O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

313

DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

A eleição, á hora era que eu recebi esta participação, já se tinha verificado na capital do districto, no Funchal, e eu portanto pensei que era dispensavel a minha presença ali.

N’estes termos parti do Funchal, apesar do perigo que muita gente me disse que havia para a minha vida em saír da capital do districto, porque devo declarar que na occasião em que se procedeu á eleição todos os elementos opposicionistas, com a imprensa á sua disposição, tratavam de lançar a ira dos povos e a animadversão publica sobre a minha cabeça, por que, tendo eu tido a felicidade durante uns sete annos que ali tinha estado, de merecer as sympathias e a estima de todos os povos da Madeira, como viam porventura em mim o homem que podia dar mais prestigio moral ás eleições de que se tratava, era exactamente por isso que procuravam despopularisar-me e lançar sobre mim todas as desconsiderações dos habitantes d'aquellas terras.

Mas, dizia eu, recebida esta informação do estado em que se achavam os eleitores da assembléa do Caniço, parti immediatamente para lá, e parti só; ou antes parti unicamente acompanhado de meu irmão, hoje já fallecido, por que tendo ido á Madeira tratar da sua saude, teve a infelicidade de não se curar e morreu pouco depois.

Creio que está n'esta casa quem foi seu amigo intimo, e sabe por isso muito bem que era uma grande alma. Portanto quiz acompanhar-me, e acompanhou-me.

Cheguei á assembléa do Caniço e encontrei as cousas exactamente nas circumstancias que acabo de declarar á camara.

Ao entrar no templo, onde estava a uma, começaram os agitadores, começaram áquelles homens que ali estavam amotinados e n'um estado de grande excitação, a dizer que se tratava de commetter o attentado de roubar a uma.

Quiz socegar um pouco os espiritos.

Estava a igreja apinhada de gente, com difficuldade me foi possivel entrar, empurrado de todos os lados, eu só.

A gente da Madeira ordinariamente é attenciosissima para com as auctoridades superiores do districto, mas já quasi que me não conhecia.

Com immenso custo me pude fazer ouvir, porque o que eu queria era só com a força das minhas palavras, só com os recursos humildes da persuasão fazer comprehender aos eleitores que era completamente destituida de fundamento a idéa em que estavam, de que se queria roubar a uma.

Só depois de duas horas de lucta, peço a v. ex.ª e á camara que tomem nota, é que eu consegui o seguinte: consegui que a uma fosse effectivamente retirada do centro do grande tumulto que havia dentro da igreja, para ser collocada n'um edificio contiguo á mesma igreja, sachristia ou contiguo á sachristia.

Convidei alguns cavalheiros, como representantes dos dois partidos que se degladiavam, tanto por parte da opposiçâo como por parte do governo, para vigiarem a uma, dizendo-lhes que a uma ía ali ser collocada, que a porta d'aquelle pequeno edificio havia de ficar aberta, e que seriam postadas sentinellas para não deixarem entrar ninguem, á excepão de quem tivesse de revezar os cavalheiros que ficavam de guarda á uma, quando porventura estivessem cansados ou não quizessem continuar n'aquella missão.

Foi assim que eu consegui restabelecer a ordem completamente, e entregar a uma á guarda dos eleitores que se achavam interessados na eleição, dando como garantia de que aquella casa não seria invadida ou atacada violentamente pelos que ficavam de fóra, as sentinellas que se collocaram convenientemente.

Depois d'isto retirei-me para o Funchal, e sabe v. ex.ª como é que este serviço esteve para ser recompensado? D'esta maneira: dois individuos exaltados, como estavam exaltados todos n'essa ocasião, foram collocar-se n'um pinhal por onde eu tinha do' atravessar; um d'elles levava uma espingarda e quiz desfechar sobre mim.

O que o acompanhava tirou-lhe da mão a espingarda, e disse-lhe: «não o mates que ainda é muito novo». Por ser muito novo fiquei com a vida salva.

Antes de ter partico para o Caniço tinha eu recebido um requerimento, ássignado por um ou mais individuos interessados na eleição.

N'este requerimento pedia-se que na assembléa de Machico as portas da igreja ficassem abertas, e que se mandassem postar sentinellas de guarda á igreja.

Este requerimento desejei eu depois que me fosse entregue, para poder demonstrar de uma maneira manifesta qual tinha sido a pureza das minhas intenções, quanto ao acto eleitoral, e se porventura eu podia ser arguido de que pretendia violar as urnas.

Despachei o requerimento declarando que eu não era competente para dar ordem para que a igreja ficasse aberta; indicava ao administrador do concelho que, de accordo com o presidente da mesa, procurassem fazer o mesmo que se fez na assembléa do Caniço.

Este requerimento foi lido na praça da Constituição, diante de muitas pessoas, e todos sabem na Madeira que é verdade o que estou affirmando; e acha-se n'esta casa, e tem logar n'um dos bancos da opposiçâo, um cavalheiro que presenceou todos estes acontecimentos...

O sr. Alfredo de Oliveira: — Apoiado.

O Orador: — E que os podia attestar se quizesse.

Este requerimento não chegou a horas de se poder dar cumprimento ás indicações que eu fazia, porque Machico dista cerca de 30 kilometros da capital do Funchal.

Eu recolhi ao Funchal, o no dia seguinte é que recebi a informação dos acontecimentos deploraveis que tiveram logar na assembléa de Machico, que me foram assim relatados, e que creio que é esta a verdade.

O povo estava todo apinhado na assembléa do Caniço com a mesma apprehensão de que queriam roubar a uma.

N'esta conjunctura dizem me que o presidente da mesa e o reverendo parocho da freguezia solicitaram do administrador do concelho que fizesse evacuar a igreja, e que a uma estava lacrada e sellada, e que não podia haver a menor desconfiança de que se intentava, como se dizia, roubar a uma.

O administrador do concelho, não tendo a força precisa para fazer evacuar a igreja, soccorreu-se á força publica, pediu o auxilio da tropa, e, vindo ella, conseguiu, com mais ou menos facilidade, fazer evacuar a igreja.

Os amotinadores, os homens que excitavam os povos e os tinham posto n’aquelle estado de delirio, disseram-lhes: «Não tenham receio algum da tropa, porque o official que a commanda é nosso amigo, e ella não traz com que nos faça mal, porque não tem senão polvora secca á sua disposição»1.

Creio serem estas as palavras que foram a origem d'aquelle lamentavel acontecimento.

O povo, depois de ouvir isto, irrompeu outra vez para dentro da igreja, e insultou a força apedrejando-a; e um dos principaes amotinadores dirigiu-se ao official que a commandava, e deitou-lhe a mão á canana, para o desarmar.

Foi então que o commandante da força, que mais tarde foi mettido em conselho de guerra e creio que absolvido, foi n'essa occasião, digo, que o commandante da força, para se desforçar, mandou fazer fogo, recommendando que as pontarias fossem altas; e as balas, de recochete, produziram alguns ferimentos, que, em um praso mais ou menos proximo, deram em resultado duas ou tres victimas.

Foram estes os acontecimentos que me foram relatados no dia seguinte aquelle em que eu tinha ido ao Caniço.

Póde-se exigir do governador civil a responsabilidade d'esses factos que não poude impedir e que fez todas as diligencias ao seu alcance para evitar, como o provou indo ao Caniço para evitar que se dessem scenas identicas? Ha-

Sessão de 4 de fevereiro de 1879

25 *