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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
Pois mudaram as circumstancias financeiras?
Pois mesmo que mudassem, o illustre deputado, que julgava perigoso hontem o construir-se um caminho de ferro por conta do estado, vem propor hoje, e quer que se construam dois?!
Ora, sr. presidente, o sr. deputado entendo que o paiz que tem deficit não póde entrar franca e desassombradamente na construcção dos seus caminhos de ferro; s. ex.ª julga em sua alta intelligencia que o paiz não podia, sem grave risco, juntar esse encargo aos outros que já tem, e hoje quer que imponhamos ao governo a obrigação de fazer dois caminhos ao mesmo tempo e por construcção directa?!
Isto é perfeitamente contra a sua opinião, e fallo a verdade, não esperava que o illustre deputado, que tem lançado tantas suspeitas de contradictorios sobre nós e sobre o governo, viesse apresentar similhante proposta, que é uma verdadeira contradicção, salvo se o illustre deputado me vier provar que as circumstancias financeiras, que elle discutiu largamente, com a intelligencia que Deus lhe deu, são hoje incomparavelmente melhores do que eram n'aquella epocha; mas desde o momento em que s. ex.ª me não possa demonstrar que o deficit acabou, e existindo de pé a doutrina que s. ex.ª apresentou n'aquella occasião, de que havendo deficit se não póde entrar desassombradamente na construcção de caminhos de ferro, nem contrahir novos encargos, s. ex.ª não póde sustentar a sua proposta. (Apoiados.)
O que achava curial é que s. ex.ª combatesse o projecto, visto que existem as mesmas rasões que o illustre deputado apresentava para a não construcção, e que o deficit ainda não está extincto.
Parece-me que me estou alongando de mais; estas questões são sempre aridas, e como taes custa a conciliar a attenção da camara, nem mesmo eu com os meus fracos recursos podia ter essa pretensão, e por isso tanto mais agradeço a benevolencia e attenção com que tenho sido escutado, mas desejava simplesmente dizer uma cousa, para a qual peço a attenção do sr. ministro das obras publicas.
S. ex.ª sabe que não estive na commissão quando se discutiram estas propostas, mas que lendo na camara o projecto, e vendo que apenas se me offerecia uma pequena difficuldade, assignei-o, reservando-me para na sua discussão ouvir as explicações de s. ex.ª a esse respeito, e depois d'ellas insistirei, ou deixarei de insistir, por uma proposta que tenho a honra de mandar para a mesa.
Eu desejo que no n.º 1.° do artigo 1.° se acrescentem ás palavras «Santa Comba Dão» «Celorico e Guarda».
Não vejo que haja rasão nenhuma, ou, pelo menos, não se apresenta ella ao meu espirito, para que no projecto se não faça menção d'estas duas localidades, que julgo serem dois pontos muito importantes.
Talvez que a rasão d'isto seja porque, estando estudado o caminho de ferro com os differentes traçados com relação a estes pontos, se chegasse á conclusão de que o ultimo que se estudou era o melhor, e, portanto, que estas duas povoações são pontos forçados para o caminho construir ou por um ou por outro dos traçados.
Creio que a não ser esta a rasão, não ha nenhuma outra para que o governo ou a camara se possa oppôr á redacção que eu apresento.
O sr. ministro dirá quaes são as rasões que lhe assistem para acceitar ou não a minha proposta, fazendo esta modificação na redacção do projecto; declarando eu desde já que se s. ex.ª porventura disser que a rasão por que a não acceita é porque seria prolixo que estas palavras se inserissem no artigo, por isso que o traçado não póde desviar-se por fórma alguma d'estes dois pontos, não posso insistir pela minha proposta.
Não quero cansar a camara, e vou concluir dizendo apenas que estou ainda hoje convencido de que os paizes que têem deficit precisam emprehender em larga escala a construcção de caminhos de ferro para chegar a matar esse deficit. Esta é a minha opinião; póde ser que seja errada, porém estou d'isto convencido.
Sr. presidente, disse um homem notavel em um dos seus livros que por vezes tenho consultado. «Felizes os dias de Portugal quando a rica bacia do Tejo se abrir livre e franca aos productos estrangeiros, e quando as industrias em Portugal chegarem a ponto que possam fazer barreira á concorrencia estrangeira». Pois eu digo que feliz de Portugal quando chegar esse dia, mas digo tambem que elle não virá senão quando a locomotiva, atravessando os valles, e rasgando os montes, levar a civilisação e o progresso a toda a parte. (Vozes: — Muito bem.)
Sr. presidente, eu vejo em frente de mim um governo, que é composto de cavalheiros que estimo e prezo, e que pelas opiniões que lhes conheço me dão todos completa garantia do seu amor á liberdade, e ao mesmo tempo me dão a garantia do que hão de empregar e envidar todos os seus esforços para desenvolver o mais que for possivel, não só a construcção dos nossos caminhos de ferro, mas das nossas estradas, e não só se ha de empenhar no desenvolvimento material, mas tambem no desenvolvimento moral. Não obstante, e para concluir, recommendarei a s. ex.ªs que se lembrem sempre de que governar é caminhar, é andar, é conciliar e é progredir, e que ao mesmo tempo se lembrem sempre de que parar é morrer. (Apoiados.)
Tenho dito.
Vozes: — Muito bem, muito bem.
(O orador foi comprimentado.)
(O sr. deputado não pôde rever este discurso.)
Leu-se na mesa a seguinte
Proposta
Proponho que ás palavras do artigo 1.°, n.º 1.° «Santa Comba Dão» se acrescente «Celorico e Guarda». = Telles de Vasconcellos.
Foi admittida.
O sr. Presidente: — Vae-se ler um officio que chegou da secretaria do reino.
Leu-se um officio participando que Sua Magestade El-Rei tem resolvido mandar celebrar na real capella da Ajuda, no dia 22 do corrente mez, pelas onze horas da manhã, exequias solemnes por alma do Summo Pontífice Pio IX.
O sr. Presidente (continuando): — Já hontem declarei que havia de nomear uma grande deputação para ir assistir ás exequias por alma de Sua Santidade o Pontifice Pio IX. Vou nomear a grande deputação.
(Leu.)
E alem d'estes senhores todos aquelles que quizerem concorrer.
Esta deputação, é recebida na sexta feira ás onze horas da manhã.
E a deputação, que ha de ir comprimentar Sua Magestade a Rainha e Sua Alteza o Principe Real, pelo seu feliz regresso ao reino, é recebida ámanhã ás duas horas da tarde.
Os srs. deputados que compõem a grande deputação, são os seguintes:
Carlos Testa.
José Correia de Oliveira.
José Joaquim Figueiredo de Faria.
José Luciano de Castro.
Lopo Vaz de Sampaio e Mello.
Pires de Lima.
Boavida.
D. Luiz da Camara Leme.
Pedro Correia.
Visconde de Sieuve de Menezes.
Pedro Jacome Correia.
Visconde de Villa Nova da Rainha.
José Maria dos Santos.
Augusto Godinho.
Visconde da Arriaga.
Sessão de 20 de fevereiro de 1878