258 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
tincção da situação política e do gabinete actual, e já disse tambem, que sou tanto opposição á situação política como ao gabinete que está á frente dos negocios; quando eu entreguei o governo, repito, deixei contratado e sobrescripto um emprestimo á disposição do ministerio da fazenda na importancia effectiva de 7.218:283$500 réis em dinheiro.
Com esta somma, de mais 7.200:000$000 réis, o governo podia ter pago, ou para melhor dizer, eu teria pago réis 6.752:016$000, que é em quanto importava a divida fluctuante com penhores contratada fora do paiz, e ficava ainda para outras despezas uma somma de quatrocentos e tantos contos de réis disponíveis.
Posso portanto dizer afoutamente, que da divida fluctuante com penhor, que actualmente existe fóra do reino, eu não tenho a mínima responsabilidade.
Com isto não quero fazer censura a ninguem, mas quero justificar o meu procedimento, e mostrar que uma parte das accusações de que tenho sido victima, e não fallo dos meus collegas, fallo em geral, não têem fundamento algum, pelo menos debaixo d'este ponto de vista.
E fallo n'isto desassombrada e desapaixonadamente, porque declaro a v. exa. solemnemente, n'esta occasião solemne, que não hei de ser por caso algum o successor dos actuaes ministros. É provável mesmo que a minha impopularidade me repellisse das cadeiras do poder, mas quando essa impopularidade, por uma phantasmagoria de que só a minha imaginação póde dar conta, se transformasse em grande popularidade, declaro que tomo gostoso e convicto o compromisso de não substituir s. exa.
Feita esta declaração fallo desassombradamente e sinto-me á minha vontade; declaro mais, sr. presidente, que tomo toda a responsabilidade dos actos praticados, não só por mim mas pelos cavalheiros que tive a honra de ter por collegas no ministerio, demittido em janeiro de 1868. Hás tomo só a responsabilidade d'aquelles que nos pertencem, mas não d'aquelles que nos querem gratuitamente attribuir. Sr. presidente, eu estou tratando unicamente a questão de fazenda; nem outras viriam a proposito, nem preciso tratar d'ellas, porque antes de mim teve assento n'esta casa um membro da administração de que tive a honra de fazer parte; um dos primeiros ornamentos da tribuna e um dos homens mais distinctos do paiz, que proferiu um discurso, que não teve replica, sustentando e defendendo a administração de que fizemos parte, debaixo do ponto de vista das diversas medidas de administração que se apresentaram ; discurso que aproveito esta occasião para o dizer com ufania, porque me prezo de ser amigo d'esse cavalheiro, que honraria um orador qualquer em qualquer parlamento do mundo (apoiados).
Não preciso pois tratar essa questão; não é esse o meu intento, nem me era já preciso faze-lo.
Deixei 7.200:000$000 réis disponíveis para pagar uma divida de seis mil e tantos contos; e portanto note bem a camara que posso dizer com verdade que não deixei um real de divida fluctuante contrahida fóra do paiz, com penhor. É preciso que a responsabilidade vá a quem toca; que cada um a tome corajosamente sobre seus hombros.
Nenhuma receita publica ficou antecipada, e deixei alem d'isso uns poucos de contos de réis em cofre, depois de ter pagas as despezas de 1 de janeiro, que são as mais importantes do mez. Foi este o legado que deixei aos meus successores.
Não estou fazendo allusão a pessoa alguma; estou varrendo a minha testada.
O que se fez então? Qual era o mote da revolução chamada de janeiro de 1868? Eram as economias. Em nome das economias caímos do poder. Em nome das economias entraram os novos ministros.
Esta bandeira de economias, que foi desfraldada aos quatro ventos do quadrante, mas que não está já respeitada completamente, esta bandeira de economias, que tem sustentado a situação até hoje, e oxalá que a podesse sustentar ainda por muito tempo, se as economias fossem reaes e verdadeiras, tem lançado desfavor sobre os homens que antes estiveram n'aquelles bancos (os dos ministros). Diga-se porém o que se quizer, estou prompto a vir discutir aqui uma a uma todas as medidas que tomei durante o tempo que estive nos conselhos da corôa, e em presença d'essa discussão veremos quaes são aquelles que tem pugnado por verdadeiras economias no paiz, os que as realisaram, e os que as desconhecem.
A política aprecia-se pelos seus grandes traços, por seus grandes resultados. Nem se queira fazer guerra aos homens que tem estado no poder diversas vezes, porque n'uma ou outra medida por elles tomada tem sido precizo despender uma somma mais ou menos importante; entretanto estou prompto sempre a sustentar quaesquer medidas que tenha tomado, e espero poder mostrar com documentos, que d'esse augmento de despeza, aonde o tenha havido, resultavam vantagem para o paiz.
Eu tambem quero economias, desejo-as, é um bom principio de administração, e indispensável mesmo para a boa gerencia dos negocios publicos, mas quero economias possiveis e reaes; não quero a maior parte das economias que se fizeram agora, porque sou portuguez, amo o meu paiz, e não quero matar o futuro da minha terra; quero economias, mas não temo collocar unia escola em frente de outra escola, e n'este campo aceito o combate sempre que se queira.
Eu tinha feito protesto a mim proprio de me tornar estranho á política, ou pelo menos em espectativa; mas quando vi um decreto do sr. ministro das obras publicas, que mandava sustar metade dos trabalhos das estradas geraes e municipaes, mudei de tenção, e tive pena de ver que um homem, aliás esclarecido, que era engenheiro distincto, que tinha cooperado com os seus conhecimentos e trabalho para a construcção de algumas d'essas estradas, tivesse referendado um documento d'aquella ordem. Desde esse momento, sr. presidente, tornei-me adversário politico, já se vê, mas implacável d'este governo.
Não é assim que se fazem economias em parte alguma do mundo; e quando eu provar que todas essas economias que se alardeiam não vão muito alem dos 600:000$000 réis, que se tiraram ás estradas, creio que terei demonstrado á camara que este modo de fazer economias póde servir para armar á popularidade, a uma popularidade ephemera e transitória, porque muita gente se illude, julgando que d'esta sorte se tem salvado o thesouro, mas ha de entrístecer devéras todos aquelles que pensam seriamente nas cousas publicas e no futuro d'esta terra (apoiado).
E já que se fallou em economias, peço licença para dizer á camara quaes as economias que o ministerio de que tive a honra de fazer parte fez, sem as pregoar, sem lisonjear uma falsa opinião illudida, á sombra da qual todavia o governo se tem podido conservar no poder, sem fazer d'isso um merito (apoiados), sem fazer mais do que cumprir o seu dever conforme soube.
Sabe v. exa. a primeira economia que eu fiz? E isto está nos documentos officiaes, nos documentos publicados pelos meus successores; não são publicados por mim, não vou buscar esses, e ainda que fosse, eram exactos, porque sou incapaz de faltar á verdade (apoiados); mas sito os publicados depois da minha retirada do ministerio.
Sabe v. exa. e a camara quanto eu reduzi a despeza que se fazia com as classes inactivas, sem lançar mão de meios violentos, sem arrancar o pão a ninguem, sem lançar as familias na miseria, mas por meio de uma operação combinada com o banco de Portugal? Sabe v. exa. quanto eu reduzi, só n'esta verba, segundo os dados publicados pelos meus illustres successores? Reduzi 257:602$665 réis.
Sabe v. exa. quanto eu reduzi n'outra verba importante, na verba das considerações, por meio de outro accordo tambem com o banco? Reduzi 352:000$000 réis.
Sabe a camara quanto reduzia na despeza a reforma ad-