SESSÃO N.° 36 DE 26 DE MAIO DE 1893 5
deterioramento do que os volantes, por isso que aquelles são permanentes, e para estes podem escolher-se a condições e opportunidade do seu lançamento reconheceremos que a industria da pesca, por de apparelhos fixos, está longe, de attingir um grau de prosperidade, que habilite a compartir, com vantagem, os duros encargos, a, fortissima tributação que pesa sobre a classe piscatoria. Pelo que respeita aos apparelhos volante do norte, de que podem servir, de typo da Povoa de Varzim, uma lancha e respectivos aprestos deverão calcular-se em media no valor de 400$000 réis.
Na prova, cada lancha pertence ordinariamente a tres socios, um dos quaes toma a direcção suprema do barco. É o mestre, que governa a cana do leme.
Ao pagamento dos, juros e amortisação do capital empregado na aequisição de todo o apparelho incluindo o barco, é destinada metade do producto de tres rede, que se chamam da lancha, as quaes umas vezes são levadas ao mar, pelos socios, outras vezes, pelos marinheiros, revertendo a outra metade do producto em favor de quem as leva.
Ha ainda uma outra rede, chamada da Senhora da Lapa, cujo producto, tambem dividido em duas partes, é distribuido metade por quem a leva ao mar, e metade pela real irmandade d'aquella invocação.
Os tres socios do barco, incluindo o mestre, têem direito a tres redes cada um, constituindo o producto de todas um fundo, commum, que se divide em quatro partes iguaes, uma para cada socio, a outra para custear as despezas de conservação do barco.
A tripulacão de cada lancha orça, em geral, por vinte e cinco marinheiros, cada um dos quaes póde levar, ao mar rede e meia, pertencendo-lhe o respectivo producto.
Não havendo salario, fixo para cada marinheiro, mas, pelo contrario, provindo os seus lucros da incerta colheita de cada rede; que, algumas vezes succede vir vasia ou quasi vasia, bastará este facto para accentuar a desproporção enorme que se dá entre os operarios do mar e os operarios terra, aquelles sempre entregues e sujeitos ao capricho da sorte, estes trabalhando, com menor perigo da sua existencia, na previsão de um salario seguro.
Feliz anda assim o pescador quando, graças a um sorriso da boa fortuna, póde adquirir, a materia prima de que elle mesmo, pela sua propria mão, fabrica a rede.
Os mais desfavorecidos da sorte trabalham com redes de terceiras pessoas, que se denominam parceiros, sendo n'este caso o producto da pesca dividido em duas partes iguaes, uma para o parceiro (dono da rede), outra para o marinheiro que leva a rede ao mar, e que toma o nome de meieiro.
O parceiro adianta ao meieiro uma quantia, meia duzia de libras, pouco mais, especie de emprestimo, que o pescador terá de pagar n'um praso combinado, dando pór hypotneca o seu proprio, corpo, isto é, a sua existencia.
Alem d'isto o parceiro, tambem obrigado a fornecer por emprestimo, ao meieiro as pequenas quantias de que em cada viagem precisa para, as suas provisões de mar.
E o que se chama fazer a cesta ao meieiro.
Ordinariamente os pescadores, por condições especiaes da sua existencia, têem prole numerosa.
Esta circumstancia não deixa de ser considerada na organisação o trabalho, na participação dos lucros do pescador da Povoa.
Se no lar do marinheiro ha filhos pequenos, assiste-lhe o direito, de levar ao mar mais uma rede, que pittorescamente se chama a rede do rapaz. Mais propriamente ainda só lhe poderia chamar e rede das creanças. Suppõe-se que é para ellas o producto da venda do peixe, que essa rede colher.
Se o marinheiro não tem filhos pequenos, é comparte com outros, que se acham em identidade de condições, no direito de levarem de tres a cinco redes, chamadas de beber cujo producto é dividido a meias pelos donos d'essas redes e por um mealheiro destinado a occorrer a diversas aplicações de interesse commum para a companha.
É das redes de beber, que sáe, realmente, a bebida, isto é, o vinho que os marinheiros da lancha bebem ao sabbado na taberna, seja na Povoa ou em qualquer porto de arribação, vinho pacato, que rarissimas vezes incommoda a policia.
Mas não são exclusivamente um feudo de Baccho estas redes: d'ellas sáem tambem outras despezas dá companha, se arribou, e emprestimos aos mais necessitados dos marinheiros, quando se encontram em apuros; Sob este ponto de vista, as redes de beber são uma especie de Banco da companha.
A disciplina de bordo, regulada pelo mestre, vae até ao ponto de privar, de beber, á custas das redes, aquelles que se negaram a qualquer, serviço de interesse commum. Para esses a rede não dá vinho: é tão seca quanto elles foram inuteis.
O trabalho da pesca continua ainda fora do mar para um grande numero de pessoas, ordinariamente as mulheres e filhos dos pescadores.
Um mappa da administração do concelho da Povoa, relativo ao movimento da industriai da pesca no anno de 1891, dá como exercendo os trabalho do mar, 4:25 individuos e, alem d'este, mais 3:000 pessoas, approximadamente, empregadas na labutação que se faz em terra: guarda, limpeza, séca. das redes; amanho, lavagem accommodação nas canastras, para exportação, e venda do peixe.
Mas estes numeros poderão ainda ser avolumados sem périgo de exagero; pelo contrario, em face de outros dados officiaes que reproduzimos no opusculo A questão das pescarias.
Á volta do mar, as redes são lavadas e encascadas, isto é passadas por uma infusão de casca de salgueiro, para tornai-as resistentes.
Atadas umas ás outras todas as redes de uma lancha;
são lançadas ao mar, formando uma fiada a que os pescadores chamam caça. Sobre cada extremidade da caça fluctua uma boia com o distinctivo da companha. Ha rodes de malha estreita para o peixe miudo, e de malha larga para o peixe graudo.
os barcos empregados na pesca pelos pescadores da Povoa são: lanchas, bateis, catraias, saveiros, botes ou cahiques, sendo superior, em relação aos outros barcos, o numero das catraias.
Intencionalmente rios demorámos sobre a organisação da pesca por meio de apparelhos volantes, tomando como typo, pela sua importancia numerica, a industria na Povoa de Varzim, para mostrar quão duro, laborioso e rude é o mister do pescador, quão arriscada a sua existencia, e quão incertos os seus lucros.
Se o illustre deputado o sr. Ferreira do Almeida, tão perito na questão de que se trata, affirma que a exploração dos apparelhos fixos do Algarve para a pesca do atum se tem feito sempre com as oscillações mais violentas e extraordinarias nos seus resultados, havendo periodos remuneradores intercallados n'outros verdadeiramente desastrosos, as oscillações a que está sujeita a pesca por meio de apparelhos volantes não por certo menos caprichosas, sendo este systema de pesca tambem muito mais arriscado e perigoso, em relação ao outro.
Nos apparelhos fixos, como se usam no Algarve mesmo para a pesca da sardinha, é certo que os apparelhos, por estarem sempre expostos á acção do mar e do tempo, cor-
1 Ferreira de Almeida, Pescaria na costa do Algarve.