SESSÃO N.º 11 DE 1 DE ABRIL DE 1910 9
ria II, presidida pela Bispo de Viseu, e em que Alexandre Herculano apresentou o prograrama d'essa especie de comicio ou reunião.
O Sr. João de Menezes tocou ligeiramente o assunto, mas permitta-me a Camara que eu leia as palavras que tenho transcritas, pronunciadas por Alexandre Herculano.
Dizia elle:
"Nos vimos aqui porque vemos o futuro do partido literal ameaçado. Não precisamos disfarçá-lo. A onda da reacção tenta invadir o que ha mais sagrado nas nossas instituições. Não nos illudamos: deixemos as mascaras hypocritas para os adversarios. Cumpre que este pensamento seja manifestado em toda a sua plenitude".
Não ha palavras que tenham maior opportunidade, quando a onda da reacção trabalha para invadir não só as altas esferas e situações, mas ainda as mais obscuras, querendo impor a opinião em tudo e por tudo. E assim, a nos compete, numa situação destas, quando commemoramos o centenario d'esse homem, que tanto se enobreceu nas lutas contra os ultramontanos; a nos compete applaudir as palavras desse homem e dizer á Camara, ao Governo e á sociedade portuguesa que estejam convencidos de que nos todos não seremos sufficientes ainda para combater a reacção. (Vozes: - Muito bem).
CO orador não reviu).
O Sr. Augusto do Valle: - Diz que depois da forma nobre, levantada e eloquente como foi apresentada a figura de Herculano pelo Sr. Presidente, e depois dos discursos primorosos que se teem pronunciado, não será elle, orador, que vae roubar tempo á Camara.
Herculano foi talvez um dos vultos mais importantes da nossa historia. Por qualquer dos aspectos que se encare esse homem, reconhece-se lhe a sua grandeza e, sobretudo, a alta qualidade que elle, orador, muito mais aprecia o seu caracter.
Debaixo d'este ponto de vista seria bom que todos os politicos baseassem o seu proceder nesse caracter, e de futuro reconhecessem a absoluta necessidade para que esse caracter não deixe de existir neste desgraçado país.
Propositadamente disse que não queria cansar a attenção da Camara, porque as suas palavras são singelas demais para tratar de um vulto como Alexandre Herculano, e limita se a associar-se em nome do partido regenerador-liberal á proposta da Presidencia.
O partido regenerador-liberal - acrescenta - é um partido de principios e elle, orador, não segue, nem nunca seguiu, homens, segue principios; é por isso que. qualquer que seja o chefe politico d'esse partido, elle, orador, não deixa de ser regenerador-liberal, emquanto no programma d'esse partido estiverem bases definidas que entende que são necessarias para o bem da nossa patria.
Tem a hombridade de declarar que nunca pediu nada a ninguem; tem a sua posição na marinha de guerra e nunca andou pelas arcadas do Terreiro do Paço a pedir o quer que fosse.
Termina, declarando associasse em nome do partido regenerador-liberal á proposta do Sr. Presidente.
CO discurso será publicado na integra quando o orador restituir as notas tachygraphicas).
O Sr. Almeida d'Eça: - Serei breve, Sr. Presidente, pois, certamente, depois da memoria de Herculano ter sido commemorada nesta Camara, na sessão de hoje, de tantas maneiras e por palavras tão eloquentes, poderia até parecer contraproducente que eu me atrevesse à aumentar qualquer cousa.
A unica razão que a isso me leva é a de ter tido eu a honra de apresentar em uma sessão anterior, e por delegação de diversos membros d'esta Camara, o projecto de lei destinado a fornecer á commissão do centenario de Alexandre Herculano os meros necessarios para oeeorrer ás despesas da celebração. Nesse dia, por motivo da propria urgencia do projecto, não devia eu demorar-me em considerações, aliás desnecessarias, para o justificar. Mal parecia, porem, que tia sessão de hoje, destinada a glorificar Herculano, eu não accrescentasse a minha homenagem individual á de todos os agrupamentos partidarios que tão calorosamente se manifestaram agora.
Ha pouco mais de quarenta annos eu vinha do Porto para Lisboa a seguir os meus estudos da marinha militar. Trazia o espirito e a memoria cheios da palavra de Emilio Dantas, o professor de português, que com tanto enthusiasmo nos recitou trechos da Voz do Profeta, da palavra de Delfim Manga, o professor de literatura, que com a sua analyse arguta e subtil nos mostrava as bellezas da Harpa do Crente e do Surico. E assim, cheio do nome de Herculano, o meu grande anseio era poder contemplar essa personalidade, cuja obra tanto me impressionou.
Uma tarde, em Lisboa, mostraram me á porta da livraria Bertrand Alexandre Herculano; e eu confesso que tive uma decepção no primeiro momento. Em minha imaginação tinha criado para o autor de tantas maravilhas uma figura imponente, forte, uns olhos coruscantes, qualquer cousa que deveria dar-me a impressão que eu ouvira que produzia a contemplação do Moysés de Miguel Angelo, em Roma, ou de S. Pedro de Grão Vasco em Viseu. E não. Eu vi um homem baixo, modesto, que não tinha nos olhos um brilho fulgurante, que não fazia gestos, nem ademanes desses que eu erradamente suppunha que deixam exteriorizar os grandes homens; mas vi tambem, que esse homem de apparencia modesta era ouvido com respeito, com veneração quasi, pelos que o rodeavam, e que como lhe bebiam extasiados as palavras; a breve trecho pareceu-me que se illuminara aquella fronte espaçosa e que em verdade dos olhos lhe saiam effluvios avassalladores.
Mais tarde criei familia é eduquei os meus filhos no respeito e admiração pela obra de Herculano. Eram para mim das melhores horas aquellas em que eu lhes podia ler os trechos favoritos dessa obra colossal.
Ultimamente, ha poucos dias, assisti á celebração feita em honra de Alexandre Herculano pela Academia Real das Sciencias em sessão solemne a que V. Exa., Sr. Presidente, se referiu no brilhante discurso com que iniciou a sessão de hoje.
Casualmente fiquei junto do busto de grande escritor, obra primorosa de Anatole Cahvels. Ia eu ouvindo os louvores de Herculano pronunciados pelos notaveis academicos que se succediam na tribuna.
De repente, olhando para o busto, pareceu me que aquella cabeça de marmore se animara e se inclinara um pouco como para melhor escutar, pareceu-me que os seus labios, delgados e finos, se desfranziam num sorriso levemente ironico, que me parecia dizer: "Bons amigos, conheço que me estimaes; agradeço-vos; vejo que vos esforçaes por entender a minha obra; mas quanto poderieis ainda dizer, se vos fosse possivel conhecer tudo o que se agitava no meu espirito quando escrevia, tudo quanto eu deixei de formular por escrito..." E aquella vasta fronte appareceu-me, num relance, transfigurada, é deu ao meu espirito dominado a visão momentanea do genio.
Muito mais me pediria a minha admiração pela obra de Herculano que eu dissesse; ainda. Não devo porem fatigar a Camara por mais tempo com á minha palavra sincera mas descolorida, sendo certo que a minha intenção foi apenas, como disse no principio, a de prestar, neste unanime concerto de louvores a Herculano, a minha homenagem individual, pois que, em consequencia de circunstancias que noutra occasião exporei, eu me encontro actual-