16 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
folhas estrangeiras importantes, na qual se faz narrativa de um desastre grave soffrido pelas armas portuguesas em Angoche.
Pedi a palavra sobre um negocio urgente para interrogar o Sr. Ministro da Marinha sobre este importante assumpto, e para que S. Exa. nos diga se a noticia é verdadeira.
Bem vê V. Exa. que, formulando esta pergunta pela forma tão simples por que o fiz, não trago o menor intuito politico, sobre assumpto tão grave e que tanto affecta os interesses da nação, a todos tem distracção de partidos, (Muitos apoiados), nem desejo levantar a mais pequena difficuldade ao Governo e fazer-lhe qualquer interrogação que o ponha em embaraços.
O que eu acho indispensavel é que o Sr. Ministro da Marinha dê explicações a Camara, para socego e tranquillidade do país.
Estamos desgraçadamente habituados a ver como os jornaes estrangeiros publicam noticias inexactas e muito desagradaveis para nós, e é sempre conveniente desmenti-las. Francamente, no meio das nossas atribulações e quando se demonstra directa ou indirectamente por parte dos Deputados da opposição que não é risonha a nossa situação, e agora mesmo na discussão do Orçamento isso se percebe, porque um Deputado que acaba de falar a favor do Governo, nem a um algarismo do Orçamento se referiu, nem um facto apresentou, - a unica cousa que nos alentava ainda, era que tinham sido sempre coroados de bom exito os esforços dos soldados portugueses em Africa. Portanto, faço esta pergunta, pedindo ao Sr. Ministro da Marinha nos diga se é verdadeira ou não essa noticia, convencido aliás de que os Deputados de todos os lados da Camara fazem votos para que o não seja. (Muitos apoiados).
(O orador não reviu).
O Sr. Ministro da Marinha (Teixeira de Sousa): - Sr. Presidente: felizmente para as armas portuguesas, a noticia a que se referiu o illustre Deputado é absolutamente inexacta. Nem ou era capaz de occultar qualquer facto d'essa ordem, ainda que nos fosse contrario.
As armas portuguesas triumpham, e vão de victori em victoria.
É certo que na nossa Africa tem havido ultimamente alguns recontros com forças portuguesas. O gentio do Ambrizette, nos ultimos tempos tem, por assim dizer, expulsado os commerciantes portugueses para o litoral até ao ponto de ao Ministerio da Marinha chegarem repetidas queixas.
Acêrca de 10 dias eu recebi a noticia de que vou dar conta á Camara: O Sr. Governador Geral da provincia de Angola organizou uma pequena expedição com alguns soldados do exercito, com a guarnição dos nossos navios de guerra estacionados nas aguas d'aquella provincia, sob o commando do Governador do districto de Congo.
Ao nossas forças entraram no Ambrizette, arrasaram 10 ou 12 povoações e prenderam o regulo mais importante, assegurando-nos assim um triumpho completo.
Na região do Libollo, a cêrca de 8 ou 10 dias, o gentio atacou uma caravana de commerciantes portugueses. Prevenidas na nossas auctoridades, o regulo que dispunha d'esse gentio foi atacado pelas forças portuguesas.
O gentio foi derrotado e pagou uma consideravel contribuição de guerra. Mais uma vez as nossas forças militares se cobriram de gloria.
Os soldados portugueses que estão na fortaleza do Humbe foram avisados de que seriam atacados pelos côamatas; e a Camara sabe que esse gentio é o mais adverso e o mais aguerrido para Portugal.
Dado o ataque, os gentios tiveram 60 mortos e fugiram em debandada.
Isto, pelo que se refere a Angola.
Com respeito a Angoche, devo dar informações mais precisas.
Ha 15 ou 20 dias a nossa canhoneira Chaimite, que se emprega na fiscalização ao norte da provincia de Moçambique, teve de desembarcar alguns dos seus marinheiros em perseguição de alguns pangaios que, em Naburi, se entregam ao commercio da escravatura.
Parte da guarnição desembarcou dos escaleres, mas foi surprehendida por diversos tiros de espingarda e de artilharia que chegaram a matar um marinheiro e feriram um official.
Recolheu a guarnição e a canhoneira retirou para Moçambique, dando o seu commandante parte d'estes factos ao Governador.
Tive conhecimento dos acontecimentos, e determinei que a Chaimite esperasse ali a chegada da canhoneira Liberal e do cruzador S. Rafael, que sairam de Lourenço Marques levando a seu bordo, alem das guarnições, mais 100 soldados, pertencendo 47 ao exercito europeu.
Chegados a Moçambique, partiram estes navios com a Chaimite para a embocadura de Angoche, e ali encontraram grande numero de pangaios negreiros.
O que se passou então?
Dois pangaios foram queimados; tres foram aprisionados, um dos quaes tinha a seu bordo algumas peças de artilharia, ainda que de pequeno calibre; as povoações mais importantes foram destruidas; os principaes negreiros foram presos e os regulos prestaram vassallagem, compromettendo-se a entregar os negreiros ás auctoridades portuguesas.
Já vê o illustre Deputado que ao contrario do que se lê nos jornaes que S. Exa. citou, as nossas armas mais uma vez se cobriram de gloria. (Muitos apoiados de ambos os lados da Camara).
(S. Exa. não reviu).
O Sr. Antonio Centeno: - Agradeço ao Sr. Ministro da Marinha a resposta que acaba de dar-me, que a todos nos encheu de alegria e de orgulho, e peço a S. Exa. que faça desmentir a noticia nos jornaes estrangeiros. (Apoiados).
O Sr. Presidente: - Continua a discussão sobre o Orçamento.
O Moreira Junior: - Entra no debate debaixo da mais intensa alegria, attentas as declarações que o Sr. Ministro da Marinha acaba de fazer e que a todos são extremamente gratas, porque em todas as questões em que o brio nacional está em foco, todos são portugueses.
Deve agora associar-se, individualmente, ás homenagens prestadas a um illustre parlamentar, distincto pelas qualidades preciosas de seu talento e pelas virtudes preclaras do seu caracter, Frederico Arouca. Mal andaria, sã, adversario politico do illustre morto, mas admirador das suas qualidades civicas, não procedesse assim.
Quer ainda cumprir outro dever, o de felicitar o illustre orador que o precedeu, a quem, pela primeira vez, teve o deleito de ouvir, e que revelou tão valiosas qualidades parlamentares, que o obrigam a esta sincera felicitação.
E dito isto, entra immediatamente na apreciação do Orçamento Geral do Estado, sem se afastar do assumpto e analysando com todo o rigor, mas tambem com toda a lealdade, o documento trazido ao debate.
Por mais accentuada que seja a ingenuidade d'aquelles que querem acreditar na absoluta exactidão d'este docucumento, não pode deixar de ser de desalento e até da mais intensa amargura, a impressão que resulta da sua analyse rigorosa, pois que essa analyse demonstra que não só o deficit ha de ser mais avultado do que se diz nelle, como as receitas foram consideravelmente augmentadas e as despesas foram artificialmente diminuidas.
Alem d'isso, o Orçamento tem todos os vicios dos anteriores orçamentos e outros que nelles se não encontram, procurando encobrir ao país a situação desgraçada que elle atravessa.
E isto succede quando, se alguma cousa havia a espe-