10 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
É uma formula commoda mas falsa, como todas as formulas geraes. (Apoiados.)
Que partido é esse que nos apresenta tão austero censor e fiscal da applicação dos dinheiros publicos?
É o partido regenerador, que a historia aponta como o partido dos esbanjamentos e dos desperdicios, (Apoiados.) e que ainda depois da crise terrivel de 1891, entendeu no seu patriotico criterio, que podia e devia augmentar as despezas publicas em 10:000 contos de réis. (Apoiados.)
Quando começou esse partido a fazer a penitencia?
Onde é que iniciou essa penitencia?
Foi nos bancos da opposição?
Não é n'esse logar que se póde affirmar e provar a sinceridade de taes propositos. Essa só se demonstra nas cadeiras do poder, (Apoiados.) com factos e não com palavras, porque de palavras está o paiz farto, demasiadamente farto. (Apoiados.)
De resto eu já tenho ouvido dizer aos deputados da opposição que este projecto é exiguo, humilde mesmo.
N'esta parte concordo com s. exa.; é o unico defeito que lhe reconheço.
O sr. ministro da guerra prestou um relevante serviço ao paiz com a apresentação d'este projecto e um relevante serviço ao exercito. (Apoiados.) S. exa. dedicava-se ha muito ao estudo da defeca nacional, por isso os partidos tambem ha muito solicitavam a sua intervenção na direcção superior dos negocios do estado. (Apoiados.) O illustre ministro tem mostrado que não era apenas um trabalhador do gabinete, mas que tinha todas as faculdades, toda a reflexão a toda a tenacidade, que caracterisam um verdadeiro homem do estado. (Apoiados.) Os seus adversarios politicos bastante têem trabalhado para lhe deturparem as intenções e crear contra as suas medidas uma corrente de antypathia, que nunca conseguiram formar. A sua obra nau tem sido apoucada com esses esforços. Antes ella tem sobresaido pelo contraste com que a manidade da critica que a têem pretendido ferir. (Apoiados)
Chegando ao poder, comprehendeu que o seu primeiro trabalho deveria ser o de reorganisar o exercito de harmonia com os principios, que são hoje os dogmas da sciencia militar, (Apoiados.) de accordo com os recursos do thesouro e com as necessidades da defeza nacional, e de maneira a expungir da nossa legislação os erros da organisação de 1884, apontados desde que ella se publicou e ainda ha dias, n'esta mesma discussão, condemnados por um illustre deputado regenerador. (Apoiados.)
Era uma empreza arrojada, diante da qual têem esmorecido vontades das mais firmes e energicas, das mais provadas, mas elle venceu-a á custa de trabalho, com a consciencia de que estava cumprindo o seu primeiro dever. (Apoiados.)
Votada a reforma, muito mais lhe restava ainda fazer. Com ella obtêem-se importantes effectivos, garante-se a instrução a todas as classes do exercito, mas de que servirá tudo isto se os soldados não tiverem, armas? (Apoiados.)
Este projecto é, pois, o complemento logico d'aquelle que o parlamento votou o anno passado. Mas é exigua? É de certo. Sou o primeiro a reconhecel-o. Traduz uma aspiração, não é a solução completa do problema. (Apoiados.)
A camara deve fazer justiça ao nobre ministro e aos deputados que constituem a commissão do guerra do acreditar que elles bem sabem que o actual projecto não satisfaz inteiramente ás necessidades do exercito. O seu voto representa, pois, o doloroso sacrificio que elles fizeram dos seus mais legitimos desejos. (Apoiados.)
Isto não deve ser apontado como objecto de censura, mas como motivo de louvor, louvor que recáe sobretudo ao sr. conselheiro Sebastião Telles que mostra assim como sabe cumprir de maneira tão elevada, o seu dever, conciliando os interesses da grande familia militar, com os interesses da fazenda publica, sem abalos na obra do restauração financeira a que o governo se entregou desde o primeiro dia o vão conseguindo com um êxito completo. (Apoiados.)
O sr. Cabral Moncada terminou o seu discurso com um apologo. S. exa. contou-nos, n'um estylo rendilhado, formosissimo, encantador, que me fez acreditar que por detraz do orador surgira repentinamente um poeta, uma historia bem simples na verdade, mas recheada do philosophia e intenção. O caso passou-se n'uma aldeia risonha, florida, cercada de jardins e rescendente de perfumes. Vivia ali uma população laboriosa, honesta, socegada e feliz. Um dia - eu peço desculpa a s. exa. por estar repetindo o seu apologo, tirando-lhe a forma brilhante com que foi exposto e que a mim me fallecem qualidades para lhe dar -...
O sr. Moncada: - Ora essa! Isso é modestia, vae muito melhor.
O Orador: - Um dia, essa população, tão feliz, tão socegada, tão tranquilla, andava na rua, mourejando na sua faina, quando foi surprehendida por uma chuva miudinha, mas terrivelmente penetrante que molhou todos os seus habitantes e especialmente os sete cabos de policia que, por exigencias do seu servido, mais tinham de se expor ao tempo.
Quando o illustre deputado estava coutando esse apologo, tive a impressão de que já ouvira, ou já lera, uma historia similhante. Invoquei as minhas reminiscencias e reconheci que o apologo do sr. Moncada não era realmente original, já o tinha lido, não me lembra bom aonde, embora com ligeiras divergencias. O scenario não era igual, o final não o era tambem, mas nos episodios havia uma similhança absoluta, uma analogia completa. Em vez de aldeia florida, risonha, rescendente de perfumes, o apologo que eu lera passara-se n'uma fraguezia espreguiçada á beira mar. Tinha esta campinas e jardins, onde a natureza ostentava toda a gala das suas maravilhas, mas possuia tambem pontos alcantilados, serras agrestes, que davam á paizagem um tem igual ao da nossa provincia de Traz os Montes. Pelo mar largo espalhavam-se baixios e ilhéus, alguns de maior area, muito maior, do que da propria freguezia, mas pertencentes a ella.
Um dia, a população d'essa freguezia, tão tranquilla, tão modesta, tão feliz, como a do apologo do sr. Cabral Moncada, foi tambem surprehendida, na sua labuta quotidiana, por uma chuva miudinha, da que penetra até aos ossos e como a d'aquelle apologo ficou toda doida. Na aldeia a que me refiro existiam igualmente sete cabos de policia, que, talvez pela rasões que já apontei ao fallar dos seus collegas da tal outra freguezia, apresentaram tambem mais graves de loucura do que os seus concidadãos.
A sua loucura, porem, é que era differente, muito differente da que nos descreveu o sr. Moncada, nos heroes do seu conto. A d'estes não passava de uma loucura mansa, pacata, inoffensiva, não produzindo mal a ninguem, loucura que se poderia classificar de mania, quando muito. A dos meus heroes ora, ao contrario, turbulenta, tinha todos os caracteristicos de uma espectaculosa megalomania. Vestiam-se de togas roçagantes, empenhavam-se em emitar os dictadores de Roma, imaginavam-se dictadores o absorvidos n'esse sonho acreditavam que lhes cumpria immolar tudo, sacrificar tudo, corromper e vexar, sacrificar os mais sagrados direitos, amordaçar as mais reconhecidas liberdades, calcar as mais respeitadas garantias.
Eram a encarnação do genio destruidor. Tinham accessos de energia, mas de uma energia doentia, ás guinadas, permitia v. exa. o termo, caindo depois n'um marasmo absoluto. Em todo o caso a forma preponderante d'essa loucura era: destruir, despedaçar, esfrangalhar o que ha de mais puro e intangivel.
(Interrupção do sr. Antonio Cabral.)
Isso fica para outra vez.