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APPENDECE Á SESSÃO N.º32 DE DE MARÇO DE 1898 592-A

Discurso do sr. deputado Queiros Ribeiro, que devia ler-se a pag. 582, da sessão
n.° 82 de 32 de março de 1898

O sr. Queiroz Ribeiro: - Sr. presidente, pedi a palavra para mandar para a mesa o seguinte projecto de lei, cuja obscura iniciativa se dignam perfilhar alguns dos mais illustres parlamentares d'esta casa, sem distincção de côres politicas:

(Leu.)

Rogo a v. exa. e á camara me consintam justificar, em breves palavras, o projecto que eu acabo de ler.

Parece-me que á sua idéa não podem faltar os applausos da camara, (Apoiados.) e que ella ha de encontrar um echo sympathico d'este lado e d'aquelle. (Muitos Apoiados.)

Direi mais. Parece-me que esse echo se repercutirá, pelo paiz, no coração de quantos conhecem e amam as glorias nacionaes, porque o pensamento, visado pelo meu projecto, pertence a todos os portugueses, sem direito ao monopolio de nenhum. (Apoiados.)

O modo de sentir, que determina os pantheons, á o mesmo que faz erguer jazigos. Tende a perpetuar, pelo tempo adiante, o que ainda resta, materialmente, d'aquelles cuja memoria nos merece respeito e affeição.

A patria, que é uma grande familia, tem no pantheon o seu jazigo, e os benemeritos, que ali colloca, são os filhos predilectos, cuja vida se tornou um facho luminoso, que os vindouros devem fitar e seguir! (Muitos apoiados.- Vozes:-Muito bem.)

Reconhecida, pois, como uma divida de honra nacional, a consagração d'esse monumento de piedade e amor, falta, conhecer o local que para isso deve ser preferido.

E entendo que nenhum póde disputar primazias com o templo dos Jeronymos, de Belem.

Elle tem por si antes de tudo, a sua situação. Pertencendo á capital do paiz, é tambem um proximo vizinho d'esse largo. .Tejo, que, por tantos annos, auscultou as esperanças, os receios, os desanimes, os alvoroços, os triumphos os heroismos dos nossos navegadores! (Muitos apoiados.)

Tem ainda, a seu favor, a idéa que lhe dou origem: o agradecimento á Divindade pelas façanhas da epopeia maritima, de que Vasco da Gama foi o protagonista sem confronto, e Camões cantor sem rival: (Apoiados.)

Tem, finalmente, a indical-o, além do seu valor monumental, que o toma um admiravel florão da architectura portugueza, e acima das recordações gloriosas da epocha de esplendor, que symbolisa, os direitos de posse, que já lhe deu a intuição popular, escolhendo-o para escrinio de cinzas tão illustres, como as que lá descansam. (Vozes: - Muito bem.)

Mas, sr. presidente, depois de decidir e effectuar a escolha de um pantheon, alguma cousa resta: é preciso regular-se a maneira de entrar ali.

Seria humilhante e doloroso que, volvidos cincoenta, cem, duzentos annos, um portuguez visitasse o jazigo da sua patria, e fosse encontrar um cadaver, em vez de um ser vivo na memoria de todos. (Apoiados.)

Para evitar o perigo de tamanha humilhação e tão amarga injustiça, urge dar á bulla de canonisação nacional boas garantias de imparcialidade e acerto, que faltariam, por completo, se, entre a morte e a consagração do benemerito, não mediasse um lapso de tempo consideravel.

Nada perturba mais a noção da realidade do que a dor das grandes despedidas sem regresso. Sei-o pela observação alheia. Oxalá o não soubesse igualmente pela experiencia propria!

Essa dor amplifica e põe em foco, diante de nós, aquelle a quem perdemos, obscurecendo e diminuindo, em roda, tudo o mais que o nosso olhar póde abranger. Ella diz bem do coração que soffre e se despedaça, mas é incompativel com um cerebro que deve sentenciar. (Apoiados.)

Aqui tem v. exa. o motivo da exigencia que eu peço. É necessaria que, n'um assumpto de tão alta importancia, o veredictum da opinião não seja proferido, nem sequer influenciado, por sentimentos que o tornem suspeito.

Um praso de quarenta annos pareceu-me necessario, para fugir a similhantes inconvenientes, e foram do mesmo voto os illustres amigos e collegas, que me deram a honra de assinaram este projecto, e a quem muito especialmente ouvi a tal respeito.

Mas, sr. presidente, se quarenta annos são precisos, penso que são sufficientes, para fazerem dormir as paixões que o extincto houver levantado, e estabelecerem o equilibrio da verdade: entre as censuras do odio ou da inveja, e as apotheoses do affecto ou da gratidão. (Apoiados.)

A vida corre com a rapidez de uma torrente que se precipita, e quarenta annos bastam para o que eu chamaria a sancção natural do sentimento.

Vou explicar-me.

As affeições collectivas não passam de uma somma de affeições individuaes. Alvejou-as, portanto, do mesmo modo o conhecido conceito do poeta, de que a ausencia é, para o amor, o que o vento é para o fogo, pois sendo brando, apaga-o, e, sendo forte, redobra-lhe o alento.

Assim, os que não ganharam raizes profundas no coração da patria, estão condemnados a morrer duas Vezes. A primeira leva-os á sepultura; a segunda ao esquecimento. (Vozes:-Muito bem.)

Pelo contrario, os benemeritos, que o meu projecto quer consagrar, soffrem apenas a morto physica, e realisam o milagre de nascerem duas vezes no mundo: uma, para a vida, outra para a historia. (Apoiados.)

E, se, nas clareiras d'esta, consegue porventura diluil-os o decorrer dos seculos, crescem para as nevoas da lenda, transformados em sombras, que nenhum effeito optico póde encobrir.

É indispensavel que ,o tempo effectue esta obra de selecção, e julgo bastante o praso que proponho, porque o homem que, quarenta annos depois da sua morte, ainda teve prestigio para lhe concederem as honras do pantheon nacional, não pertence nem póde pertencer ao numero dos que desappareceram. Deixa de ai alguma coisa, que a terra não comerá! (Vozes: - Muito bem.)

Pousando e sentindo d'este modo, eu lamentaria que me considerassem inconsequente, pelo facto de não sujeitar aquelle praso os restos mortaes de Camillo Castello Branco.

Que elles têem direito às honras do pantheon é uma verdade, já aqui demonstrada brilhantemente pelo meu amigo e distincto parlamentar sr. Antonio Cabral. Mas não alludo a isso.

Desejaria apenas desfazer a impressão dos que estranhassem que, logo no projecto, em que faço uma exigencia tão justificada, eu deixasse uma excepção, fosse para quem fosse.

A excepção estava aberta. O projecto do sr. Antonio