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SESSÃO N.º 39 DE 27 DE MARÇO DE 1900 11

Vamos ao final. O apologo do sr. Cabral Moncada acabava d'esta forma:

Na sua aldeia havia um sabio, ou alguem que se imaginava como tal, porque isto de sabedoria, lá diz o rifão, cada um toma a que quer. Esse sabio, felizmente para elle, estava mettido no seu gabinete, na hora funesta em que caiu a chuva allucinadora. Ao sair para a rua teve uma impressão de pasmo, de duvida mesmo, no equilibrio das suas faculdades. Via todos os seus patricios doidos.

Comprehendeu que só lhe restava endoidecer tambem, e que á loucura havia de chegar, quer quizesse, quer não.

Olhava para os cabos de policia e sentia-se enamorado d'elles.

Á forma extravagante como exerciam a sua auctoridade, o respeito que, apesar de tudo, inspiravam aos seus concidadãos, davam-lhe allucinações, produziam-lhe uma sugestão dominadora e absorvente. Para elle o poder ser tambem cabo de policia constituia a aspiração mais risonha.

Para isso, no estado a que as cousas haviam chegado, era preciso endoidecer primeiro. Felizmente, tinha ao pó uma pôça de agua, da agua da chuva da loucura, e bastou molhar a cabeça para ficar mais doido do que todos os outros e portanto com melhores titulos do que elles, a cabo de policia. (Riso.)

Conheço muitos sabios por esse mundo, que dizer em. mal dos cabos de policia, só desejando sel-o, que dariam tudo para depararem com uma poça de agua milagrosa, onde enlouquecessem e ao mesmo tempo realisassem o sonho que os domina.

Mas não a encontram.

Caminham n'um deserto, sem depararem com um fio de agua sequer, por isso esmorecem inspirando verdadeiro dó e tornando-se dignos de que eu d'aqui lhes envie os meus mais sinceros sentimentos. (Riso.)

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem.

(O orador foi muito comprimentado por todos os membros do governo a deputados da direita da camara.)

Leu-se na mesa a moção e foi admittida.

O sr. Presidente: - Acha-se nos corredores da camara o sr. Domingos Tarroso. Convido os srs. Luiz José Dias e Homem de Mello a introduzil-o na sala.

Foi introduzido e prestou juramento.

O sr. Teixeira de Sousa (Sobre a ordem): - Em primeiro logar dirijo-me ao meu illustre adversario politico, o sr. Lourenço Cayolla a quem cordialissimamente cumprimento pela maneira brilhante como s. exa. defendeu o projecto em discussão. (Apoiados.)

Dizendo isto, não dirijo a s; exa. um cumprimento banal, porque a minha phrase corresponde toda a sinceridade; o que não quer dizer que eu concorde com o que s. exa. acaba de expor a proposito da defeza do projecto.

Eu tinha-me inscripto para mandar pura a mesa uma proposta de substituição a uma parte do projecto, proposta que precisava justificar e tel-o-ia feito em muito poucas palavras; todavia a maneira por que s. exa. defendeu o projecto obriga-me a fazer mais largas considerações do que tencionava e que de certo não faria se não fosse chamado pelo illustre deputado que me precedeu, a um campo para onde eu não desejava dirigir-me.

Muitas foram as reflexões feitas por s. exa., e como eu tenho receio de que me escapem as mais importantes, não posso deixar de referir desde já uma que se me afigura como tendo uma importancia capital.

O sr. Cayolla pelos melhores euphemismos de que se póde servir, quiz insinuar que nós na discussão d'este projecto temos mostrado ou pretendemos mostrar menos consideração pelo exercito. Alto lá sr. Cayolla; isso é absolutamente inexacto.

Hoje, hontem e sempre, nós temos mostrado a maxima consideração pelo exercito; por mais de uma vez temos aqui reconhecido os altos e grandiosos serviços prestados pelo exercito portuguez ao seu paiz; mas ha uma cousa em que se discorda; é quando se vem pedir ao parlamento aufitorisação para augmentar as despezas e por maneira incorportavel com as circumstancias do thesouro publico.

Accrescentou o sr. Cayolla que não tinha rasSo nem direito para vir aqui pedir economias nem cerceamento nas despezas o partido regenerador, que é o partido dos esbanjamentos! Alto lá, sr. Cayolla, isso é absolutamente inexacto.

Eu não posso comprehender que s. exa. produzisse de boa fé um tal argumento. Não é preciso fazer uma longa demonstração para mostrar quanto é inexacta a afirmação feita por s. exa. e quanto é verdadeira a de que o partido dos esbanjamentos por excellencia é o partido que está representado no poder. Não vou procurar á minha algibeira algarismos que o provem. Quer abra o relatorio de fazenda apresentado pelo sr. Espergueira, quer abra o relatorio apresentado pelo sr. Ressano Garcia, eu vejo, ou a authenctica me falha, que o partido progressista actualmente representado no governo, desde 1886 até 1890, augmentou as despezas ordinarias em cerca de 9:000 contos de réis em cada anno.

Pois, d'onde é que vem a nossa ruina financeira? Quem não comprehende que os nossos mais difficeis dias vieram do emprestimo dos tabacos em 1891?

Quem não comprehende que esse emprestimo foi para liquidar a situação financeira deixada pelo governo do sr. José Luciano de Castro?

Caiu em 12 de janeiro do 1890 o partido progressista, seguiu-se-lhe o ministerio regenerador, que em setembro caiu diante das dificuldades da questão ingleza; mas a verdade é que as difficuldades financeiras do governo presidido pelo sr. José Luciano de Castro foram, durante os mezes de 1870, para serem liquidadas pelo emprestimo dos tabacos, emprestimo que fez com que nos apresentássemos ao estrangeiro como fallidos. Depois d'isso o que aconteceu?

Ha tres annos que está no poder o actual governo e o que nos trouxe aqui?

S. exa. apresentaram aqui alguma proposta de lei que não reduza a receita e augmente consideravelmente a despeza?

Se ha excepções, estão ellas nas propostas de caracter politico, e algumas d'ellas bastante graves e de cuja approvação resulta augmento consideravel de despeza. Para não ir mais longe basta referir-me á proposta de reformas constitucionaes que ha dias apresentou o sr presidente do conselho, proposta que não póde ser nem mais revolucionaria, nem mais subversiva do regular andamento e funccionamento dos diversos poderes do estado. (Apoiados.) Não para aqui. Como é que os homens da opposição vem hoje negar a sua approvação a um projecto pelo qual se pedem 3.000 contos de réis, para armamento, e em 1896 votaram ao ministro da marinha regenerador, o sr. Jacinto Candido, 2:700 contos de réis para a compra de navios de guerra?

Com que auctoridade, disse o sr. Lourenço Cayolla, vem aqui o sr. Teixeira de Vasconcellos e Teixeira de Sousa que fizeram parte da commissão de marinha negar a approvação a este projecto ? Pergunta isto o illustre deputado, como se, sob o ponto de vista em que nos temos collocado, haja alguma paridade entre o projecto que se discute e o projecto de 1896! (Apoiados.)

O que se tem sustentado d'este lado da camara? Primeiro - que ou se não faz o emprestimo, e n'este caso vão tirar-se 3:000 contos de réis ás receitas do thesouro, ou que não se póde fazer sem um gravissimo prejuizo, visto que o orçamento do estado tem um enorme deficit - ou se faz o emprestimo, prendendo as receitas da remis-