108 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
ma enorme obtida quasi toda por meio de emprestimos, o alguns d'elles bem onerosos para o paiz (apoiados).
Uma parte não pequena d'essa somma esvaiu-se em esbanjamentos. Quero que progridamos e que não estacionemos. Sei, sr. presidente, que os melhoramentos materiaes são productores de riqueza e elementos de prosperidade; sei que as instituições da liberdade, as melhorias do progresso e os commodos da civilisação se não grangeiam nem sustentara sem dinheiro e sem sacrificios; mas é necessario que, caminhando, olhemos sempre para as nossas posses, não engranzando emprestimos uns nos outros, não sacrificando o dia de ámanhã ao dia de hoje, não nos arruinando o titulo de nos bemfeitorisarmos (muitos apoiados).
Permitta-me agora o sr. Fontes Pereira de Mello, um dos primeiros e mais abalisados homens publicos d'este paiz, que eu tenha a levantada honra de conversar um pouco acerca de s. exa..
Disse aqui o illustre deputado que estava para ver approvados certos actos pelos mesmos homens, que os haviam condemnado á ultima administração de que s. exa. fizera parte.
O nobre deputado, referindo-se assim levemente a actos da sua administração, parece que quiz atirar-nos com elles á face como se elles fossem para nós uma pedra de contradição e uma arma de guerra.
Mas nós, os homens novos, que não temos a responsabilidade de algumas desastradas medidas d'essa administração; nós que de maneira convicta e tenaz as combatemos na imprensa; nós que estamos resolutamente determinados a seguir a estrada direita por onde caminha a coherencia; nós é que tinhamos talvez mais direito de recordar esses actos e de os depôr placidamente na testada de s. exa., se tanto o demandassem as necessidades da defeza (apoiados). Aonde ha aqui em uma camara, que funcciona, ha poucos dias, que não votou ainda um só projecto de lei, contradições a arguir ou incoherencias a taxar? (Apoiados) Quiz s. exa. referir-se a algum imposto de consumo, que o sr. ministro da fazenda tencione apresentar a esta casa do parlamento?
Sr. presidente, devo fazer uma declaração explicita e categorica, que fielmente hei de cumprir. O imposto de consumo, que eu reputo um dos impostos mais arredados dos principios de equidade, que pésa principalmente sobre as classes pobres e desvalidas, que não póde ser cobrado sem investigações inquisitoriaes e actos vexatorios da parte dos agentes do fisco, o imposto de consumo, que encontra as mais adiantadas doutrinas de economia politica, combati-o eu na imprensa, e hei de impugna-lo sempre (O sr. Santos e Silva: - Apoiado), não hei de vota-lo aqui nunca (apoiados).
Disse o sr. Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello, que o governo lhe era preciso n'aquellas cadeiras, O governo não é só preciso a s. exa., o governo é preciso a todos nós, o governo é preciso a todo o paiz. O Governo é preciso ali, para que o paiz possa fazer confronto e apurar o seu juizo ácerca do que fizeram outras administrações e do que esta vae fazendo.
O governo é preciso ali, para que o paiz saiba quem é que despregou com braço robusto e com animo desassombrado a bandeira das economias (muitos apoiados), e quem é que soltou e engrossou a assoladora corrente dos depserdicios.
O governo é preciso ali, para que se conheça quem é que poz as economias em programmas ostentosos e nunca cumpridos, e quem é que as poz em factos visiveis e indubitaveis (apoiados).
O governo é preciso ali, para que se reconheça, que n'este paiz não ha sómente necessidade da receita de dinheiro, mas que ha uma necessidade maior ainda da receita de moralidade (apoiados), de energia, de coragem, e de resistencia ás adhesões interesseiras, e aos clamores apaixonados dos interesses offendidos.
O governo é preciso ali, para que ao largar o poder, deixe arrecadas nas arcas do thesouro algumas mealhas, que qualquer administração perdularia, que venha a succeder-lhe, possa consumir em espectaculos vistoso (O sr. Ministro da Marinha: - Apoiado.), em avultados subsidios, em vangloriosas prodigalidades (apoiados).
Sr. Presidente, soou a hora solemne de se dizer ao paiz a verdade completa, despida de enfeites, e desornada de refolhos, e em toda a sua desnudez severa; o paiz já não quer, que se estadecem programmas, e se desdobrem promessas; o paiz quer obras, só se satisfaz com factos. O paiz está cansado de phrases feitiças, de verbosidades sonorosas, de ludibrios repetidos, e de expedientes desacreditados; ajuizou já dos encartados emprezarios de salvação publica, que á força querem impor-lhe os seus remedios (apoiados); collocado entre as decepções do passado e os sobresaltos do futuro comprehendeu as miserias do seu presente (apoiados), viu que estava perdido quasi, e padece a impaciencia do seu salvamento. Mas d'esta lastimavel situação, a que chegámos, não foram sómente em causa os desacertos e as faltas das administrações passadas; é preciso que eu diga a verdade toda com a rasgada e rude sinceridade de um homem do povo, que eu sou. D'estas males, com que arcamos agora, cabe tambem um quinhão de responsabilidade ao paiz, porque desamparado do amor de si mesmo esteve adormecido nos braços de uma indifferença lethargica e culpavel, quedando-se impassivel perante o triste espectaculo da sua ruina.
Sr. presidente, resolvamos com decisão e com vontade a embaraçada e assustadora questão de fazenda, empenhemos todas as diligencias para equilibrarmos no mais curto espaço de tempo a receita com a despeza, para transpormos emfim esse medonho cabo das tormentas, denominado defiict, e em cujos escarpados recifes póde naufragar o paiz.
Porque não havemos de confederar os nossos animos, congregar os nossos esforços, com a mira patriotica de restaurarmos as nossa finanças? Curemos da fazenda, depois trataremos da politica.
Abramos, em meio de nossos dissidios, um parenthesis de concordia. Façamos por um pouco a paz, para fazermos guerra ao deficit.
São estereis todas estas pugnas; são pequenas todas as nossas paixões, perante a santissima paixão do amor da patria!
Seria esse um grande exemplo, de que havia de vir ao paiz um grande bem. Os filhos d'esta terra empapada de sangue, generosamente vertido para salvar a independencia e fundar a liberdade, de bom animo fariam todos os sacrificios de dinheiro, se nós todos identificados aqui em um só pensamento e em uma só voz, lhes dissessemos, que esses sacrificios eram indispensaveis para se manterem aquellas duas grandes cousas.
A camara elecetiva de 1834 foi uma camara benemerita, porque consolidou a liberdade. A camara elecetiva de 1869 póde ser mais benemerita ainda, se com a liberdade quizer salvar a fazenda e o paiz.
A camara está emfadada. (Vozes: - Não está.) Devo pôr termo ao meu desalinhado discurso.
Antes porém de o fazer, permitta-se-me que falle por um pouco da minha humilde pessoa. Tenho a honra de ser padre. Como tal, sou aqui o unico e desluzido representante d'esse pobre e desamparado clero portuguez, que ha trinta e cinco annos luta, particularmente na jerachia parochial, com as estreitezas da penuria e da miseria, sem lograr conseguir uma dotação condigna da missão altissima que desempenha, e dos importantes serviços que presta.
Hei de mostrar, em conjuncção accommodada, que a dotação do clero não é uma idéa reaccionaria. Hei de advogar, como podér, os legitimos e descurados interesses d'essa classe, em nome da liberdade, que é o sol de todos, e em nome da justiça, que é o direito de cada um.
Nunca poude descobrir antagonismos entre os meus deveres de sacerdote e os meus deveres de cidadão.