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pertence. Vamos pois a aprontar o exercito, e as milicias: nada de prolixas discussões.
O Sr. Pinto da França: - Sr. Presidente: eu sou de voto que o projecto se discuta na presente sessão: a Commissão o julgou urgente, e como tal eu, e os meus collegas membros da mesma, nos démos pressa em o apresentar ao augusto Congresso, e se então o julguei urgente, urgentissimo o julgo agora: o illustre Preopinante que acabou de falar, o fez tão diffusamente, e com tal erudição, que eu reconheço em minha propria insufficiencia a impossibilidade de o seguir em o seu vasto discurso; mas passo a mostrar como puder, que esta urgencia he dictada pela lei, pela politica, e pela Constituição. Digo pela lei porque esta determinado, que se dessem baixas a todos os que tivessem certos annos de serviço, tal determinação se deve á risca executar, o que já se principiou a fazer, e deve continuar-se; mas sem o recrutamento torna-se impossivel, pois que se extinguirão os corpos. A lei determinou para o fim do recrutamento, que a falta dos capitães móres fosse substituida pelas camaras, mas a lei nesta parte se tem tornado nulla em seu effeito, e para remediar tal nullidade, e para que a lei não continue a ser um fantasma vão he que a Commissão se apressou a apresentar este projecto, para que a lei seja executada. Por motivos de politica he urgente a discussão, porque vendo a Nação não cumprido o que se lhe prometteu no apoio das leis, poderá vacillar que o imperio destas não he tal, qual lhe tem promettido a nossa sábia Constituição; he urgente por mais outro motivo de politica que me lembra, e he que o legislador deve esmerar-se em evitar o crime, tanto quanto deve affligir-se pela necessidade de o castigar, e os poucos soldados que hoje existem no exercito, sobrecarregados de trabalho, não podendo ter o descanço necessario, buscão na deserção um alivio aos males que de continuo os opprimem. Sim, o soldado deve ser essencialmente obediente, e subordinado, a este ponto não se chega sem os meios da disciplina, esta não póde empregar-se sobre homens continuamente opprimidos, tudo tem termo, e a experiencia tem constantemente mostrado, que quando a natureza lucta com obrigações impostas sem medida, estas succumbem. He urgente pela Constituição, porque determinando que haja uma força permanente, tal força desappareceu, seja permittido assim dizer, pois senão está de todo morta, está mui proxima a dar os ultimos suspiros; os mappas que do Ministro da guerra se tem recebido assás o demonstra, e sem offensa da Constituição, poderiamos nós deixar morrer o que ella quer que tenha perenne vida na sociedade? Poderemos nós deixar acabar o exercito, e estarmos sem elle, em quanto principiando de novo tem de passar, como passa quasi tudo no mundo, como passa o homem, pela infancia, pela juventude, e pela virilidade? Esta he a idade em que se colhem os serviços preparados na segunda, e na primeira; nas quaes cumpre tratar da creação, e da instrucção; e em quanto o exercito não tiver chegado á sua virilidade, como ha de o Governo manter com elle a interna, e externa segurança segundo a Constituição: he pois indispensavel pela mesma, que nós cuidemos, sem perder a menor divisão que se possa fazer do tempo, em manter a vida desta virilidade do exercito, que ainda existe, e isto só se póde fazer pelo recrutamento; temos ainda cascos, aproveitemo-nos delles, e tratemos disto quanto antes; o soldado deve ter disciplina, e só com tempo esta se póde adquirir, para elle chegar ao gráo de poder ter este nome, e de estar exactamente nas circunstancias, em que a Constituição o quer pôr nas mãos do poder executivo. Parece-me que tenho desenvolvido os fundamentos que tomei para a minha asserção; he pois pela lei, pela Constituição, e pela politica, que esta briosa Nação deve cuidar no recrutamento para pôr em devido pelo seu exercito. A Nação portugueza foi sempre dirigida pelo brio, e agora dilatando eu as vistas além da circunferencia em que me tinha inscripto, agora que eu, como a Nação toda, vêmos um caliginoso horisonte, que parece vir pejado de males, para derramar sobre nós; nós que acabamos de determinar a nossa monarquia estabelecida na lei jurada, e protegida do amor, e da vontade geral, poderemos adormecer, quando se diz que esta he ameaçada? Um amavel Rei que se identificou comnosco, o interesse geral da Nação, nossos vindouros a quem promettemos felicidades não terão de arguir-nos no presente, e no futuro? Pelo nosso esquecimento do que era mais do nosso dever? A Nação portugueza que jurou de não soffrer leis, senão de si mesma, senão de Portuguezes, poderia soffrer que se lhe mostrasse, ainda que de longe, cadêas, sem que se prepare para ir ao longe despedaçadas? Não por certo, a Nação conhece a urgencia de formar o seu exercito, a Nação quer que elle não seja meramente um bando de homens armados; mas sim que a disciplina forme soldados, forme officiaes, forme generaes; quer e precisa, que a luz da sua gloria resplandeça nella, e não em pessoas estranhas, he preciso que hoje nos lembremos do que já em outro tempo dizia o principe dos nossos poetas a ElRei D. Sebastião, querendo mostrar que os Portuguezes são tão proprios para generaes como para soldados; são estas as palavras do poeta:

" Fazei Senhor que nunca os almirados,
" Allemães, Gallos, Italos, e Inglezes
" Possão dizer que são para mandados
" Mais que para mandar os Portuguezes.

Se nós vivemos no conhecimento, e na memoria dos povos nossos vizinhos, e de nós assás afastados he pela memoria dos nossos generaes, cujos nomes por toda a parte são sabidos; he com os nomes destes que ficão eternizados, como por elles representados os nomes dos bravos soldados, que em razão de sua numerosa classe acabão com suas vidas nos campos de batalha; assim, Senhores, he pelo brio nacional, he pelas mais sagradas, e ponderosas razões, que eu termino, altamente repetindo, que o projecto he urgente, e que deve hoje mesmo entrar em discussão.
O Sr. Serpa Pinto: Eu apoio tudo quanto tem dito o illustre Deputado; e só accrescentei, que o