra lateral estavam fechadas, e é um facto publico que assim se conservaram sempre e durante todo o acto eleitoral. Declarou finalmente que a tropa antes de entrar na igreja estava formada junto da porta lateral, e quando se estava a proceder ao exame judicial, carregou armas, e que na igreja estava formada com as armas e bayoneta calada. E mais não disse, e sendo-lhe lido o seu depoimento, o achou conforme e o ratificou.

5.ª

Antonino Cabral Tavares de Carvalho, solteiro, que é o mesmo mencionado na petição como Antonio Cabral Tavares de Carvalho, solteiro, proprietario, de quarenta e um annos, morador em Santa Marinha, jurou aos Santos Evangelhos dizer a verdade e aos costumes disse nada. E sendo interrogado á materia dos artigos da petição de fl. 2, que elle juiz lhe leu e explicou. Disse ao primeiro artigo, que nada sabia. A segundo disse nada. Ao terceiro disse que no dia 14, depois de fechada e lacrada a uma, alguns eleitores da opposição propozeram á mesa que ficasse dentro da igreja para a guardar a tropa e alguns eleitores de ambas as parcialidades, que se escolhessem, e as portas abertas, o que fui rejeitado pelo presidente e pela mesa; que rejeitada esta proposta pediram que ficasse dentro da igreja a tropa e que ao menos deixassem as portas da igreja abertas para poder vigiar de fóra quem quizesse, o que foi tambem repellido, recebendo todos os eleitores ordem para saír da igreja, aliàs que se empregava a força, em virtude do que toda a gente se retirou da igreja, sendo esta fechada. E mais não disse d'este. Ao quarto artigo disse, que depois das oito horas da noite, pouco mais ou menos, e quando elle depoente se ía deitar, ouviu a detonação de dois tiros, que lhe pareceram dados para o lado da igreja matriz, e, voltando lá, viu que o administrador, Elisiario Vaz Preto Casal, deu ordem á tropa para que fizesse saír do adro e de junto da igreja toda a gente, e foram inuteis todas as reclamações, porque a ordem cumpriu-se, não sendo permittido ficar no adro e em roda da igreja em toda a noite; que, sabendo seja o resultado das assembléas ruraes, muito favoravel ao candidato Abranches, e suppondo-se que não podia ser coberto esse resultado com a votação d'esta assembléa, e attendendo ás occorrencias da noite já ditas, e ainda a que todas as tentativas para vigiar a uma por parte da opposição tinham sido repellidas, suspeitaram alguns eleitores que a uma tivesse sido arrombada ou viciada durante a noite do dia 14, e por isso na manhã do dia 15 se dirigiram a elle juiz com um requerimento para se fazer exame directo na urna antes de ser aberta, e pelo ver e presencear, sabe que elle juiz e agente do ministerio publico entraram na igreja para fazer o exame requerido, ouvindo elle depoente a elle juiz, quando saíu, em voz alta e para os eleitores que estavam no adro, que a uma estava intacta, e que tivessem juizo; que, quasi logo que saíram juiz e delegado, entrou para dentro da igreja a infanteria em numero superior a quarenta soldados, que ali já se achava formada, carregando as armas em presença d'elle testemunha e de muita gente; elle testemunha entrára tambem para dentro da igreja pela unica meia porta lateral que se achava aberta, mas, ao entrar, o referido administrador do concelho pretendeu revistal-o, o que não levou a effeito, porque elle testemunha lhe disse que não levava comsigo arma alguma. Que vira e presenceára que a mesa onde se achava a uma com as listas se achava cercada por duas alas formadas pela referida infanteria, que afastava de ao pé da mesma mesa todos os eleitores, a não serem aquelles que faziam parte da mesa da assembléa, sendo elle testemunha um dos eleitores que foi afastado da mesa pela referida tropa e administrador do concelho.