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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS 419

porque em tão poucos mezes não se renegam tão importantes princípios.
Eu sinto muito que s. exa., pela sua qualidade de par do reino, não possa ter voto n'esta casa, porque se o tivesse, já o convidava a votar commigo n'uma questão que brevemente terá de discutir-se.
É uma interpellação annunciada ao sr. ministro do reino sobre o direito de petição. O sr. conde de Samodães deve sustentar os seus principios, e pôr-se de accordo commigo contra o sr. bispo de Vizeu. Deve querer o direito de petição individual ou collectivo, e não póde de modo algum aceitar a portaria que foi dirigida ao secretario geral do governo civil de Bragança. Essa interpellação pendente póde dar logar a uma moção de censura. Espero que n'essa occasião o sr. ministro da fazenda lembrará aos seus amigos politicos a obrigação que lhes corre de votarem contra o ministro do reino, para não rasgarem o seu programma. Devo ter por essa occasião muita gente do governo e da maioria commigo. Até hei de gosar da honra de ver votar ao meu lado o sr. ministro da marinha. S. exa. ha e votar contra o seu collega do reino n'esta questão; porque o illustre ministro, o sr. Latino Coelho, liberal, e democrata como foi, e como é, sustentou sempre na imprensa o amplíssimo direito de petição, individual e collectivo, garantido ás camaras municipaes, e a todos os corpos collectivos. Não é homem s. exa., que renegue doutrinas, sustentadas pertinazmente na imprensa, por muitos annos, em polemica com illustres jornalistas e publicistas, que seguiam opiniões contrarias.
Sr. presidente, partidario das maximas liberdades, e da mais alta descentralisação, o meu verdadeiro partido é o partido do futuro, porque as minhas aspirações não serão idéas praticas, fructificantes, estaveis, emquanto a educação moral e intellectual do povo não chegar a um certo grau de saturação, de que ainda infelizmente está arredado.
Quem é pois do partido do futuro, pelas aspirações democratas e radicaes, não póde estar ligado por vivas saudades ao passado, que estima e respeito, nem póde exorar aqui pela resurreição dos mortos (apoiados).
Mas quem é do partido do futuro, no campo das mais sublimadas aspirações, e no campo da propaganda, não deixa de pertencer ao presente, que é a realidade da vida, se quizer ser homem pratico, e propagandista útil.
Venham pois os partidos politicos, com idéas e systemas de governo, porque são rodas necessarias no mecanismo constitucional e instrumentos poderosos de progresso politico na vida dos povos. No que for mais adiante, lá irei occupar o meu logar de operario convicto e indefesso.
Venham todos os homens, porque as individualidades não se excluem, e cada um ha de occupar o logar que lhe convier; mas se quizerem ser os primeiros, tomem a fórma das novas idéas, porque as sociedades já se não governam com mythos, e porque a palavra, o pensamento, a iniciativa, a acção, são hoje os verdadeiros chefes de partido nos povos que principiam a pensar, e entrever os destinos que são chamados a realisar.
Sr. presidente, eu abri os olhos no seio do partido setembrista, servi depois, como soldado, a junta do Porto, e achei-me por ultimo naturalmente collocado no partido historico. É esta a minha genealogia politica, nunca tive outra.
Mas uma das cousas que muito me contrariava n'este ultimo partido era ver alguns homens distinctos d'elle não abraçarem completamente todas as grandes liberdades económicas. Não podia comprehender estas aberrações. E dizia commigo = como é possivel que este partido historico queira ser o partido mais avançado e radical, quando um grande numero dos seus membros mais distinctos, ou pelo menos mais influentes, não abraçam as maximas liberdades nas suas mais altas manifestações, e em todas as espheras do trabalho e da actividade humana?
Eu bem sei que nem todos os caudilhos do partido pensavam assim em assumptos economicos. A prova está no decreto, que ainda hoje não tem força de lei, e que é necessario homologar, de abril de 1865, sobre a livre importação de cereaes.
Sr. presidente, se o partido historico está destinado ao milagre da resurreição, tem de levantar-se, escudado nas mais espirituaes aspirações e nas mais amplas liberdades. Se quer ser o mais radical, tem de caminhar e de acompanhar sociedade nas suas progressivas evoluções. Se não caminhar, desapparecerá de novo, será ephemera a sua vida, e passará como reflexo amortecido do que já foi, quando os seus programmas de outr'ora satisfaziam ás necessidades políticas das epochas que já lá vão.
Não comprehendo hoje partidos avançados, rasgadamente progressistas, radicaes, cujos programmas não assentem na democracia, que é a igualdade de todos, a pratica de todas as liberdades, a acção livre do cidadão, a descentralisação administrativa, a vida local e municipal, a justiça e o direito sem privilégios e sem excepções, e a solidariedade social, assente na reciprocidade do auxilio fraternal.
É este o meu credo, será este o meu verdadeiro partido, são estas as minhas aspirações.
Á hora já deu, ou está a dar.
Só duas palavras mais. Por mais obscuro que seja um cidadão, por mais humilde que seja a sua historia, circumstancias que são perfeitamente applicaveis á minha pessoa, que não aspira a uma biographia, ninguém deve renegar o seu passado, porque a honra e a dignidade proprias a isso se oppõem.
Declaro pois que mantenho n'esta casa, e fora d'ella, todas as minhas passadas responsabilidades. Sou hoje na opposição o que seria, senão estivesse n'ella filiado. Não declino o meu passado, nem a parte que porventura tenha tomado em quaesquer acontecimentos.
A primeira condição do homem publico é ser homem de bem. Ninguem póde hoje defender actos, e ámanhã combate-los, sem dar a rasão por que modificou as suas opiniões. Se alguma vez houver de arrepender-me ou tiver que modificar a minha opinião em relação a quaesquer pontos do doutrina, de administração, ou mesmo quanto á apreciação politica dos homens publicos do meu paiz, tenham v. exa. a camara a certeza de que hei de dar as rasões das minhas modificações ou conversões, a que felizmente não sou muito atreito. Tenho dito. Vozes: - Muito bem. (O orador foi comprimentado por muitos srs. deputados.)

1:205 - IMPRENSA NACIONAL - 1869