6 DIARIO PA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
agitava no anseio nervoso da sua constituição, ou quando, forte da sua independencia, da sua energia indomita, em breve ia mergulhar o seu olhar profundo nas vastidões do Atlantico.
Polemista, foi de vigor assombroso e sem par. Senhor de uma erudição pasmosa e conhecendo admiravelmente esta nossa lingua portuguesa, de formas tão bellas e tão energicas, a frase irrompia-lhe quente, solemne, vigorosa, candente, e o conceito forte, másculo e sempre triunfante. Ou uma vehemente e nobre paixão de desforço e dê vingar a verdade o commovesse, como no Eu e o clero, ou a uma profunda e serena convicção se amparasse, como no escrito sobre o feudalismo, sempre a sua penna foi grande e victoriosa.
Herculano foi ainda economista notavel, que em varios escritos deixou assinalado o seu valor; e jurista liberal e erudito que nos Estudos sobre o casamento civil patenteou a sua solida cultura e orientação liberal é progressiva.
Elle foi o nobre e cavalheiroso intellectual que pôs sempre a eloquencia poderosa da sua palavra vehemente e autorizada ao serviço das causas mais humanas e enternecedoras, ou fosse para valer á desgraça e á miseria dos pobres egressos e das tristes monjas, que a criminosa imprevidencia e cynico desdem do constitucionalismo votara impiedosamente ao soffrimento e á morte, ou para, em defesa dos inviolaveis direitos do pensamento, erguer seu vigoroso protesto contra a estupidez e prepotencia de um Governo reaccionario, que despotica e villãmente prohibiu as celebres conferencias do Casino.
Mas, sobre e acima de tudo isto, que já era sobejo para sagrar Herculano como astro de primeira grandeza das letras pátrias, elle foi o grande e até hoje inigualado historiador que, em paginas soberbas e immorredouras, reconstruiu á luz austera e impassivel da verdade, a formação da nacionalidade portuguesa, illuminou muitos e obscuros problemas da nossa vida collectiva e pôs a nu, com flagrante e flagelladora verdade, a historia da origem e estabelecimento em Portugal d'essa instituição sombria, cruel e barbara que foi a Inquisição.
O velho Portugal, que a pia e ingenua crendice de uns, a invenção astuciosa de outros e o falso e ridiculo patriotismo de quasi todos, envolvera e desfigurara em lendas e tradições ridiculas e sem veracidade, resurgiu, na monumental obra de Herculano, bello e sincero na sua simplicidade e energia real e mascula.
A lenda dissipou-se; e a verdade fria, austera, imparcial e bella, a unica que pode dourar as paginas da Historia, tomou o logar de honra que a crendice e á fantasia, a lisonja aduladora e o artificio classico lhe haviam usurpado.
Era colossal e aspera a empresa. E outro, que não fosse Herculano, teria sossobrado ao ensaiar os primeiros passos. Porem; elle,, quasi só, num terreno que por um lado era preciso desbravar de invenções e lendas, a muitas dos quaes a alma nacional se apegara com fervor, e por outro revolver e lavrar com a verdade, tendo de por si mesmo colligir e joeirar muitos materiaes recolhidos em manuscritos antiquissimos e barbaros, não sossobrou, antes alcançou a mais gloriosa victoria da sua vida de intellectual. Exhumou a verdade; e como que de um jacto, criou entre nós a historia humana, scientifica e social, a historia da realidade e não a da fantasia ou da crendice, a historia do povo, e não a chronica lisonjeira dos reis ou das classes privilegiadas.
Como historiador foi tão hercules a sua estatura, que, se quisermos apontar-lhe irmãos de armas, ha que transpor as fronteiras e pedir á Inglaterra Macaulay, á França Thiers e Guizot, ou á Allemanha Savigny, Kiebuhr,Eanke e Mommsen, isto é, as mais grandiosas figuras de cultores da historia.
A sua Historia de Portugal, ainda que incompleta, é tão bella, tão profunda, ergue Herculano num tão luminoso pedestal de gloria e de superioridade, que arrancou ao eminentissimo Macaulay. este brado eloquente de admiração que,, no dizer de um nosso grande orador, corta todos os discursos: "A Espanha devia esforçar-se por conquistar Portugal só para possuir Herculano".
O homem e o cidadão não desmaiam no confronto com o intellectual.
Português de lei, a austeridade moral do seu caracter, a fidalga generosidade, e o humano enternecimento do seu coração são dê um relevoi grandioso e antigo.
Cartista intransigente em 1836, renuncia ao Jogar de segundo bibliotecario do Porto, só para não perjurar a fidelidade á Carta, sellada com o seu sangue e com as torturas do exilio. Tinha então vinte e seis annos e o abandono do logar era a falta de recursos.
A desgraça e a miseria dos egressos e dos monges acordaram na sua alma generosissima o mais condolente, vibrante e amarissimo protesto.
Redactor do Pais, em 1851, quando em polemica violenta com a Nação, o Ministerio Publico interveio contra esta, por haver menoscabado a memoria de Pedro IV, Herculano reprovou a intervenção e escreveu estas memoraveis palavras, que deveriam ser o sagrado evangelho de solidariedade jornalistica: "A perseguição santificou e, tornou para nos inviolaveis os nossos adversarios politicos; Os redactores do país são em geral pobres e os recursos de um jornal nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a Nação em embaraços pecuniarios, nos rogamos singela e sinceramente aos seus redactores que não se esqueçam de que no escritorio do país hão de encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas".
Como cidadão, elle pertenceu á familia liberal; foi um estrenuo batalhador pela liberdade, pelas regalias municipaes e pelos direitos do poder civil.
Se durante muito tempo foi um cartista ferrenho e o amor á Carta o levou a trovejar indignado contra a revolução de setembro, jamais entendeu que o culto pela carta fosse compativel com a adulação ou servilismo ante o Rei, e que este pudesse, á sombra d'ella, resuscitar, claro ou disfarçado, o antigo absolutismo.
A Carta interpretava-a num sentido liberal e olhava-a como palladio das liberdades publicas, sem o que esta não poderia nem deveria subsistir.
Quando porem os acontecimentos o convenceram de que ella podia ser protectora da violencia e do despotismo como o foi do cartismo da Costa Cabral, Herculano renunciou ao seu antigo fanatiemov e avançou para o movimento da regeneração, que, entre os seus compromissos, trazia a reforma da Carta.
E, tanto antes como após este movimento, nunca a sua palavra eloquente deixou de estar ao serviço da defesa dos direitos da humanidade, impugnando a pena de morte; dos direitos do pensamento, profligando a estupidez da prohibição das conferencias do Casino; das regalias municipaes e dos direitos da nação contra a reacção ultramontana.
O municipio, instituição que, no conceito dê um escritor, parece saído das mãos de Deus, e Alexandre Herculano tão amorosamente descreveu na sua Historia dê Portugal, teve nelle o mais denodado e carinhoso apostolo. É a reacção ultramontana o mais poderoso e implacavel adversario.
Christão profundo e sincero, foi em propiia defesa do christianismo que elle despediu valentemente o seu montante, feito de saber, de luz e de verdade, contra a horda negra e vil dos reaccionarios e jesuitas, ensinando-nos, com a logica e com a historia, que elles são inimigos jurados e inconvertiveis do progresso, da civilização, e do verdadeiro christianismo, e que a vida de uma nação corre perigo de