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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
quem eu pergunto se o programma do gabinete que ella acceitou ou tolerou foi ou não fielmente executado.
O sr. presidente do conselho pretendeu até devassar as nossas intenções, julgando que o nosso desejo era precipitar a crise, independentemente da discussão parlamentar. Dizia s. ex.ª: «Queriam que o governo se retirasse sem discussão: pois enganaram-se, e hão de ter a responsabilidade da crise».
Pois uma camara que se preza quer porventura evitar a responsabilidade da crise? (Apoiados.) Toma essa responsabilidade no interesse da causa publica, e não teme o debate. (Apoiados.)
Eu pela minha parte folgo com o debato, e gostei muito de que o sr. presidente do conselho se explicasse, porque tinha a convicção de que s. ex.ª, apesar dos seus grandes dotes de orador, não podia sustentar-se no terreno que escolhêra.
E não me enganei. O sr. presidente do conselho, apesar de ser um homem valente na tribuna parlamentar, depois do discurso que ultimamente pronunciou, não podia contar comum unico voto politico n'esta assembléa. (Apoiados.)
Não havia n'esta casa quem votasse uma proposta em que se dissesse — a camara, vivendo em communhão de principios e fins, francamente accentuada com o governo, e adoptando os principios extraordinariamente liberaes proclamados pelo sr. presidente do conselho na sessão de 21 de janeiro, declara que dá ao ministerio o mais decidivo apoio politico, e passa á ordem do dia — (Apoiados.)
A minha moção póde ter contra si uma votação importante por quaesquer circumstancias que hão liquido n'este momento; mas o governo não póde alcançar a apresentação sequer de uma moção fundada nas declarações do relatorio do sr. ministro da fazenda, que precede as suas propostas, e no discurso ultimamente pronunciado pelo sr. presidente do conselho. (Apoiados.)
E sinto que s. ex.ª pronunciasse similhante discurso, porque não abrigo sentimentos do odio nem de inveja contra ninguem, não quero outra força, nem outra posição que não seja a que resulta exclusivamente do meu valor pessoal, não quero levantar o meu throno sobre a ruina dos meus adversarios, não quero difamar os outros para me elevar a mim. (Apoiados.)
Mas politicamente alcançámos grande vantagem em que, o sr. presidente do conselho fallasse. (Riso.)
A camara sabe perfeitamente que o sr. presidente do conselho disse que eu vinha aqui sustentar doutrinas... não me atrevo a dizer o nome! É feio. (Riso.)
Foi o mais feio que s. ex.ª encontrou no seu vocabulario politico.
E repito que não me escandaliso, porque conheço o systema usado pelo sr. presidente do conselho, de ha muitos annos, contra os seus adversarios.
Ha sete annos, pouco mais ou menos, apresentando eu n'esta casa uma moção de censura contra o sr. presidente do conselho, ou aggredindo-o por actos violentos praticados nas eleições, e accusando-o outros meus collegas por ter mandado fechar as prelecções do Casino, sabe v. ex.ª o que disse então o sr. presidente do conselho?
Eu o digo em boa paz e sem desejo de que se saiba lá fóra. (Riso.)
N'essa occasião era elle tambem accusado de sustentar doutrinas reaccionarias, e deu-nos a mesma resposta que este anno lhe ouvimos.
Por isso nem apontamentos tomei do discurso que s. ex.ª outro dia proferiu, apesar de tencionar responder-lhe, porque calculei que o tinha aqui (Riso. — Indicando um volume do Diario da Camara. — Riso.)
Não me enganei. Vamos ver.
«O Orador (era o sr. marquez d’Avila): — Sr. presidente, doutrinas reaccionarias, disse o illustre deputado. É preciso que s. ex.ª e a camara saibam, que ha doutrinas que são reaccionarias em uma certa epocha, o que são altamente conservadoras e liberaes em outras epochas.
«Se o illustre deputado estivesse em París, e tivesse a responsabilidade do governo contra a communa, havia de comprehender que, quando se trata de combater um inimigo que declarou guerra á familia, á sociedade, a Deus; que incendiou os monumentos, as bibliothecas, as collecções que representavam os progressos da civilisação e das artes, que empregou o petroleo para conseguir os seus fins; que insinua aos seus adeptos que destruam tudo quanto existir, e que quando não poderem atacar de frente a sociedade, recorram ás conferencias por meio de associações; que quer a abolição do casamento; que quer a abolição da familia, a abolição da propriedade, que prega o atheismo...
«O sr. Luiz de Campos: — Sr. presidente, se está em discussão a communa, peço a palavra.
«O Orador: — Não está em discussão a communa, mas preciso responder ás accusações que se me fizeram.
«Sr. presidente, eu não espero que haja n'esta casa quem defenda a communa.
«Vozes: — Ordem, ordem.
«O sr. Luiz de Campos: — V. ex.ª está fazendo insinuações que não tem direito algum para fazer. (Muitos apoiados.)
«(Sussurro)
«O sr. Francisco de Albuquerque: — Sr. presidente, v. ex.ª tenha a bondade de chamar o sr. presidente do conselho á ordem; não póde estar a dirigir insinuações á camara.
«O Orador: — Não faço insinuações a ninguem...
«(O sussurro continua, e o presidente toca a campainha e chama os srs. deputados á ordem.)
«O sr. Osorio de Vasconcellos: — Chamo v. ex.ª o sr. presidente do conselho á ordem. (Apoiados.)
«O sr. Luiz de Campos: — V. ex.ª está insultando a camara...
«O sr. Falcão da Fonseca: — Não insultou ninguem; ordem, ordem.
«O sr. Presidente (tocando de novo a campainha): — Peço ordem a todos os srs. deputados. O sr. deputado por Vizeu dirigiu-se a mim, perguntando se estava em discussão a communa; o sr. presidente do conselho está respondendo aquelles que trataram das conferencias, e está perfeitamente na ordem. (Muitos apoiados.)
«O sr. Luiz de Campos: — Mas não póde fazer insinuações.
«O sr. Osorio de Vasconcellos: — Eu peço a palavra: é um insulto dirigido á camara.
«(Augmentando o sussurro disse):
«O sr. Presidente: — Está levantada a sessão, e a ordem do dia para ámanhã é a continuação d'este debate, devendo na primeira parte continuar a discussão do projecto que estava dado.»
Assim fechou-se tumultuariamente a sessão; e fomo-nos embora.
Isto succedia quasi todos os dias em que o sr. presidente do conselho fallava, porque perdia a serenidade indispensavel nos debates aos homens publicos tão altamente collocados.
Veiu tambem d'essa vez a internacional, e coube então responder sobre similhante assumpto a um sr. deputado, que é hoje ainda membro d'esta assembléa, o sr. Barros e Cunha.
Foi o ministro da fazenda d’esse gabinete, presidido pelo sr. marquez d'Avila e de Bolama, quem fallou da internacional e aqui vae a resposta do sr. Barros e Cunha:
«Isto não póde continuar assim, é impossivel. Repito, não dou o meu assentimento, nem mesmo a minha indifferença a este systema que nos ha de levar a uma ruina completa. (Apoiados.) Uma das questões em que o sr. ministro do fazenda hontem fallou, foi aquella em que se referia ao perigo de que estamos ameaçados pela subversão