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6 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

mentos não se improvisam. Do material secundario fazem parte muitos artigos que nas occasiões mais criticas não são absolutamente indispensaveis. Um soldado com armas e cartuchos póde sempre combater ainda que lhe faltem todos os mais recursos. (Apoiados.)

Este projecto dá por tal forma satisfação a uma necessidade impreterivel do exercito e do paiz, que tem sido recebido pela opinião publica, pela imprensa e pelo exercito com o maior enthusiasmo. E assim devia ser.

O exercito é uma instituição que merece aos povos civilisados o maior desvelo e carinho, porque elle, ao mesmo tempo que é o guarda de todas as liberdades, é o mantenedor da independencia e da integridade das nações, e do respeito e da consideração que se deve aos paizes.

Até 1884 o exercito pareceu estar esquecido por parte dos poderes publicos, cujas attenções se dirigiam especialmente para a politica e para os melhoramentos materiaes.

Depois de 1884, em que Fontes Pereira de Mello reorganisou o exercito, os governos têem olhado mais attentamente para esta instituição, procurando quanto possivel melhoral-a. Estes melhoramentos têem sido, porém, mais na parte organica e regulamentar que na parte material; não obstante ser bem certo que o exercito desprovido de armamentos e dos mais recursos indispensaveis em campanha, nada poderá fazer de util ao paiz n'uma occasião de perigo.

Mas não o comprehendem geralmente assim os nossos homens publicos, que prodigalisando ao exercito palavras e phrases calorosas, não vêem que por esse modo não dão satisfação ás suas necessidades mais instantes.

Alguns dos nossos homens publicos da actualidade, não tendo experimentado os transes por que passam os governos quando têem de recorrer ás armas, pensam que este estado beatifico de paz se prolongará pela eternidade fora, esquecendo a grande phrase de Leibnitz: a paz perpetua só existe no cemiterio.

Sr. presidente, a longa paz de que temos gosado desde muitos annos fez desviar as attenções dos governantes para outros serviços muito importantes, como são os melhoramentos materiaes do paiz, vias de communicação accelerada e ordinaria, escolas industriaes, etc., ficando no esquecimento os melhoramentos materiaes do exercito.

Mas nao é, sr. presidente, só a longa paz a cansa de ta] esquecimento e abandono. Reside ella no nosso caracter. E sestro antigo entre nós deixar tudo para a ultima hora. De longa paz têem disfructado a Belgica e a Suissa e não obstante estes dois paizes não esquecem quanto devem Á manutenção da sua independencia e integridade. A Belgica, para cumprir apenas a neutralidade, não duvidou dispender ultimamente 18:000 contos de réis, só com as fortificações de Namur e Liège, no Meuso.

A Suissa, pelas mesmas rasões, não esquece as fortificações do Saint-Gothard, da Furka, de Airolo e outras, em que gastou ainda ha pouco 5:000 contos.

4:000 contos, approximadamente, gastou cada um distes paizes com o armamento ultimo da sua infanteria. E nós, que temos uma verba destinada a compra de armamento, devemos conservar-nos absolutamente desarmados? (Apoiados.)

Isto de estar a fazer politica com as cousas do exercito, exagerando casos financeiros que podem acontecer ou deixar de acontecer, e com que o projecto nada tem que ver, será talvez muito bom, mas na minha opinião não passa de rhetorica.

Uma voz: - E musica.

O Orador: - Eu tambem ás vezes me dedico á leitura dos nossos clássicos e lembra-me agora aquella phrase de Diogo do Couto na sua obra O soldado pratico, em que diz:

"Quem na guerra que houver de fazer quizer vencer, de longe só deve aperceber."

Isto é, para poder fazer a guerra deve uma nação preparar-se com antecedencia. Assim o fez a Prussia durante alguns annos, illudindo inclusivamente os tratados e creando uma organisação de exercito e uma lei de recrutamento que lhe permittiu com um pequeno effectivo de paz instruir a grande massa da sua população.

A campanha de 1806 havia sido fatal á monarchia prussiana, mas esta potencia encontrou, no proprio excesso das suas desgraças, o meio de se levantar e de retomar pouco a pouco o seu logar entre os estados militares da Europa.

Pelo tratado de Tilsit, de 1807, e por um artigo secreto do convenio de Paris do 1808, Napoleão impozera á Prussia a obrigação de limitar o effectivo do seu exercito permanente a 42:000 homens. Que fez então a Prussia? Reorganisou o exercito em novas bases que lhe permittiram illudir as duras condições impostas por Napoleão, e ter, n'um dado momento, um exercito numeroso e instruido, conservando realmente nas fileiras apenas 42:000 homens. Os recrutas eram licenciados logo que terminavam a sua instrucção e substituidos immediatamente por outros em igual numero. Por este modo a Prussia fez passar pelas fileiras um grande numero do recrutas que na occasião opportuna constituiram um exercito formidavel. Com este systema instruiu em tres annos, de 1808 a 1811, no serviço das armas, 150:000 homens. Ao mesmo tempo o governo d'aquelle paiz adquiria as espingardas, necessarias, já por compra, já por fabricação directa, bem como a artilheria de que carecia.

Foi assim que o exercito prussiano se levantou do seu abatimento, o pôde, victorioso, pisar o solo da França em 1814.

Os nossos homens publicos, porem, fazem sobre assumptos de guerra discursos, relatorios, decretos e até leis que se não cumprem. Têem muito boa vontade, mas falta-lhes a energia, a tenacidade e a perseverança para prosseguirem constantemente n'uma medida que se reconhece ser boa. Pois deveriam ir por diante, apesar de toda e qualquer contrariedade.

Sr. presidente, em principios de 1890 a sinistra figura da guerra pareceu pairar sobre o nosso paiz. Esse phantasma sangrento afigurou-se mais ameaçador sobre Lisboa, por ser muito naturalmente esta cidade a parte mais vital do paiz, como sendo a sua cabeça, a sua capital. Na guerra é á capital que a politica e a estratégia dirigem os seus principaes golpes, e n'este ponto está de accordo com as altas concepções politico-militares, o sentimento popular, que assim se expressa "atirar á cabeça para segurar." Muita gente imaginou que teriamos perturbação da paz, e n'essa occasião homens que tinham assento n'esta camara arreceiaram-se muito de que alguma esquadra poderosa viesse fazer no nosso porto qualquer manifestação de força.

Houve clamores no paiz e o ministerio, inspirando-se na opinião publica o no seu alto dever (aqui que se vê se deve estar apercebido desde longo tempo) publicou em 10 de fevereiro d'esse anno uma serie de decretos que só tivessem sido postos em execução, não se importando fazer despezas, mas em termos reflectidos, haviam de ter dado bom resultado para a defeza do nosso paiz. No relatorio que precede esses decretos com que vou responder ás affirmações hontem feitas pelo illustre deputado o sr. José de Azevedo, diz-se: "No momento actual o patriotismo impõe-nos outros devores e outras tarefas, que são a garantia dos progressos politicos e materiaes que temos realisado: são os deveres e as tarefas de uma solida organisação militar, e da defeza do paiz. Estamos n'este ponto abaixo de quasi todas as nações, e é necessario igualarmo-nos a ellas na proporção das nossas circumstancias e dos nossos recursos. O inicio d'este emprehendimento, sobretudo no que toca ás necessidades mais instantes, é inadiavel, e reclama-o a opinião e a consciencia nacional."

Quem disse isto e o assignou foram os srs. Antonio de Serpa, Lopo Vaz, João Franco, João Arroyo, Hintze Ri-