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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

O Orador: — Muitas dellas são amigos meus, e todas as que conheço são muito dignas de se lhes apertar a mão; o mesmo juizo formo das que não conheço, e emprazo a s. ex.ª que apresente as provas do contrario.

Se isto fosse dito por alguem que fosse novo n'estas lides parlamentares, por alguem que não tivesse illustração e conhecimentos para dizer mais, poderia desculpar-se, mas por quem está no caso de poder honrar esta tribuna, como tem honrado outras, é para se estranhar e para se censurar. (Apoiados.)

A minha indignação era justissima, e permitta-me a maioria que me queixe, e com rasão, da maneira desigual por que tratou o sr. deputado cuja eleição se discute, e por que me tratou a mim. (Apoiados.)

O que eu fiz foi lavrar um protesto levado por um justificado sentimento de indignação contra as asseverações de s. ex.ª que não eram verdadeiras.

Não se ferem adversarios por as costas em combate desleal, não se infama ninguem sem que logo se apresente a prova inequivoca do que se affirma.

Não sei se isto magoa alguem, mas repito hoje o que hontem começava de dizer, não são verdadeiras as asserções gratuitas do sr. Motta Veiga, e emprazo a s. ex.ª para que prove o contrario, e traga aqui esses documentos, porque é necessario que se puna essa quadrilha de salteadores que ainda está infestando Ceia. (Vozes: — Muito bem!)

Pois isto diz-se n'um parlamento, e ha de deixar-se passar sem correctivo?!

Disse tambem o sr. deputado, que se diz eleito por Ceia, que uma das testemunhas a que me referi, e que agora não nomeio, se comprava por quatro garrafas de Champagne!!

(Com vehemencia.) Não me lembro de ver descer tão baixo a eloquencia parlamentar, nunca se ouviu aqui um discurso d'esta ordem! (Apoiados.)

Sr. presidente, fui eu que encetei este debate, e parece-me que o fiz com a maior cordura e moderação. (Apoiados.)

Não provoquei, não insultei pessoa alguma, appello para o testemunho insuspeito da maioria, para que diga se eu n'esta discussão offendi alguem, ou o candidato, ou as testemunhas, ou os seus amigos, ou quem quer que fosse, apenas averbei de suspeito o administrador e o auto de investigação, e averbal-o-hei sempre. (Apoiados.)

Averbei-o de suspeito, e averbo-o ainda, porque os srs. ministro do reino e governador civil são responsaveis pela falta de providencias que pediam e deviam ter dado, quando no dia 14 lhes foram pedidas em telegramma, pelo candidato da opposição e por outros cavalheiros; não póde, pois, fazer-se obra por um documento que é filho d'essas mesmas auctoridades. (Apoiados.)

Eu discuti a eleição de Ceia com a maxima placidez; tratei de a discutir logicamente, de argumentar sem insultos nem insinuações, porque entendo que as verrinas só poderão servir nas más causas para se cobrir a deficiencia dos argumentos. (Apoiados.)

Mas v. ex.ª comprehende muito bem que a paciencia tambem tem limites, e que muitas vezes nós não podemos estar a medir todas as phrases quando recebemos uma provocação como a que eu hontem recebi do sr. Motta Veiga, pelos insultos dirigidos aos meus amigos.

(Pausa.)

Esta eleição está julgada. (Apoiados.) Se eu fallasse só para o parlamento, teria concluido depois de dar as explicações que entendi dever dar a esta junta, e de fazer sentir que tenho a consciencia de jamais ter faltado aos meus deveres como deputado, nem ao respeito que tributo a todos os meus collegas e á presidencia. Fallo, porém, igualmente para o paiz, e é necessario que não fique a menor sombra de duvida ácerca da fórma por que correu o acto eleitoral em Ceia.

Se eu precisasse de mais documentos, se eu os não tivesse de sobejo para justificar a nullidade da eleição, bastava-me ouvir o que disse o candidato que se diz eleito por aquelle circulo, e parecer da commissão de que é relator o meu illustre collega o sr. Freitas Oliveira. (Apoiados.)

Permitta-me v. ex.ª que eu faça uma rapida analyse dos fraquissimos e deploraveis argumentos de que se serviu o candidato que se diz eleito por Ceia.

E entre outras cousas disse o sr. Motta Veiga, que seu irmão, o presidente da assembléa de Ceia, tinha ido ter com o capitão commandante da força, e lhe tinha dito o que vou referir, pelas proprias palavras do sr. Motta Veiga, porque as escrevi «fui prevenil-o de que ámanhã me queriam matar».

Cuido que é isto.

(Pausa.)

O sr. Motta Veiga: — Não foi ámanhã. Foi no proprio dia.

O Orador: — Esperava já essa resposta; e foi essa a rasão por que me demorei já á espera do que s. ex.ª acaba de dizer.

Mas, não foi isso que s. ex.ª disse, tenho aqui escriptas as suas palavras, e duvidando eu da minha memoria, não duvido do que escrevi na occasião. Invoco o testemunho dos srs. tachygraphos.

Até aqui tenho um jornal insuspeito para s. ex.ª, porque é governamental, e que repete a sua phrase.

Visto, porém, que s. ex.ª declara que, ou se enganou, ou retira o que disse, não me servirei d'esse argumento. A resposta era facil e prompta, sabendo-se que o commandante da força estava n'essa occasião a tres leguas de distancia, o que só chegou no dia 15 de manhã.

Diz mais s. ex.ª: «Alguns individuos foram vistos com machados.»

Quem são esses individuos que foram vistos com machados? Como é que s. ex.ª vem aqui fazer asseverações meramente gratuitas, meramente graciosas?

Onde está o documento, o depoimento, ou qualquer referencia que possa sequer dar-nos um indicio d'esse facto?

Como é, pois, que vem fazer-se asseverações d'esta ordem?

Empraso o sr. deputado, que se diz eleito pelo circulo de Ceia, a que apresente os documentos em contrario.

Falla-se em desordeiros! Queriam assassinar os membros da mesa! Sabe s. ex.ª quem eram os desordeiros? Eram aquelles que em S. Gião, de noite, embuscados, na occasião em que passava o bacharel Antonio Hortensio Ferreira da Fonseca, lhe arremessaram de uma barreira uma enorme pedra, a qual, quebrando-lhe o chapéu de chuva e rompendo o que trazia na cabeça, o prostrou por terra sem sentidos e em perigo de vida; e não contentes com este traiçoeiro attentado, depois d'elle prostrado por terra, ainda lhe secundaram outra pedra, que quasi por milagre o não mata! (Vozes: — Ouçam, ouçam.)

Empraso o sr. deputado para que diga quaes os desordeiros que a opposição provocou, podendo eu dar o testemunho de que é a opposição mais pacata que tenho visto.

E falla-se em desordeiros! Quem são os desordeiros? Não os conhecerá o sr. deputado que se diz eleito por Ceia?!

Não quero espraiar-me mais n'estas considerações, porque me podem levar mais longe do que desejo.

Diz o sr. Motta Veiga, que a força armada entrou na igreja sem ordem alguma, e que se o presidente da mesa não a mandou retirar é porque precisava d'ella para o livrarem dos punhaes dos sicarios que estavam na assembléa!

É necessario muita coragem para isto se asseverar! Serviu-se da força para roubar á votação, e agora querem a responsabilidade para o commandante da força!

Testemunhas unanimes e contestes dizem que viram e presenciaram entrar a força na igreja por ordem do admi-