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poleão durou só cem dias na sua segunda tentativa, e estes e outros factos mostram a S. Exa., que por mais forte que esteja, a fortuna não se reforma, nem se repete; é preciso que acredite no revez, ha de te-lo necessariamente, não o póde impedir.

Sr. Presidente, eu peço desculpa de ter de cançar a Camara, mas a minha posição obriga-me a entrar na apreciação de certas questões, a respeito das quaes cumpre-me apresentar algumas considerações, e entrar no exame de todas as circumstancias que concorram para inhabilitar a actual Administração presidida pelo Sr. Conde de Thomar. - "A ordem não tem sido perturbada" - Mas a segurança publica tem ella sido satisfactoria?... S. Exa. que o diga; mas em quanto o não faz, submetto á sua consideração um facto importante, e vem a ser: - É verdade, ou não, que no lagar mais publico desta Capital, no logar mais frequentado, houve tentativa de assassinio contra um individuo á saida do Theatro de S. Carlos?... É, ou não verdade, que os assassinos eram em grande numero?... Haviam algumas precauções?... Teriam elles a certeza de que seriam apprehendidos?... Pode-se-me responder que foram logo apprehendidos; mas repare-se bem na circumstancia de, em tal logar, se apresentarem quatro homens armados de punhaes para commetterem similhante delicio! Que providencias se tomaram?... Não passeiam os assassinos livremente pelas das de Lisboa? Eu não quero dizer, com isto, que se accuse um Poder independente, digo somente, que se a absolvição desses assassinos tivesse tido logar em consequencia de decisão do Jury de Pronuncia, pobre Jury, grandes imprecações cairiam sobre ti! Felizmente escapou o Jury desta grande accusação; e ainda bem!

Mas, Sr. Presidente, para só nisto?... Appareceu no Diario do Governo muito elogiada uma Auctoridade Judicial de uma Comarca importante, perto de Lisboa, pelas provas que tinha dado de zelo e efficacia com que desempenhou os deveres a seu cargo; era pelo Ministerio da Justiça que se fazia este elogio numa Portaria, e eu não sei se essa Portaria estava já no poder dessa Auctoridade, ao tempo em que sei que ella se via obrigada a fugir do sitio aonde estava, em consequencia do alvoroto levantado pelo Povo contra ella; até que para escapar ao perigo teve de vir por um caminho mais curto, que é o do Canal que ha pouco se abriu. Eu não quero, nem condemnar a Auctoridade, nem louvar o attentado; apresento tão só e unicamente este facto, e digo que havia de ser doloroso, para essa Auctoridade, estar a lêr a Portaria do Sr. Ministro da Justiça, que o elogiava tanto, e ao mesmo tempo estar a ouvir as pedras batendo nos vidros das janellas da sua habitação?... O Ministerio Publico querelou por esse facto; e sabe a Camara o que disse o Substituto? Disse, que não queria acceitar a querela, porque não se julgava com segurança bastante para isso!... Aqui está a segurança publica! Não dêmos graças á Providencia, nunca se apresse a Camara em dar graças á Providencia, dirija as culpas aos homens.

Eu sei que o talento pode muito, que o brilhante da imaginação pode servir de grande soccorro para se defenderem certas cousas, mas o que sei é que a impressão destes factos ninguem é capaz de a desfazer, o que sei é que esta é a verdade que se apresenta sem a necessidade do adjutorio das fórmas, é a Logica, que a dizer a verdade não pode receiar nada da Rhetorica.

Mas, Sr. Presidente, ha um vago, ha uma incerteza, e a dizer a verdade a Administração não pode negar esta falta de Logica, por este facto. Prende-se um homem, existe um homem preso por muito tempo, a Imprensa brada, a Imprensa de todas as côres politicas, esse homem requer a differentes Repartições, na Guerra dizem-lhe que não pertence á Guerra, no Reino que não pertence ao Reino, porque ha uma Auctoridade hybrida que pertence a ambas as naturezas, que ora É Guerra, ora é Reino, e deste estado hybrido resulta que o cidadão é retido muito tempo na cadêa, e não pode ser solto, porque não pertence a um, nem a outro! Ora isto não pertence á razão, nem á justiça, nem á boa Administração, em parte nenhuma succede isto.

Ainda mais, Sr. Presidente, quando se tracta de exercer cargos importantes, quando se tracta do direito eleitoral, quando se tracta de decidir questões desta ordem, ha uma norma differente, do Norte e do Sul, e tinha razão em dizer neste caso um Moralista - Que a Moral depende da latitude - aqui pertence isso, a legalidade em Portugal depende da latitude; no Porto, por exemplo, um Eleitor não está inscripto no caderno do Recenseamento, pode ser eleito para a Camara Municipal; em Lisboa não. É a Jurisprudencia do Sr. Ministro do Reino, o Sr. Conde de Thomar.

O Sr. Presidente do Conselho, e Ministro do Reino: - Eu tenho alguma cousa com isso? Lêa o Codigo.

O Orador: - Lêa o Accordão? Mas observo os factos.

O Sr. Presidente do Conselho, e Ministro do Reino: - O Codigo.

O Orador: - Ah! O Codigo, não preciso lêr o Codigo, sei que ha duas resoluções encontradas, e o Codigo não é contradictorio.

E não basta só lêr as leis, é preciso executa-las, isso é que é o principal.

O Sr. Presidente do Conselho, e Ministro do Reino: - Executa-las, é claro.

O Orador: - Sr. Presidente, ainda não conclui este capitulo, relativo á segurança do Reino. Vê-se que a ordem não tem sido alterada, e nem por isso deixa de haver factos de uma magnitude tal que bastavam elles para invalidar qualquer reclamação, que os Srs. Ministros entendessem que tinham a fazer á nossa approvação.

Seguem-se as transações diplomaticas. Diz-se na Resposta ao Discurso da Corôa. - "Continuam cada vez mais estreitas as minhas relações de amisade com as Potencias Estrangeiras."

(Acabava de dar a hora.)

Eu creio que deu a hora... Se V. Exa. me concede que se me reserve a palavra?

O Sr. Presidente: - Se o Sr. Deputado quer continuar, pode faze-lo.

O Orador: - Eu estou cançado, se V. Exa. me permitte essa faculdade, que se tem concedido a quasi todos os outros Oradores, de continuar na Sessão seguinte... Mas se a Camara exige que eu falle, apesar de estar cançado... (Vozes: - Não, não.)

O Sr. Presidente: - A Ordem do Dia para quarta feira é a continuação da mesma. Eu chamo a attenção dos Srs. Deputados para a execução do Regimento, que determina que haja 5 horas de Sessão cada dia, e a Sessão não tem durado nem 3 horas.