SESSÃO N.° 11 DE 1 DE ABRIL DE 1910 7
morte, quando a sociedade ou o Estado sejam alliados ou cumplices da reacção ultramontana.
Por isso, Sr. Presidente, o centenario que acaba de celebrar-se, havendo sido a glorificação de uma individualidade, que se fabricou a golpes de genio e de saber a propria immortalidade, deve tambem soar para nos como brado de alerta, para que todos os liberaes cerrem fileiras, a fim de que, na luta inevitavel, que se avizinha, entre a luz e a treva, entre o progresso e a reacção, esta seja para sempre derrotada, porque a sua derrota é a derrota da maldade, da estupidez e da hypocrisia.
Tenho dito. (Vozes: - Muito bem).
(O orador não reviu).
O Sr. Zeferino Candido: - Tomará á Camara poucos momentos porque vê com grande satisfação que o que havia a dizer, ou o que se devia dizer, ou ainda, o que cumpria dizer de Alexandre Herculano, está dito com elevado enthusiasmo, como era justo que fosse.
O Sr. Presidente com a sua lucidez de espirito, presciencia e saber que o caracteriza, tracejou o caracter de Herculano em todas as suas variadas e complexas manifestações, e não esqueceu - como era justo que não esquecesse - um dos culminantes pontos da sua affirmação intellectual e scientifica e principalmente da sua affirmação patriotica, quando S. Exa. o pintou como um grande sociologo, como um grande politico, como um grande patriota.
Teve elle, orador, a infelicidade de ler num jornal que merece a maior consideração pelas fulgurantes penas que nelle collaboram, um artigo dizendo que a acção politica de Alexandre Herculano havia sido nulla. Isto é desconhecer a extraordinaria acção, a intensa e fecunda actividade d'esse grande espirito em todos os periodos das mais accentuadas crises politicas.
Bem fez o seu amigo e collega o Sr. João de Menezes, reivindicando o valor enorme da sua affirmação politica e sociologica, nas bellas palavras que proferiu e em que S. Exa. lembrou que, embora vencido num momento, e esmagadas e abandonadas as suas ideias, ellas não deixaram de produzir effeito, inoculando nos espiritos das gerações futuras grandes principios, estabelecendo privilégios e concessões que hoje se estão gozando á sombra do influxo das suas grandes ideias.
Relembrou o Sr. João de Menezes, com uma sinceridade que o commoveu, largos factos, vastos episodios, que demonstrara bem como a acção politica de um grande homem foi, porventura, se não a mais brilhante, sob o ponto de vista intellectual, com certeza a mais extraordinaria e a mais fecunda sob o ponto de vista patriotico.
Ha ainda outro .ponto sobre o qual elle, orador, quer chamar a attenção da Camara, porque merece bem ser considerado e que respeita á probidade scientifica de Herculano e ao seu caracter moral.
Disse se que Alexandre Herculano tinha abandonado a vida scientifica e philosophica quando se retirou para Valle de Lobos. Isto não é verdade.
Em primeiro logar é preciso accentuar bem que nas complexas manifestações d'aquella individualidade, a vida do campo, a cultura, os trabalhos agricolas que elle imaginava ser a principal fonte de riqueza do país, dominavam o seu excepcional espirito. Elle não podia viver sem o campo, sem a cultura, sem a agricultura.
Até mesmo na Ajuda, elle não se separou d'esse seu prazer, dessa sua necessidade espiritual, e possuia na Calçada do Galvão um quintal que arrendou, onde cultivava a sua horta.
Não se passava um dia sem que Herculano, com aquella sua regularidade não fosse ao retiro da Calçada do Galvão passar umas duas horas nos trabalhos agricolas. Foi elle o primeiro criador da magnifica manteiga de Portugal. Foi na Calçada do Galvão que começou a fabricá-la, e mais tarde, querendo desenvolvê-la, alugou um estabelecimento em Calhariz, de sociedade com uns seus amigos, e ali ia passar longas horas da sua vida e dos seus estudos, no convivio com a natureza, que sempre amou. Depois, com os 3 contos de réis que lhe rendeu a sua historia, comprou a quinta em Valle de Lobos, onde continuou com o exercicio de cultura e nos seus melhoramentos.
Herculano escreveu os seus quatro volumes de Historia de Portugal, sobre o que ella tinha de. mais difficil. Dizer-se que não acabou a Historia de Portugal é um equivoco. Alexandre Herculano fez uma obra completa, que deve chamar-se a historia da tfrigem e do estabelecimento da nacionalidade portuguesa. Colligiu, ainda, Herculano, 12:000 documentos, e, com uma grande dotação, uma generosa dotação - 1 conto de réis por anno! - que foi concedida á Academia Real das Sciencias pelas Côrtes Portuguesas, publicou a collecção dos Monumentos Historicos de Portugal, que fez honra ao país.
Se é grande a Historia de Portugal de Herculano, se é necessario esse valiosissimo trabalho da origem e fundação da nacionalidade portuguesa para o consagrar, a publicação dos Monumentos Historicos de Portugal faz honra ao nosso país.
Alexandre Herculano, em 1855, era vice-presidente da Academia Real das Sciencias. Trabalhava continuamente, constantemente, na fabricação dos elementos para a continuação da sua historia e para a publicação dos Monumentos Historicos. Verificou, então, que dentro da Academia, na sua administração, havia irregularidades de varias especies e que implicaram com a probidade dos empregados dessa administração. Fez-se um inquerito, procedeu-se á analyse das provas e reconheceu-se que o secretario perpetuo da Academia Real das Sciencias, Joaquim José da Costa Macedo, estava implicado e era certamente o principal autor d'essas irregularidades. Herculano foi implacavel para com o secretario perpetuo, e em sessão da Academia, e por unanimidade, Joaquim da Costa Macedo, foi suspenso. O inquerito foi levado ao conhecimento do Ministro do Reino em minucioso relatorio, com o extracto, a sumula, de todos os motivos que affirmaram a sua improbidade de funccionario.
E qual foi a resposta do Ministro do Reino? Foi nomear Joaquim José da Costa Macedo guarda-mor da Torre do Tombo, casa onde Alexandre Herculano ia todos os dias, ou quasi todos os dias, para trabalhar, manuseando os varios documentos existentes lá dentro.
Alexandre Herculano comprehendeu perfeitamente que esta affronta feita á Academia vinha incidir sobre a sua pessoa, porquanto Rodrigo Magalhães não podia perdoar a Herculano esses supplicios que lhe inflingiu, esse azorragar continuo dos 88 numeros do jornal que Alexandre Herculano criou para desaggravar-se do ultraje que lhe tinha sido feito. Essa affronta repelliu-a Herculano com honra, sacundido-a do seu capote com toda a dignidade.
Reuniu-se a Academia Real das Sciencias e Herculano apresentou a sua demissão de vice-presidente é de socio, declarando que jamais podia entrar na Torre do Tombo e não podia, portanto, continuar a publicação dos Monumentos Historicos. Não podia servir a Academia, não podia por isso ficar.
Passou-se o anno de 1856, e a breve trecho caiu o Ministerio Saldanha Rodrigo ou Rodrigo Fontes, e subiu o Ministerio do Marquês de Loulé.
Esperava a opinião publica, esperava a Academia e esperava Herculano que lhe fosse dada immediata satisfação ou reparação. Pois só em outubro de 1857 é que appareceu reformado Joaquim José da Costa Macedo, de guarda-mor da Torre do Tombo, quando Herculano já tinha manifestado as suas ideias numa celebre carta á Academia Real das Sciencias, que é manifestamente um dos maiores padrões de gloria e a affirmação ao seu extraordinario caracter, carta que elle, orador, lê á Camara.