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SESSÃO N.º 11 DE 1 DE ABRIL DE 1910 3

ABERTURA DA SESSÃO - Ás 3 horas da tarde

O Sr. Presidente: - Devo communicar á Camara que a mesa foi convidada a assistir á sessão solemne realizada na Academia Real das Sciencias em homenagem a Alexandre Herculano. A mesa compareceu a essa solemnidade, promovida pela mais alta instituição scientifica do país, associando-se assim mais uma vez á homenagem a esse grande vulto da literatura portuguesa.

Já antes a Gamara, votando os meios necessarios para se realizar condignamente essa festa nacional, manifestou qual era o seu sentir, tendo ensejo de se associar á manifestação em honra do grande literato, do grande historiador.

A Camara manifestou bem claramente o apreço em que tinha esse vulto nobilissimo das letras patrias nos multiplices aspectos da sua individualidade, porque, sob qualquer aspecto em que se encare a sua personalidade, Herculano o realmente um homem de alto destaque no meio de uma geração em que tantos se fizeram notar.

Assim, se o considerarmos como poeta, encontraremos em Alexandre Herculano um poeta de alta inspiração com rasgos verdadeiramente extraordinarios.

Se lembrarmos Herculano como literato, vemo-lo como criador do romance historico, brilhante e varonil e no genero literario faz honra á literatura portuguesa, e se porventura o igualado, não é com certeza excedido em nenhuma das literaturas estrangeiras.

Se o encararmos como publicista e jornalista, encontramos-lhe uma notavel aptidão e os seu escritos são brilhantes e vigorosos.

Se o considerarmos como historiador, a sua individualidade assombra-nos verdadeiramente pela pujança da obra realizada, é que custa a conceber que um só homem a pudesse ter feito, não só pela grandeza da sua inspiração, mas tambem pelo methodo historico que elle pela primeira vez introduziu no nosso país.

Se o considerarmos como sociologo e estadista vemos que a sua obra é verdadeiramente notavel e revela-nos um espirito superior, um espirito moderno e aprendendo na nossa historia a bem definir o caracter do povo português o habilitou a comprehender qual deve ser a evolução do nosso povo. (Muitos apoiados).

Como homem, o seu caracter é de tal tempera que eu, para não cansar a attenção da Camara demasiadamente com as minhas desataviadas considerações, direi apenas: se alguma cousa eu posso desejar de bom para o futuro do país, esse desejo será de que a sociedade, os homens do futuro de Portugal sejam da mesma tempera.

Eu desejaria propor para que se levantasse a sessão em homenagem a Alexandre Herculano, mas, como os nossos trabalhos estão infelizmente muito atrasados, sem perda do brilho da nossa homenagem ao grande vulto das letras patrias, eu limitar-me-hei a propor que esta manifestação fique consignada na acta da sessão de hoje, como prova de que nos associamos á commemoração que em todo o país tem sido feita em honra de Alexandre Herculano. (Muitos apoiados).

(O orador não reviu).

O Sr. Ministro da Justiça (Arthur Montenegro): - Sr. Presidente: em nome do Governo associo-me ao voto que V. Exa. acaba de propor. A Camara dos Senhores Deputados deve, mais do que nenhuma outra assembleia, prestarão preito da sua homenagem á memoria de Alexandre Herculano.

Alexandre Herculano foi ura grande romancista, um grande poeta e um grande historiador; quer dizer, o primeiro, pelo rigor do seu methodo.

Todos os escritores servem, a sociedade, pelo desenvolvimento da intelligencia humana, pela educação dos sentimentos, pela forma por que aperfeiçoam a lingua. Todos servem a sociedade, mas á pátria serve-a, sobretudo, o historiador. (Apoiados).

Uma nação não é uma união de raças differentes; pode ter a mesma aspiração; não a distingue uma lingua; em linguas differentes pode, em formas variadas, exprimir á mesma ideia.

Não a distingue a religião, porque, na liberdade bem entendida, as mais diversas crenças cabem na plenitude da consciencia de cada um.

Não a distinguem os accidentes naturaes do terreno, porque sempre os esforços humanos os vencem e as maravilhas da sciencia os fazem tornar quasi despercebidos.

Mas distingue-a, sim, um sentimento que nasce e se desenvolve pouco a pouco, assenhoreando-se completamente de um grupo de homens que habitam um territorio comumm e fazendo com que elles tenham, acima de todas as suas doutrinas, o amor do solo que lhes pretence, como corpo social autonomo.

Esse sentimento é, numa palavra, o que se chama o patriotismo. (Vozes: - Muito bem).

Esse patriotismo, nenhum escritor o pode frisar melhor como o escritor que, apertando os elos do desenvolvimento de uma nação, liga o presente ao passado e mostra á geração em que escreve, e ás futuras, para as quaes escreve, o que foram os seus antepassados, o que elles soffreram, os seus esforços, o que elles conseguiram, para constituir, afinal, a nação, para constituir, afinal, a pátria. (Vozes: - Muito bem).

Por isso eu disse que a Camara dos Senhores Deputados, a mais genuina e directa representação da nação, deve, mais do que nenhuma outra assembleia, o preito da sua homenagem a Alexandre Herculano (Apoiados), ao grande obreiro, que tantos elementos juntou para a personificação da patria portuguesa.

Tenho dito. (Fozes:- Muito bem, muito bem).

(O orador não reviu).

O Sr. Antonio Cabral: - Em nome da maioria progressista d'esta casa do Parlamento, associo-me á homenagem que esta Camará presta á memoria de Alexandre Herculano.

Quer como historiador, quer como romancista, quer como poeta, quer como polemista, o vulto de Alexandre Herculano sobreleva de tal maneira na historia da literatura do século passado que, ato hoje, não encontrou quem se lhe aproximasse ou attingisse.

Eu li ha pouco, num jornal francês, uma noticia, na qual se dizia que o Governo Português prestava ao grande historiador a homenagem que lhe era devida, e vi nesse jornal que se compara Herculano com Michelet.

Muitos pontos de contacto encontramos entre esses grandes homens que honraram respectivamente essas nações.

Sr. Presidente: o caracter de Herculano, como V. Exa. disse ha pouco, é também a qualidade que nelle mais admiro.

É aquelle caracter intransigente, respeitador de tudo aquillo que elle achava nobre e supremo, e desprezador d'aquillo que reputava baixo (Apoiados), caminhando sempre pela estrada da dignidade e do brio.

É por isso que eu digo que admiro o caracter de Alexandre Herculano, como sendo a aresta mais saliente da sua nobre e grande individualidade e porque me enoja cada vez mais o ver as transigencias rasteiras, as curva-