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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
illustre deputado, esperando que saberá cumprir a sua promessa.
Passo agora ao outro ponto da accusação.
É verdade ter o partido progressista combatido o fuzilamento de Antonio Coelho; mas isso não quer dizer que defendesse um vil assassino, porque o que elle defendia era a inviolabilidade da vida humana. (Apoiados.)
Não defendemos o vil assassino; combatemos o assassinato legal! (Apoiados.)
Fui eu um dos primeiros a entrar na lucta. Tive por companheiro um dos maiores talentos d'esta terra, o nosso mais distincto dramaturgo, intelligencia tão vigorosa e culta como é caracter honestíssimo. Nós ambos, elle o luctador vigoroso e experimentado, e eu, o jornalista obscuro e humilde, cruzámos as nossas pennas sobre a cabeça do Antonio Coelho, e tendo só por amparo a nossa coragem e as nossas convicções, podemos aparar os golpes de tantas espadas, que sobre elle se erguiam ameaçadoras, e desviar-lhe do peito as balas, que a cada momento ameaçavam transpassal-o! (Muitos apoiados.)
Éramos nós sós. Outros, e valentes, vieram depois; mas a principio fomos os unicos! (Apoiados.)
O assassinato do infeliz Palma e Brito produzira uma sensação profunda; e nos desvairamentos d'ella, quando o sentimento se insurgia violentamente contra a rasão fria, a opinião publica pedia quasi unanimemente a execução capital do criminoso. E nós ambos, impellidos pela consciencia do dever de um partido, que nos confiara um posto de honra, e traduzindo a voz dos seus chefes, luctámos contra a effervescencia das paixões, luctámos contra o desvario, momentâneo mas imponente, da opinião publica, luctámos contra as calculadas instigações do governo, que para servir os seus fins fizera passear pelas ruas do Lisboa, com lugubres pompas, o cadaver da victima (Apoiados.); luctámos contra as cóleras impetuosas de uma classe inteira, o pavor dos meticulosos, o exaspero da dor, e de tudo triumphámos! (Muitos apoiados.)
Ainda bem que o illustre deputado me recordou essa pagina da minha vida politica! Por muito que esta dure, não tenho esperança de escrever outra por que tanto me orgulhe! Consintam este desvanecimento a quem é tão pobre de titulos de gloria, porque o nosso triumpho foi effectivamente grande.
E que maior podia elle ser do que havermos iniciado uma transformação tão completa nos sentimentos do paiz, que o governo se via obrigado a dar-nos rasão, e a arrancar ás espadas a vida, que as nossas pennas lho pediam?! (Apoiados.) Accuse, embora, o illustre deputado o partido progressista por ter defendido em Antonio Coelho o principio da inviolabilidade da vida humana. Podemos bem com a accusação! (Apoiados.) Mas seja logico e coherente, e accuse primeiro o governo, que tendo trazido ao parlamento uma lei de sangue, que fez votar de assalto, a leve de rasgar aos pés do partido progressista logo ao primeiro caso, que se lhe offereceu, para execução d'ella. (Apoiados.) Ainda quando a accusação não tivesse por fundamento uma iniquidade social, não seria d'esse lado da camara que ella poderia ser formulada contra nós. (Apoiados.)
N'esta lucta porfiada, que foi uma verdadeira campanha, o partido progressista inspirou-se na coragem das suas convicções e na inflexibilidade dos seus principios. E guiou-o tambem a prudencia,.porque com isso fez um grande serviço á ordem social. Em prova do que avanço, permitta-me a camara que lhe cite um facto succedido em paiz estrangeiro, e que mais virá a proposito por ser agora muito conveniente que dos exemplos de fóra tiremos lições para o governo da nossa casa.
Em uma das cidades da Italia, em Pavia, se bem me recordo, tramou-se uma conspiração republicana em vida do fallecido e chorado monarcha Victor Manuel. N'essa conspiração entraram alguns elementos militares, e entre estes um cabo de esquadra, de nome Pietro Barsanti, o qual fechou a sua companhia na caserna, e resistindo aos seus superiores impediu que ella saísse a combater os revoltosos. Pietro Barsanti foi julgado em conselho de guerra e condemnado á morte. A sentença foi executada, por satisfação ás exigencias dos que reclamaram um desaggravo-á disciplina militar, e um exemplo moralisador, e quando começava a circular na Italia um abaixo assignado pedindo a commulação da pena. Quer saber a camara qual foi o resultado d'aquella acquiescencia precipitada e imprudente ás vozes dos que pediam sangue?!
A reacção do espirito publico foi proporcional á violencia da iniquidade, Succede sempre assim. Pietro Barsanti, que era, um criminoso, foi elevado á apotheose do martyrio. A consciencia popular desvairou como o poder central tinha desvairado, e pela Italia espalhou-se como uma lepra a organisação dos clubs Barsanti, que adoptaram o nome do justiçado para seu emblema e como um protesto contra os abusos e as iniquidades do podei". O governo italiano persegue em balde esses clubs, e elles surgem-lhe por toda a parte. E a nodoa de sangue de lady Macbeth, que não se apaga. Persegue, porque são um instrumento de dissolução social; mas daria antes sommas avultadas, faria enormes sacrificios, para poder resuscitar o justiçado, e restituir-lhe a vida, que tão imprudentemente lhe tirou. Ahi está o criminoso feito martyr e o martyr convertido em instrumento de propaganda revolucionaria.
Foi este perigo que o partido progressista evitou. Antonio Coelho era um grande criminoso, mas era, necessario que ficasse só criminoso, o que para as consciencias perturbadas se não fizesse d'elle um martyr. (Muitos apoiados.) Ninguem evoca hoje o seu nome como uma ameaça; mas, se tivesse sido fusilado, a sua memoria havia de ser invocada como um protesto e um emblema de funestissimas resistencias. (Apoiados.)
Sr. presidente, eu vou concluir, porque não é justo que este incidente se prolongue. O illustre deputado, a quem tenho a honra de responder, accusou-nos de havermos defendido um vil assassino. Não foi o assassino que, defendemos, foi o principio de inviolabilidade da vida humana, que hoje póde proteger um grande criminoso como Antonio Coelho, e ámanhã um general illustre como Gomes Freire...
O sr. Pereira Leite: — Gomes Freire não foi um assassino. (Rumores.)
O Orador: — Perfeitamente. Gomes Freire, o justiçado da esplanada da, torre de S. Julião, não foi um assassino, e sim um patriota benemerito. Mas quebrada, a, tradição da inviolabilidade da vida humana, sacrificado o principio, as paixões politicas, as vinganças rancorosas ou simplesmente os erros judiciarios, nem sempre saberão distinguir entre o patriota e o grande criminoso.
O principio, e só elle, foi o que o partido progressista quiz defender e salvar. Honrâmo-nos por isso.
De tantas glorias passadas, poucas restam ao nosso paiz. No presente, não sei que tenhamos outra a não ser esta do sermos quasi uma excepção na Europa na abolição da pena, de morte e dos espectaculos de sangue. Mas esta, é grande. E eu terei sempre muitissimo orgulho em haver concorrido, ainda que em diminuto quinhão e esforço, para que o partido progressista a, mantivesse immaculada para o meu paiz!
Disso.
Vozes: — Muito bem.
O sr. Rodrigues de Freitas: — Tenho mais uma vez de tomar a palavra visto que sobre mim recaíu... Vozes: — Votos, votos. Deu a hora.
O Orador: — Ha vozes da maioria que dizem que deu a hora?!
Qual é a hora? Pois não se prorogou a sessão? Querem tirar me a palavra?... (Sussurro.)
Vozes: — Falle, falle.