O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

352 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

necer trabalhadores aos donos do rocas em Queensland é um facto publico e com respeito ao commercio dos coolies na Polynesia bastar-me-ha communicar a seguinte noticia que appareceu nos jornaes francezes: «o ministro da marinha franceza, almirante Peyron, suspendeu o decreto do seu antecessor que prohibira a conducção forçada de naturaes das Novas Hebridas para a Nova Caledonia.»

Referindo-se ainda aos sacrificios que o nosso paiz faz com a administração colonial, dizia:

«Portugal gasta com os seus dominios ultramarinos muito mais do que de ordinario se suppõe, é assim que paga annualmente 100:000 marcos á companhia telegraphica ingleza para que esta mantenha duas estações em terreno portuguez, Lourenço Marques e Moçambique, na linha do Natal ao Zanzibar, e é assim igualmente que concede um subsidio á companhia de vapores Castle Mail Packet Company, que na actualidade sustenta uma carreira mensal a começar no Natal e ao longo da costa de Moçambique.»

Escrevia-se isto, sr. presidente, e datava-se de Lourenço Marques em fins de abril de 1884. Tinhamos em Allemanha quem, por inspiração propria, nos defendesse por esta fórma. E essa defeza encontrava acolhimento e applauso, na primeira folha politica d'aquella paiz. Nao a fariam melhor os portuguezes. Não vi que a deduzissem então por seu lado, exercendo para isso a sua influencia e lançando mão das vantagens da sua posição official, os funccionarios que a nação paga para zelarem os interesses do paiz e defenderem a sua dignidade.

Careço concluir, mas, antes de o fazer, quero referir-me ainda a um facto, a que tambem ligo grande importancia.

V. exa. e a camara sabem que a nossa imprensa annunciou em tempo haver o governo commettido á illustração do procurador geral da corôa e digno par do reino, o sr. Mártens Ferrão a redacção de uma memoria destinada a defender os nossos direitos de soberania sobre o Congo, memoria que até hoje não foi distribuida e não é conhecida em Lisboa, e que pelo assumpto o pelo auctor é, de certo, trabalho de grande alcance.

Parece isto indicar, a meu ver, que a nossa situação, mesmo depois de acceito o convite para a conferencia se achava por definir.

Mas se assim é, como tudo faz suppor, perguntarei eu então:

O que fomos nós fazer á conferencia de Berlim?

Fomos resalvar ali os nossos direitos?

Fomos lá a discutir a questão de soberania?

Mas desde o principio se disse claramente que as questões de soberania ficavam excluidas das deliberações da conferencia.

A que veiu pois a memoria do sr. conselheiro Mártens Ferrão, redigida em tal momento?

O que foi Portugal fazer a Berlim, a não ser assistir ao desfilar successivo dos reconhecimentos de todas as nações da Europa, até da propria Hespanha, a essa entidade exdruxula, a essa soberania anonyma que se chama a Associação internacional?

Sr. presidente, faço votos, do fundo d'alma, para que a força do nosso direito possa mais do que os tramas urdidos contra nós, do que o abandono injustificavel da Inglaterra, e do que a impericia visivelmente manifesta do nosso governo. (Apoiados.)

E seja-me licito desviando, por um momento, o espirito da densa cerração do presente, o virar-me para o passado em busca de algum lampejo d'essa intensa luz, que, illuminando a nossa historia, projecta ainda o seu rasto até aos nossos dias.

Com essa recordação do passado porei remate ao meu discurso.

Celebradas as pazes com Castella, logo depois da acclamação de El-Rei D. João II, esse principe, a quem a historia deu o cognome de perfeito, conseguiu, despreoccupado na Europa, dirigir novamente a sua attenção para as emprezas navaes. Foi assim que a 12 e 24 de dezembro de 1481 partiu de Lisboa a primeira expedição, composta de dez caravelas e dois navios redondos, á frente da qual ia Diogo de Azambuja. Era o seu objectivo levantar na costa do Oiro o castello de S. Jorge da Mina, que devia ser o ponto do partida de novas e mais audaciosas emprezas.

Foi a primeira que se lhe seguiu em ordem a que deu como resultado primario a descoberta da foz do Zaire.

No verão de 1484, quatrocentos annos antes da assignatura do tratado de 215 de fevereiro (triste coincidencia!), saia a foz do Tejo, em demanda dos mares do Africa, Diogo Cão, commandando duas caravelas, e ao lado do cavalleiro portuguez, note-o a camara, ía um allemão, Martim Behaim, o auctor do famoso globo de Nuremberg, que mais tarde devia perpetuar a memória das nossas descobertas.

Pois assim poderiamos e deveriamos ali ter ido novamente, acrescento eu agora, com a Allemanha e com a França, e sem que de nós podesse dizer-se aggravada a Inglaterra, já que fôra ella a primeira a indicar-nos aquelle caminho, e se dera pressa em nos abandonar, para assim nos castigar da persistencia tenaz com que nos conservamos ao seu lado e só ao seu lado!

Deixando, porém, essas amarguras do tempo presente, que mais uma vez vieram fazer pressão em o meu espirito, e continuando na recordação dos nossos fastos, cheguemos finalmente á contemplação do solemne momento historico em que após Diogo Cão, descobridor do Zaire, Bartholomeu Dias avançando muito mais para o sul e mudando de rumo aproava á ilha da Cruz, onde erguia o terceiro dos padrões que levára comsigo de Portugal.

Proseguindo na derrota, notou a marinhagem que as ondas se tornavam cada vez mais alterosas e mais frias. Havia como que o presentimento da grande descoberta, mas acompanhava-o o temor crescente do desconhecido.

A gente de bordo apavorada exigia o regresso; a costa não seguia ainda para norte; de accordo com as instrucções recebidas em Lisboa, o arrojado capitão viu-se forçado a convocar a conselho os principaes homens de bordo, e todos foram de opinião que era mister retrogradar. Pediu então Bartholomeu Dias que lhe concedessem, ao menos tres dias, para proseguir na descoberta, e ver finalmente a costa voltar-se para o norte. Terminados os tres dias entraram as duas corvetas no Rio do Infante, seguindo a costa sempre para oeste.

Era mister cumprir a resolução do conselho, e demandar a Europa.

Ao passar, porém, em frente d'essa ilha da Cruz, onde ficára erguido o padrão por elle levantado, conta João de Barros que Bartholomeu Dias desembarcara, c, approximando-se, se despedíra d'esse padrão «com tanta dor e sentimento como se deixara um filho desterrado para sempre».

Permitta Deus que não tenhamos hoje de deixar, tambem para sempre, e com dor ainda mais amarga, esse outro monumento erguido nas margens do Zaire, pelo seu descobridor ao chegar, sempre na phrase de João de Barros: «áquelle rio notavel na barra do qual, da parte do sul, metteu este padrão, como quem tomava posse por parte d'ElRei de toda a costa que leixava atraz».

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem.

(O orador foi comprimentado por todos os srs. deputados e muitos pares do reino.)

Redactor = Rodrigues Cordeiro.