SESSÃO N.º 11 DE 1 DE ABRIL DE 1910 5
que se encontram gozando das relativas liberdades que hoje existem.
Os que se encontram elevados acima da obscuridade em que nasceram devem-no a Alexandre Herculano, que arriscou a sua liberdade e vida em defesa de principios que naquella epoca constituiam generosa aspiração dos bons portugueses.
Alexandre. Herculano, desde criança que, a bem dizer, combateu pela liberdade. Dizer-se que Alexandre Herculano em moço fora partidario das ideias reaccionarias é uma mentira, porque aos 18 annos de idade já era encarregado por dois officiaes do exercito, organizadores da revolta de infantaria 4, de ir lançar fogo á esquadra miguelista, e, se não levou por deante esse intento, não foi por fraqueza de animo, mas por terem hesitado no momento do perigo aquelles que entravam na conspiração.
Alexandre Herculano foi sempre um homem liberal, dedicado ao regime da Carta. Foi por isso que em 1836, discordando da revolução que se fez, escreveu as paginas violentas e injustas que mais tarde repudiou, da Voz do Propheta.
Não acceitava a Constituição de 1820, por a achar progressiva de mais nesse momento, para o pais, mas acceitou a constituição de 1838 como base de conciliação entre cartistas e setembristas.
Portanto se Alexandre Herculano condemnou o movimento de 1836, não condemnou os revolucionarios de 1838.
Alexandre Herculano, depois de ter entrado em 1840 e 1841 no Parlamento, onde pouco falou e muito se aborreceu, abandonou-o. Comprehende-se perfeitamente que um homem d'aquella envergadura. moral e alta intellectualidade não se compadecia com as mentiras parlamentares.
É uma mentira dizer-se que Alexandre Hercalano desanimou e sucumbiu em certo momento da sua vida. Entrou em plena actividade politica na revolução de 1851 a que se chamou regeneração.
Saldanha conferenciou com elle; foi Alexandre Herculano que fez o programma de 1801. Mostra-se isto especialmente no livro do Sr. Dr. Silva Cordeiro. No programma de 1851 reformava-se a lei eleitoral e reformavam-se varios artigos na Carta Constitucional, e realizava-se unia verdadeira revolução economica. Mas a Alexandre Herculano succedeu o mesmo que a Mousinho, foi ludibriado pelos aventureiros. Saldanha abandonou-o, como abandonou outros, em cujas ideias se inspirara. Foi então que Alexandre Herculano affirmou mais uma vez o soberano desdem com que encarou esses homens, mostrando a superioridade do seu caracter e grandeza da sua intelligencia. Mas embora se retirasse da actividade politica, nunca deixou de trabalhar pelo seu país.
E, quando a reacção religiosa começou a affirmar-se, foi Alexandre Herculano que falou no comicio no theatro de D. Maria, e quem, em nome dos liberaes, redigiu o admiravel programma da Associação das Escolas de Ensino Popular. Foi Alexandre Herculano quem lançou o alarme, quem mostrou o perigo ás gerações futuras.
Alexandre Herculano mostrou-se contrario á existencia dos exercitos permanentes. Foi sempre partidario da nação armada.
Quando em polemica com o jornal A Nação, este periodico foi querelado, Alexandre Herculano declarou que, apesar de pobre, punha á disposição do collega inimigo a sua bolsa. Este procedimento faz contraste com o de outros que hoje seguem normas diversas.
Quando foram expulsas as irmãs da caridade, sabendo que as senhoras da aristocracia que dirigiam os asylos os abandonavam, e que centenas de crianças se veriam obrigadas a ir para a rua, Alexandre Herculano promoveu um bello movimento de caridade em favor d'esses asylos, fazendo com que em todos os quarteis, se abrissem subscrições, os officiaes de marinha e os commerciantes concorressem com donativos de maneira que conseguiu que se arranjassem 54 contos de réis. Eram outros tempos, Esses homens, que falavam em liberdade, tinham aprendido essa palavra debaixo da chuva do chumbo das balas e invocavam os maiores soffrimentos. Esses que tinham fugido para o exilio sabiam perfeitamente que tinham escapado de espernear na forca do Caes do Sodré, e que, se tivessem sido presos, o eram por annos na Torre de S. Julião.
É por isso que não pode deixar de admirar esses homens, embora discorde de muitos dos seus actos.
Alexandre Herculano recusou sempre gran-cruzes e não acceitou a nomeação de Par do Reino.
Alexandre Herculano foi o primeiro que salientou o papel do povo nos fastos da historia, e, ao contrario do que se pretende dizer, elle nunca abandonou o povo.
Alexandre Herculano sempre defendeu as regalias municipaes e a instrucção popular obrigatoria.
(O discurso será publicado na integra quando o orador restituir as notas tachygraphicas).
O Sr. Joaquim Pedro Martins: - Sr. Presidente: em nome da minoria progressista dissidente, associo-me com vivo enthusiasmo á enternecida homenagem de respeito e saudade rendida pelo Sr. Presidente á memoria de Alexandre Herculano.
Glorificar os mortos que bem mereceram da sua patria e foram a encarnação poderosa do seu génio e da sua alma enaltece a geração que o faz, porque, do mesmo passo que é a aifirmação da solidariedade affectiva d'esta com elles, e, portanto, a prova consoladora de que ainda palpita a consciencia da nação é nobre homenagem de reconhecimento pelo thesouro do saber, de honra e de gloria que o seu labor prodigioso generosamente transmittiu ás gerações do porvir. E o grande e gigantesco português que foi Alexandre Harculano bem mereceu da patria portuguesa e justissimos titulos se criaram para que a sua memoria seja invocada pela alma nacional como a de unia d'aquellas figuras grandiosas, que são o desvanecido orgulho de uma raça, porque da sua nobreza são a expressão synthetica e culminante.
A personalidade de Herculano é de hontem, mas parece antiga, já quasi legendaria, - tão elevada foi a sua figura de intellectual, tão gigantesca a sua estatura de cidadão, tão austera a sua vida, tão divinamente fanatico o seu culto e tão heroico o seu esforço pela patria, pela liberdade e pelo direito.
Da gloriosa trindade romantica, que no seculo ultimo resgatou as letras portuguesas do classicismo esterilizante, convencional e já ridiculo, é Herculano o que mais concita o meu respeito a veneração. Porque, se Garret foi mais gracioso, mais elegante, mais harmonioso, e mais espiritual o seu engenho, Herculano foi mais forte, mais solemne e mais profundo. Se aquelle foi o divino Rafael do romanticismo, Herculano foi o seu assombroso Miguel Angelo.
Tão grandiosa e complexa foi a personalidade de Herculano, que ella se desdobrou em varias personalidades, e todas de accentuado e gigantesco relevo.
Poeta, foi-o de inspiração impetuosa e relampagueante no Soldado, fremente de patriotismo e da nobre generosidade na Victoria e piedade, majestoso, solemne e empolgante nesse assombroso e quasi epopeico hymno a Deus.
Romancista, levado por inclinação de espirito, por tendencia da epoca e por encanto de estudos, para assuntos historicos, sobretudo, da Idade Media, criou entre nos a novella historica, e compôs as mais formosas e suggestivas telas do viver, das ideias, das paixões, dos interesses e aspirações que ferveram e se degladiaram nalguns, dos periodos mais attrahentes e mais emocionantes da nossa historia, ou naquelle em que a nacionalidade portuguesa se