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SESSÃO DE 24 DE JANEIRO DE 1885 241

entrado ainda na vida publica, e para me orientar antes de chegarmos a esta discussão, recorri á leitura dos annaes parlamentares em que se transladaram os debates que no anno passado se travaram no parlamento.

Li com particular attenção, como era natural, os discursos proferidos pelo sr. presidente do conselho, e confesso a v. exa. e á camara que em alguns d'elles encontrei affirmações e doutrinas que suscitaram profundas duvidas no meu espirito.

Uma idéa que era insistentemente repetida por s. exa. nos discursos proferidos nesta e na outra casa do parlamento, era a de explicar e justificar as suas contradicções politicas com a auctoridade e o exemplo de sir Robert Peel.

Confesso a v. exa. e á camara, que eu tenho um pouco a mania de ler os annaes parlamentares, e por isso, ha pouco, lendo por acaso um discurso de opposição vehemente proferido pelo sr. Fontes em 1863, nesta casa, encontrei ali uma phrase que me parece de opportuna applicação.

Exclamava então e. exa.: «Pobre sir Robert Peel, que nunca o citam senão por causa das suas contradicções!»

Pobre sir Robert Peel, digo eu agora, cujas gloriosas, nobres e benemeritas contradicções o sr. Fontes pretende equiparar aos expedientes mesquinhos da sua acanhada política. (Apoiados.)

V. exa. e a camara sabem que, durante a sua larga e brilhante carreira publica, duas vezes sir Robert Peel abandonou os seus amigos, as suas antigas idéas, para perfilhar as idéas dos seus antigos adversarios. A primeira vez foi quando tomou nas suas mãos o programma de Canning, recentemente morto, e propoz á camara dos communs o bill da emancipação dos catholicos; a segunda vez foi quando propoz o bill para a abolição dos direitos sobre os cereaes, perfilhando assim o programma do partido uchig.

Examinemos rapidamente, porque eu não quero cansar a attenção da camara, quaes os motivos que actuaram no animo do estadista inglez para abandonar as suas idéas e seguir as dos seus adversários, e comparemol-os com os que influiram no sr. presidente do conselho, para vermos se era licito ao sr. Fontes pôr insistentemente em parallelo as suas contradicções com as de sir Robert Peel.

Sr. presidente, o que nos dizem hoje as paginas imparciaes da historia política da Inglaterra, quando as percorremos de animo desassombrado, é que Peel sacrificou talvez um pouco a pureza dos seus principios, a firmeza das suas convicções, a sua coherencia partidária e» a pratica regular do systema representativo, á gloriosa e levantada ambição de vincular o seu nome a grandes medidas de largo e benéfico alcance para o seu paiz.

Houve momentos, na sua larga e brilhante carreira, em que sir Robert Peel comprehendeu que chegara a hora de se realisarem as aspirações e os programmas dos seus adversários. Chamou então a si o encargo dessa realisação, mas fel-o sempre honradamente, lealmente, e porque na verdade as circumstancias a isso o impelliam.

Nunca empolgou o programma dos seus antagonistas, para o sophismar, para o illudir, como um calculo mesquinho de engrandecimento pessoal, como um estratagema habilidoso destinado a prolongar a sua estada no poder. (Apoiados J Elle não empunhou, nas suas mãos robustas, a bandeira do partido wliig, para a romper em farrapos, para lhe partir a haste e a rojar pelo pó. (Muitos apoiados.) E por isso Peel só conseguiu fazer votar o bill da emancipação dos catholicos e a lei da abolição de direitos sobre os cereaes, com o apoio transitório dos seus inimigos, e no meio da guerra violenta dos seus antigos partidários, tendo a pouco trecho de abandonar o poder, da primeira vez para uma larga e trabalhosa opposição, da segunda para não mais voltar aos conselhos da coroa.

Peel não foi tão feliz como o sr. presidente do conselho, porque nem o seu antigo partido teve a condescendencia de o acompanhar nas suas evoluções, nem o grande estadista pretendeu arrastar o seu partido, como se elle fosse uma guarda pretoriana, que devesse seguir submissamente o carro do triumphador. Peel não teve a felicidade de ter a seu lado maiorias como as maiorias regeneradoras, que tão dócil e complacentemente têem acompanhado o sr. presidente do conselho, nas suas reviravoltas, para a final s. exa. não desperdiçar nem um ensejo de lhes dirigir as mais amargas e injustas ironias. (Apoiados.)

Duas vezes fallou já neste debate o sr. presidente do conselho, e de ambas as vezes se dirigiu com evidente má vontade á maioria. A primeira foi quando disse, com visível intenção, que a disciplina partidária de outros tempos não era a de hoje, sem se lembrar que os chefes de outros tempos é que não eram como os de hoje, ouviam os seus correligionarios, inspiravam-se na opinião dos seus amigos, e não arvoravam a dictadura caprichosa e omnipotente de um homem em norma suprema dos destinos de um partido. (Apoiados.)

O defeito das maiorias regeneradoras, pelo contrario, devo dizel-o, sem pretender fazer censura de qualidade alguma á actual maioria, onde vejo tanta gente de talento, onde conto tantos amigos; o defeito destas maiorias tem sido a excessiva submissão e o terem-se deixado subjugar pelo poder omnipotente do sr. Fontes, de modo que hoje, quando alguém dahi levanta a voz, para formular qualquer reparo ou indicar qualquer opinião pessoal, o sr. Fontes diz logo, entre indignado e offendido: - a disciplina partidaria era outra nos tempos antigos!

Peel não tinha estas susceptibilidades exageradas, aliás não teria podido fazer triumphar as suas beneméritas contradicções, porque teve de ouvir aos seus amigos muitas e vehementes censuras.

A este proposito, e só por mero incidente, citarei um facto engraçado que encontrei no bello livro de Guizot ácerca de Robert-Peel.

Este episodio curioso succedeu quando se discutia o bill da emancipação dos catholicos. Na camara dos lords, naquella grave e aristocratica assembléa, lord Eldon, que fora um dos mais dedicados amigos de Peel, e que era um dos ornamentos do partido tory, apresentou uma representação dos alfaiates de Glasgow contra o bill que estava em discussão. N'esse instante, um dos nobres lords, interrompendo o orador, perguntou-lhe: O que têem os alfaiates de Glasgow que ver com o bill que se discute? E o velho lord Eldon, em plena camara dos lords, respondeu-lhe então.

O sr. Urbano de Castro: - Bem sei, é o caso de virar as casacas.

O Orador: - Então v. exa. leu o livro de Guizot? Fez muito bem. É leitura muito opportuna nesta occasião. (Apoiados.)

Mas permitta-me o illustre deputado que eu conte a resposta de lord Eldon: Os alfaiates não podem gostar de quem vira as casacas.

O que diria o sr. presidente do conselho se um digno par regenerador apresentasse na camara alta uma representação dos alfaiates de qualquer povoação do reino, desde Villa Real de Santo Antonio até Melgaço, desses que lhe pediram tudo meãos reformas politicas, contra a proposta das reformas por s. exa. apresentada? (Apoiados.- Riso.)

O sr. presidente do conselho terminou hontem o seu discurso dizendo que preferia escolher os seus ministros entre os sábios a ir escolhel-os entre os ignorantes. Oh! sr. presidente, tendo o sr. Fontes sido accusado de desprezar os seus amigos, os membros da maioria, para ir buscar ministros aos partidos estranhos ou aos gabinetes e laboratorios das escolas, a resposta do sr. presidente do conselho é uma injuria cruel vibrada às faces da maioria!

E esta maioria illustrada e talentosa não merecia, francamente, as causticas ironias do sr. presidente do conselho. (Apoiados.)