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538 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

o illustre deputado podia estranhar que se lhe desse, em taes circumstancias, uma auctorisação amplissima.

Em presença da revolta que ameaçava a provincia, era impossivel deixar de armar o governador com todos os poderem necessarios. (Apoiados.)

Nenhum governo procederia de outro modo.

Mas assim que a agitação serenou e que me foi communicado um pedido do embaixador inglez, a quem o commercio britannico tinha representado a necessidade de restabelecer o transito, mandei perguntar immediatamente ao governador de Moçambique se estava já restabelecido o posto fiscal no Chire.

Respondeu-me que não, e eu telegraphei de novo em 9 de janeiro, ordenando que o restabelecesse immediatamente.

Agora o illustre deputado affirma que ainda não está restabelecido, e eu não sei como s. exa. o podesse saber.

(Interrupção do sr. Elvino de Brito.)

Posso affirmar que o ministro inglez nunca mais fallou n'isso, parecendo por consequencia que o commercio inglez está satisfeito com o que lá se passa.

Permitta-me ainda s. exa. dizer-lhe que o sr. Agostinho Coelho, que eu exonerei a seu pedido, e que talvez nos ultimos actos da sua administração podesse ter procedido de um modo mais completamente correcto, e sou n'isto absolutamente franco, fez um governo excellente, honrado e energico merecendo completamente os louvores que lhe dei no decreto da sua exoneração.

O illustre deputado entendeu, porém, que devia vir dizer á camara que a administração d'aquelle funccionario fôra funesta e nefasta.

S. exa. o provará.

É sina do illustre deputado, creio eu, não encontrar governador do ultramar que o contente. Até o sr. Caetano de Albuquerque mereceu aqui as acres censuras de s. exa. e a final de contas o governo não lhe retirou a sua confiança.

O sr. Elvino de Brito: - Isso foi em 1879.

O Orador: - Foi até 1881. Durante todo o tempo da administração progressista o illustre deputado censurou aqui asperamente a administração d'aquelle funccionario, e apesar d'isso elle continuou a ser governador da India, durante dois annos, sob a administração dos seus amigos politicos.

O illustre deputado, apezar de muitas considerações que a todos merece, não conseguia que os seus amigos politicos fizessem caso das suas observações. (Riso.)

Eu é que devia demittir o governador que não merecia as boas graças de s. exa. Mas quando os amigos politicos do illustre deputado continuam a não fazer a vontade a s. exa., o sr. Elvino de Brito conserva-se em silencio e não insta para que seja demittido o governador que não lhe agrada e cuja administração considera inepta e nefasta.

Julgo ter respondido a todas as observações feitas pelo illustre deputado no decurso da sua interpellação.

Permitta agora s. exa. que da mesma forma que elle disse que antes de entrar no assumpto da sua interpellação, queria liquidar commigo umas contas antigas, eu lhe diga tambem que antes de acabada a interpellação desejo liquidar igualmente umas antigas contas com s. exa.

Quando se tratou da questão do Zaire, e eu então não podia acompanhar s. exa. por todas as digressões que fazia pelas provincias ultramarinas, para não desviar o debate do seu curso natural, fallou o illustre deputado largamente em governadores nomeados por mim.

O sr. Elvino de Brito: - Não me referi a todos.

O Orador: - Referiu-se a dois governadores e eu nomeei três.

O sr. Elvino de Brito: - Nomeou sete ou oito.

O Orador: - Já são mais que as provincias. (Riso.)

Tenho pena, confesso, que s. exa. me dirigisse esta accusação.

O illustre deputado extranhou que eu tivesse nomeado

governador de S. Thomé e Principe um cavalheiro que, segundo supponho, é proprietario de uma roça na ilha do Principe; e extranhou do mesmo modo que eu tivesse nomeado governador geral de Moçambique outro individuo que, segundo s. exa. diz, é accionista de uma companhia que tem interesses n'aquella colonia; e perguntou-me o illustre deputado se eu considerava ainda em vigor o alvará de 1785.

Realmente espantou-me que s. exa. deputado das colonias e filho d'ellas me viesse aconselhar que resuscitasse o systema colonial do velho regimen absoluto, systema que impunha ás colonias uma administração europêa, que quasi inhabilitava os naturaes d'essas differentes colonias a exercer ali os altos cargos de administração, e que acendeu no peito dos colonos esse amor ardente de independencia que produziu um rancor tão profundo, que ainda hoje, póde dizer-se, não se acha inteiramente extincto entre os brazileiros e portuguezes. (Apoiados.)

Entende s. exa. que era esse um passo para apressar o advento do regimen autonomico administrativo que deve ser o ideal proximo ou remoto dos paizes coloniaes?

Se s. exa. não quer que eu nomeie um governador que é proprietario na colonia para onde é nomeado, muita menos deve querer que nomeie governadores os filhos d'essas colonias que ali devem ser proprietarios, e devem ter ali profundas afinidades. (Apoiados.)

Lamento que o sr. Elvino de Brito, sendo deputado pelas colonias e filho das colonias, viesse defender uma doutrina tão nefasta e absurda. (Apoiados.)

Felizmente a opinião de s. exa. não tem sido seguida pelos estadistas eminentes que têem estado á testa da negócios do ultramar.

N'esta occasião folgo de ter diante de mim o illustre deputado, o sr. general Fonseca, que foi nomeado governador da ilha do Principe pelo marquez de Sá da Bandeira, sendo proprietario n'aquella ilha, e por esse facto não deixou do ser um dos melhores governadores que ali tem havido. (Apoiados.)

E o sr. Custodio Borja, que me louvo de ter nomeado governador de S. Thomé, foi encontrado secretario geral n'aquella provincia pelo governo progressista que o conservou, e foi nomeado governador da ilha do Principe pela mesma administração progressista, apesar de ser proprietario de uma roça no Principe.

E quando o sr. visconde de S. Januario era increpado na camara dos dignos pares por alguem que estranhava a nomeação, dizia que tinha muito prazer em nomear um homem que era proprietario n'aquella ilha e que devia ter interesses creados na colonia que administrava. (Apoiados.)

Não sei como o illustre deputado não applica a sua theoria aos governadores civis do continente e ilhas; não sei como não censura que sejam nomeados governadores civis os individuos que forem proprietarios nos mesmos districtos.

Pois o partido progressista quasi não nomeou outros, e fez muito bem; porque o principio que o illustre deputado quer iniciar para a administração é o mais nefasto de todos.

Mas com relação ao outro governador ainda o caso toma um aspecto mais curioso.

O illustre deputado quer, segundo parece, que eu, antes de nomear um governador geral, vá dar busca aos seus papeis para saber de que companhias elle é accionista!

Sr. presidente, o que sei desde já, é que um homem dos mais respeitados, mais serios e dos mais conhecedores dos assumptos coloniaes em Portugal, o sr. visconde de S. Januario, não póde ser nomeado governador geral de nenhuma provincia ultramarina, porque s. exa. é accionista de todas as companhias que se interessam pelas colonias; e da mesma fórma que não póde ser governador geral de nenhuma provincia ultramarina, tambem não póde ser nomeado ministro da marinha, porque sendo accionista do banco ultramarino, evidentemente, segundo a theoria do