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Ora, Sr. Presidente, aqui está o estado vantajoso em que nós estamos! Aqui está a situação favoravel da Fazenda, aqui estão desvanecidas todas as esperanças lisongeiras que um momento de illusão nos poderia ter feito conceber!
Sr. Presidente, eu não faço um discurso, converso parlamentarmente, e com todo o interesse de quem pertence a uma Nação, a respeito de cujos negocios se vai tractar; converso parlamentarmente sobre estes negocios, que tanto nos interessam a nós todos, que tanto interessam á representação de um Paiz, que e chamada a remediar os males que existem. Por consequencia a Camara relevará, se por acaso eu não sigo uma ordem methodica que não fatigue tanto a sua attenção, porque fallo pela inspiração, e por isso mesmo eu mostro que não peço á arte oratoria os recursos para entrar na discussão, contento-me com a força da minha convicção a respeito das questões, e ella a dizer a verdade, é a melhor de todas as conselheiras, e é a mais feliz de todas as rhetoricas.
Sr. Presidente, este Ministerio tem oito mezes feitos (Vozes: - Sete): este Ministerio data de 18 de Junho do anno passado, entrou nesta Casa apoz uma Administração a quem a Maioria não tinha faltado, nem n'uma, nem na outra Casado Parlamento; esta Administração, Sr. Presidente, entrou no Parlamento tendo á sua testa o actual Sr. Presidente, do Conselho de Ministros, que nos declarou, por occasião da sua entrada, que S. Exa. tinha modificado as suas opiniões, e essa modificação, Sr. Presidente, que honra muito todo o Homem d'Estado, porque a dizer a verdade o estudo constantemente modifica as opiniões, senão altera os principios verdadeiros eternos de razão e de justiça, modifica as nossas opiniões a respeito do modo de vêr as questões, e a respeito de considerar as pessoas; essa modificação, Sr. Presidente, deveria, parece-me, ser entendida n'um sentido absolutamente differente do que aquelle que talvez actualmente se deva considerar que teem os actos do Governo, os actos publicos da Administração. S. Exa. o illustre Presidente do Conselho disse que tinha modificado muito as suas opiniões: ora nesta occasião uma pessoa que tem precedentes, uma pessoa que tem uma longa historia, uma pessoa que teve uma parte activa nas Administrações do seu Paiz, quando diz que modificou as suas opiniões, e quando entre as pessoas que compõem essa Administração, se apresentam algumas que combateram os actos da Administração anterior de que S. Exa. fazia parte, entende-se que S. Exa. o Sr. Presidente do Concelho de Ministros nessas circumstancias realmente modificou as suas opiniões a respeito daquelles pontos em que essa modificação apparece, por assim dizer. personalisada n'um dos Ministros, ou em mais dos Ministros; isto parece incontestavel, principalmente se o silencio desse Ministro vier em confirmação desta declaração, se o silencio desse Ministro disser: não fui eu que modifiquei as minhas opiniões, e o Sr. Presidente do Conselho expressamente dissesse, fui eu que modifiquei as minhas. Creio que e licito, freio que é opportuno examinar as opiniões dos Srs. Ministros, saber o que vale, o que pesa, o que medo cada um delles, e vêr a significação que tem a Administração pelo conjuncto das pessoas que a formam, porque desenganemo-nos, eu sei o que é solidariedade ministerial, mas é preciso não abusar do absoluto dos principios. Se por exemplo qualquer diz - a Administração presidida por Mr. Guizot é solidaria, se quizerem dizer todos os Ministros teem o genio de Mr. Guizot, são solidarios no seu genio, digo que é absurdo, e creio que ninguem se demorará em o demonstrar. Por consequencia quando se falla em solidariedade de Ministros de certo que não se tira o direito de distincção de pessoas, e a distincção de pessoas é inteiramente necessaria para o caso de que tracto.
Disse S. Exa. que tinha modificado as suas opiniões, e a presença de um dos Srs. Ministros na Administração era prova de que essa modificação existia a respeito dos pontos que elle tinha combatido, pelo menos que se encaravam differentemente esses pontos. Ora pergunto eu: S. Exa. o Sr. Presidente do Conselho de Ministros, quando quer dar auctoridade á sua pessoa, quando quer dar auctoridade aos seus actos vai procurar a recordação do passado, e ainda que S. Exa. tenha dicto nesta Camara, ou na outra, não me lembra, qual dellas - que não entendia de finanças, (parece-me que isto foi uma expressão de S. Exa.) apesar de S. Exa. ter dicto isto, S. Exa. invocou o testemunho de Administrações passadas, de factos gloriosos a respeito de finanças, para fazer, valer a auctoridade que entende dever ter no actual Ministerio. Ora, Sr. Presidente, é muito facil alludir-se na occasião em que os acontecimentos por assim dizer ainda não estavam ligados, quando de toda a parte se fallava do milhares de contos de réis, de Companhias, quando os contos de réis abundavam de uma maneira tal que a gente insensivelmenta despresava as pequenas parcellas, tinhamo-nos tornado perdularios, quando não se fallava senão em Companhias de 12, 20 mil contos, de deixar para os Inglezes 8:000 contos, de não dispôr de tantos milhares de contos, realmente eu confesso que fui dos illudidos, e que o fallar na bondade de uma tal situação, a dizer a verdade, era desculpavel em quanto a illusão não tinha passado.
E digo mais: eu não venho hoje dizer que era mão que existisse o credito publico; se assim o dissesse, diria um absurdo; não venho dizer que era máo que naquella epoca houvesse credito; não venho dizer que foi máo que se creassem Companhias, nem que convinha mais que os capitães se agglomerassem para fins improductivos; não, Senhor; mas o que eu digo, é que me parece que diz a historia, porque já ha alguma cousa escripta a esse respeito, é que esse credito não foi aproveitado, e que esse credito não teve o seguimento que devia ter, e por isso, em pontos desta natureza é preciso que não queiramos fazer titulos de gloria daquillo que a experiencia já mostrou que não foram senão erros, dos quaes infinitos maus resultados nos já temos sentido. E, Sr. Presidente, é talvez neste sentido que um grande homem de Estado na Repartição de Fazenda, o Barão Luiz dizia que a maior difficuldade de governar, e de ser Ministro da Fazenda era quando havia abundancia de meios. Parece isto um paradoxo, mas pensado bem, não ha duvida de que assim é, porque quando ha abundancia de meios é que o Ministro tem de pensar, e vêr o que ha de fazer a bem do Paiz, estabelecendo sobre uma larga base os seus interesses. Ora, Sr. Presidente, fez-se isto? Podemos nós hoje gloriarmo-nos disso? Eu já disse nesta Casa que os capitães teem muito juiso, e é verdade;