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12 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

mais questões que preoccupam os espiritos reflexivos e pensadores, ella não o pode ter, e só poderá prender as attenções dos grandes estadistas, quando com a questão politica ao ligar e adjungir a capitalissima questão dos nossos tempos, a questão economica, que o mesmo é que dizer a questão social. (Apoiados.- Vozes: - Muito bem, muito bem).

Em nenhum país moderno, que tenha já transitado da forma do governo absoluto para o regime representativo, constitue hoje objecto das locubrações intellectuaes ou das grandes lutas dos seus homens publicos a subtileza casuistica de uma formula constitucional ou de um principio de direito administrativo.

As soluções que a revolução francesa deu á organização politica das sociedades, abstractas e em absoluto irrealizáveis, que fizeram as delicias dos romanticos politicos de todos os paises até mais de metade do seculo XIX, cairam perante evidencia inconcussa de que ellas são na maior parte das suas applicações meros sophismas politicos, por melhores que sejam as intenções de quem as evangeliza, e por mais fervoroso e cordial, que seja o culto que lhes vote quem por ellas se sacrifique. (Apoiados).

Não ha democracias puras, como não ha monarchias puras. Quando Luiz XIV, num arranco de orgulho que se perpetuou na Historia, ironizado por vezes ao sabor de quem de ,tal phrase quer tirar determinados effeitos, exclamou L'État c'est moi, illudia-se. O Estado era elle, mas era-o tambem toda a pleiade de grandes homens que o cercaram, Colbert á frente.

Não ha, repito, democracias puras, como não ha monarchias puras, porque a civilização, quer dizer, a synergia social, ha de ser sempre o producto de selecções, isto é, a resultante de élites das diversas classes sociaes. Da mesma sorte os parlamentos tendem a tornar-se representantes d'esses agrupamentos, perdendo assim o seu caracter abstracto, que lhes tinham querido dar os implantadores dos immortaes principios.

E é d'este conflicto entre os phenomenos de ordem economica, que agitam as sociedades, e as discussões politicas dos parlamentos, com o seu caracter abstracto de representantes do povo, que resulta a grande crise parlamentar, que em todos os paises estão atravessando estas assembléas. A prova de uma tal verdade está em que, em toda a parte, ás convulsões politicas dos parlamentos responde a atonia do respectivo país. (Apoiados).

As revoluções e ás reformas politicas mudaram as formas do Governo: a sua missão está cumprida. Por isso hoje não ha, nem pode haver, questões politicas em toda a plenitude do termo.

Havia realmente uma questão politica, palpitante e vivissima, como bellamente o diz Enrico Ferri, quando existia um ardente conflicto entre as aspirações democraticas das populações e a tyrannia dos principes. Havia a questão politica, quando os povos desarmados soffriam o jugo de despotismos internos e externos.

Mão, como se pode levantar hoje uma questão politica?

A forma actual do Governo, na Europa ou na America, é tão livre quanto o pode ser. Os Estados modernos são republicas monarchicas ou monarchias republicanas, estas ainda mais livres do que aquellas, e até de facto se pode dizer que a forma actual de governo é em toda a parte a forma republicana. (Apoiados).

Não ha questões politicas; pode haver acontecimentos politicos, mais ou menos intensos, mais ou menos importantes, mas taes acontecimentos só teem uma revibração profunda na vida social, se se ligam á solução de problemas technicos ou economicos.

É assim que a divisão dos partidos, pelo que se refere á differenciação de principios politicos, vão desapparecendo em toda a parte, torna-se quasi imperceptivel, porque as lutas politicas já não podem apaixonar ninguem. Este phenomeno dá-se em Portugal entre progressistas e regeneradores, como se dá na Inglaterra entre icighs e tories, ou em Italia entre conservadores e, progressistas, ou em Hespanha entre conservadores e liberaes, ou em França entre opportunistas e radicaes, ou nos Estados Unidos da America do Norte entre republicanos e democratas, ou na Republica Argentina entre porteni e provinciani. Por toda a parte os velhos partidos politicos tendem a fundir-se, porque desappareceu a razão primaria que os dividia. Outras aggremiações mais avançadas se teem ido formando, mas os principios desses aggrupamentos emergem de uma base economica.

Assim é que não ha hoje questões politicas, como não ha uma questão religiosa. Tambem havia, de facto, a questão religiosa, quando a religião pretendia algemar o pensamento e encerrar num circulo de ferro as investigações scientificas.

Havia a questão religiosa, quando a Igreja pretendia imporse, e impunha-se por vezes á auctoridade secular; isto é, quando se feria um duello de morte entre o poder civil e o poder theocratico, e neste caminho a Igreja dictava regras aos Governos e limitava a esphera de acção ao poder civil. Mas hoje a religião abriga se na consciencia de cada um; é um phenomeno sentimental e psycologico; resulta da fé, do sentimento, de modo de ser subjectivo da criatura, em toda a plenitude do principio de Santo Agostinho - nihil voluntarius quam religio, porque, de feito, nem a religião aspira já a pôr diques ás manifestações do pensamento, embora as mais audaciosas, nem as doutrinas materialistas podem impedir, nem impedirão jamais que a criatura humana, acossada de soffrimentos, retalhada de dores, calcinada de amarguras, vá ajoelhar livremente perante os altares, e que a alma, sedenta de confortos e de consolações, se evole e suba, suba, anhelosa de esperança, até se perder e se confundir no immenso seio do Eterno. (Muitos apoiados. - Vozes: - Muito bem, muito bem).

Bellamente o disse Pasteur na sua espiritualissima refutação a Renan : "Emquanto a ideado Infinito andar adstricta á mente humana, ha de haver sempre altares, e perante elles ha de haver sempre homens ajoelhados na reconcentrada adoração a Deusa. (Muitos apoiados).

Resta, pois, ás sociedades modernas, Sr. Presidente, a intensa, a collosal questão economica, e quando um grande facto politico as agita, é ainda ao terreno economico que a solução vae procurar-se.

Permita mo a Camara um só exemplo.

Quando em 1895 o povo dos Estados Unidos se preparava para a luta eleitoral, de onde deveria sair o novo Presidente da Confederação Republicana, não foi no campo traçado pelos partidos politicos que essa pugna se feriu. A contenda foi inteiramente derimida no terreno economico, ou, para me expressar mais propriamente, no terreno monetario.

Nem podia deixar de ser assim. A America, essencialmente positiva e pratica, que resumo em si, melhor que nenhum outro Estado, o espirito social do nosso tempo, debatia-se então, como já tive occasião de referir, com uma crise pela financeira e economica. Tinha o desequilibrio produzido depreciação do ouro, consequencia do alargamento da circulação da prata, e do enfraquecimento da reserva metallica pela drenagem do ouro; tinha uma diminuição sensivel nas receitas aduaneiras, produzida pela vigencia da tarifa Wilson; tinha um deficit, entre as receitas e as despesas do Governo, que já nosso anno de 1895 era de 140 milhões de dollars; tinha o panico na praça de New-York pela corrida dos Bancos de alguns Estados da Federação a levantarem os seus depositos nas casas bancarias da grande metropole da finança; e como logica sequencia de todos esses factos, assistia a frequentes fallencias de alguns Bancos e de algumas casas commerciaes das mais importantes.

Ora, em presença de semelhantes acontecimentos e diante