DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS 107
O sr. Presidente: - Tem a palavra o sr. Cortez.
O sr. Cortez: - Com o maior prazer anteponho a manifestação da camara ao desejo particular, que eu tinha de usar da palavra, para levantar algumas expressões menos exactas proferidas pelos illustres deputados que acabaram de fallar.
Vozes: - Falle, falle.
O sr. Presidente: - O sr. deputado tem a palavra, e póde usar d'ella.
Muitas vozes: - Falle, falle.
O sr. Cortez: - Torno a repetir que cedo da palavra diante da manifestação da camara.
Vozes: - Muito bem.
O sr. Presidente: - Tem a palavra o sr. Luiz de Campos.
O sr. Luiz de Campos: - Faço igual declaração á que acaba de fazer o illustre deputado, o sr. Cortez. Cedo da palavra diante da manifestação da camara.
Vozes: - Votos, votos.
O sr. Alves Matheus: - Eu tinha pedido a palavra sobre a materia, e v. exa. não me inscreveu.
O sr. Presidente: - Inscrevi, sim senhor, e tem agora a palavra.
O sr. Alves Matheus: - Sr. presidente, não era tenção minha entrar n'este debate. N'elle hão tomado parte oradores insignes e respeitaveis pela eminencia do talento, pela valentia da palavra, e pela sua larga e bem aproveitada experiencia parlamentar. Eu, obscuro novel, que assisto pela vez primeira a estas lutas, e que reconheço a pobreza de minhas faculdades, e a mingua de meus recursos, não posso, não me lembro sequer de defrontar-me vantajosamente com adversarios poderosos e illustres, que tanto se têem signalado nos triumphos da tribuna, e nas glorias do parlamento.
Ao levantar hoje voz, sr. presidente, é meu fim unico fazer algumas rectificações, e lavrar protesto sincero contra algumas affirmativas, que se soltaram no correr d'esta discussão, e com as quaes não posso concordar.
O digno ex-ministro e nobre deputado, o sr. Joaquim Thomás Lobo d'Avila, em quem eu admiro opulentos cabedaes de intelligencia e saber, mostrou-se um tanto magoado com a linguagem do relatorio, que precede a proposta de lei, em que o governo pede auctorisação para o levantamento do emprestimo de 18.000:000$000 réis. Parece que a s. exa. repugna por olhos em o negro sudario das nossas finanças, tão corajosamente desenrolado aqui pelo respectivo ministro. Registou s. exa. á conta de symptoma de mau humor a descripção apavorada, que do estado da nossa fazenda se nos offerece n'esse importante documento.
Não me admiro, de que tal documento ressume o mau humor do nobre ministro, que se sente lacerado pelos espinhos pungentissimos de que está ouriçado aquelle logar.
Não me admiro, de que estejam revendo desgosto e receio os francos e tristes dizeres do homem, que luta com grandes difficuldades, e que lida desveladamente por sanear os males procedentes das administrações passadas, e das quaes s. exa. não tem a responsabilidade (apoiados).
Não me admiro, de que n'esse relatorio ressumbre tambem o mau humor do paiz dolorosamente sobresaltado, vendo os seus cofres sem dinheiro, e o seu nome quasi sem credito (apoiados); sim do paiz, d'este pobre doente, que alanceado de dores e cercado de sustos, pede anciadamente remedio efficaz que o salve.
Eu, sr. presidente, só tenho motivos para applaudir a impavida isenção e cordeal sinceridade, com que o sr. ministro da fazenda disse a verdade ao seu paiz em assumpto tão grave e ponderoso (apoiados).
Em documentos d'aquella ordem eu quero a verdade rasgadamente desembuçada, sem termos equívocos, sem restricções calculadas, e sem cores postiças. Quero um esplendido, embora desconsolativo, fiat lux n'esse tenebroso cabos das nossas finanças, para vermos se d'elle surge um novo mundo.
É preciso, que o paiz conheça toda a graveza do mal, que o afflige, para que aceite sem reluctancia o caustico do imposto, que nós vamos lançar-lhe (apoiados). São necessarias economias, são indispensaveis tributos; mas para que o paiz comprehenda bem o alcance d'aquellas, e receba sem repugnancia estes, é urgentissimo dizer-lhe antes de tudo a verdade toda (apoiados).
Parece que se tem medo da verdade, sr. presidente, e é esta uma das causas por que havemos chegado ás afflictivas extremidades em que nos achâmos.
Parece, que se queria conservar aqui velado e mudo um mysterioso esphinge á porta do templo das nossas finanças. É a verdade a consocia inseparavel da liberdade; é a faculdade de a dizer um dos mais bellos attributos do systema representativo; é a obrigação de a declarar uma das mais rigorosas do homem publico. Seria a publicidade uma formalidade vã, se a verdade não fosse uma cousa sincera e bem patente (apoiados).
Em politica, em administração, e sobretudo em assumptos de fazenda, e em quadras anormaes, e tão apertados lances como aquelles em que nos vemos, deve desvelar-se a verdade inteira, sem reservas que a encubram, sem reticencias que a tolham.
Disse o sr. Lobo d'Avila, referindo-se seta duvida á suspensão de algumas obras, proveniente da falta de meios, que nas alturas d'este seculo, um paiz, que deixava de progredir, lavrava a sua sentença de morte, abdicava da sua existencia e se infligia a si mesmo o suicidio.
S. exa. apresentou o governo como o symbolo do estacionamento e da petrificação social.
Parar é morrer; é o mesmo pensamento traduzido em formula mais laconica e mui festejada. Progredir é caminhar, mas para que se caminhe bem, com firmeza, com segurança, com proveito e fóra das vias precipitosas, que vão dar aos despenhadeiros, preciso é consultar as proprias forças, e não as despender com excesso e sem discrição (apoiados).
O progresso muito rapido póde disparar ou em paralysia total, ou em morte inevitavel.
Nós, sr. presidente, acordámos tarde para os progressos materiaes, passámos annos e annos em conflictos armados e em lutas civis, que arregoaram de sangue o solo da patria.
Havemos jornadeado um tanto pela estrada dos progredimentos materiaes; mas, força é confessa-lo, de um modo desatinado, com forças de emprestimo, valendo-nos de expedientes faceis e a um tempo arriscados (apoiados), recorrendo do continuo ao credito, Dálila seductora e insidiosa, em cujo regaço gazalhoso nos recostámos confiadamente, sem nos lembrarmos de que podiamos acordar quebrantados de forças e carregados de grilhões.
Quando nós começámos, já outras nações haviam trabalhado muito e com fructo. Quizemos remediar o mal da tardança com outro mal, que foi o da precipitação (apoiados).
A febre dos melhoramentos materiaes levou-nos a vertigem á cabeça. Obras se fizeram tanto á pressa e com tanta sofreguidão e imprevidencia, que ficaram depois quasi inutilisadas. Haja exemplo essa estrada ordinaria construida entre Lisboa e o Porto, com aquellas magnificas e luxuosas estações de mala posta. Veiu depois a idéa do caminho de ferro, e essa estrada, aonde se gastaram mais de réis 800:000$000 ficou reduzida a proporções de vicinal para os municipios, que atravessa (muitos apoiados).
Outras obras se fizeram com grandes erros e notaveis desperdicios (muitos apoiados). Não gostam os srs. engenheiros de ouvir isto; mas eu já encontrei um muito distincto e sincero, que me fez aquella confissão.
A repartição das obras publicas ha sido uma voragem aonde se têem sumido, sem necessidade, quantiosas sommas (apoiados).
Desde 1852 até ao presente despendemos nós em obras de viação ordinaria e accelerada 41.000:000$000 réis, som-