SESSÃO N.º 39 DE 27 DE MARÇO DE 1900 9
adquirir força necessaria pura poder resistir vantajosamente aos exercitos de nações mais poderosas.
Similhante argumento conduz a conclusão logica de que é absolutamente perdida toda a despeza que façamos com o exercito. Protesto energicamente contra essa theoria. (Apoiados.) O nosso exercito mereço - menos do que nenhum outro - estas palavras, que se não são uma affronta, representam, pelo menos, uma condemnação. (Apoiados.) Ainda hontem partiu para a Africa um troço de seus valentes soldados. Seguiam para regiões longinquas, a milhares de leguas das terras em que nasceram e que elles desde a infancia aprenderam a amar. Iam para perigos desconhecidos, para climas mortiferos, para um meio totalmente differente d'aquelle em que sempre viveram e comtudo caminhavam de fronte erguida, o olhar feliz, a boca entreaberta n'um sorriso de esperança, e na hora da despedida levantavam enthusiasticos e phreneticos vivas á patria e á sua felicidade. (Vozes: - Muito bem.)
Os exercitos das nações pequenas não são inuteis. A Roumania, cujo exemplo se está aqui sempre a citar pelas circumstancias que a equiparam ao nosso paiz, tem um exercito que na guerra russo-turca se transformou no arbitro supremo d'essa guerra, por isso que do facto d'elle se inclinar a favor do imperio russo é que resultou que se dicidisse a victoria para o colosso moscovita. (Apoiados.)
A situação da Europa não aconselha nem permitte a idéa do desarmamento mesmo nas nações mais pequenas e mais fracas ainda do que a nossa. O general Lewal, o brilhantissimo escriptor militar da França, ainda ha pouco condemnava essa idéa, n'um dos seus mais lucidos e notaveis trabalhos a que chamou: "A chimera do desarmamento", concluindo que ella só se poderia transformar em realidade, quando uma revolução profundissima tiver transformado todos os sentimentos moraes dos povos. (Apoiados.)
Eu bem sei que não cessa a propaganda das almas generosas para que as contendas entre as nações se liquidem por meio de arbitragens, só inspiradas na justiça e no bem da humanidade. (Apoiados.) Eu bem sei, que ainda ha mezes, um soberano dos mais illustres, senhor absoluto dos mais dilatados dominios, se enebriava no sonho encantador de que a obra da paz se póde firmar em bases indestructiveis e unanimemente acceites. (Apoiados.)
A, conferencia da Haya chegou a conclusões que, se fossem religiosamente cumpridas constituiriam um facto moral de tal ordem que seria a melhor consagração e o mais nobre fim de um seculo, bem como a mais radiosa aurora do seculo que vão começar. (Apoiados.) Por toda a parte se organisam ligas da paz, e se offerecem as palavras mais eloquentes ao serviço do benemerito apostolado. (Apoiados). Apesar d'isso, a triste e dolorosa realidade prova que a paz e apenas uma fagueira esperança dos que têem a alma só votada ao bom e ao sentimento da fraternidade dos homens. (Apoiados.)
As grandes potencias armam-se até aos dentes. As fabricas de material de guerra, cada dia mais potentes e com mais poderosos elementos de acção, declaram-se incapazes de satisfazer a enorme clientella que as assoberba. As nações pequenas têem de seguir, embora sem prazer, esta corrente. Os orçamentos da Suissa, da Belgica, da Hollanda, da Roumania e da Servia e outros povos de segunda ordem, provam bem a verdade d'estas palavras, e mesmo agora, n'essa guerra que se debate, cheia de heroismos e de lactas, nos confins da Africa, nós vemos que enormes sacrificios não empregou, para se armar, um pequeno povo que nem ao menos tinha a sua nacionalidade reconhecida. (Apoiados.)
Diz-se ainda, para contrariar o projecto e como demonstração de que as nações mais pequenas não precisam de exercitos para a defeza da sua autonomia, que as chancellarias d'essas nações possuem como a melhor arma, para a defeza dos seus direitos, a prudencia e a lealdade. A affirmação é verdadeira, embora não prove o que querem fazer acreditar aquelles que a apresentam. (Apoiados.)
Nós mesmos somos um exemplo de que assim é.
A proposito permitta-me v. exa. que eu cumpra um dever de consciencia prestando a homenagem mais sincera da minha admiração á politica internacional do actual governo. (Apoiados.) De todos os serviços que elle tem podido prestar ao paiz nenhum outro considero mais alto, mais patriotico, mais digno do reconhecimento nacional do que o que deriva da forma como tem dirigido as relações entre Portugal e as nações estrangeiras. (Apoiados.)
Durante o tempo que este governo tem estado no poder, ha mais de tres annos, não temos soffrido nem uma hora de amargura, nenhum dissabor tem vindo para a patria. (Apoiados.) Ha mezes ainda, á hora em que se comprehendeu que se teria de liquidar por uma guerra sanguinolenta o conflicto que surgiu entre a Inglaterra e o Transvaal, quantas prcoccupações não tivemos todos nós, que nuvens de pessimismo não toldaram os animos mais viris, perante a prospectiva dos perigos que essa guerra podia trazer para Portugal! (Apoiados.)
Os dias têem-se succedido, os mezes têem decorrido sem que esses perigos tenham tido a minima realisação pratica, sem que se tenha alterado para nós o socego e a tranquilidade. (Apoiados.) Só no futuro o paiz saberá a que milagres de prudencia, de bom senso e de reflectida energia poderá attribuir essa tranquillidade e a gratidão que deve a todos os membros do actual gabinete. (Apoiados.)
Reatando as considerações que vinha fazendo, direi que bom sei que as chancellarias das nações mais pequenas podem defender os seus direitos, mais pela prudencia o lealdade do que propriamente pela força; mas a verdade que muitas vezes essas armas quebram-se como vime diante dos interesses egoistas, em face da cubica desprezadora das nações mais fortes, e então os povos assim escarnecidos têem de acceitar a lucta no campo em que a collocam, e de appellar para a dedicação dos seus cidadãos, para o patriotismo dos seus soldados, para defenderem a dignidade nacional. (Apoiados.) De que lhes serviria ter n'essa occasião um exercito sem armas apropriadas? (Apoiados.) Quando muito de uma simples guarda nacional, sufficiente para lhe garantir a tranquillidade interna, mas impotente e ridicula para resistir ao impeto de um exercito invasor. (Apoiados.)
Foi por isso que ou applaudi sinceramente o sr. Teixeira de Vasconcellos quando s. exa. nos dizia, no seu ultimo discurso, que as nações pequenas, briosas, dignas e ciosas da sua independencia, trabalham na paz para se defenderem na guerra. (Apoiados.) É exactamente o que nós queremos. (Apoiados.) É exactamente a esse fim que esto projecto visa. (Apoiados.)
Foi isto que não fez a Grecia, que s. exa. citou pouco a proposito para a these que queria justificar e por o não ter feito é que soffreu a terrivel derrota que a dilacerou. (Apoiados.)
Que mais se tem dito contra o projecto? Sinceramente não sei.
Ouvi o sr. José de Azevedo Castello Branco, em nome do partido regenerador, da maneira mais solemne, revestido de habitos pontificaes, (Riso) declarar que esse partido não votava esto projecto, porque não votava nada, absolutamente nada, de que possa resultar um augmento de despeza.
A rasão é perfeitamente deslocada, como eu tenho provado, mas é realmente curiosa vindo de onde vem. (Apoiados.)
O partido regenerador sempre que se apresentar no parlamento qualquer projecto de onde possa derivar um augmento de despeza, vota contra elle, sem mais analyse, quer esse augmento de despeza seja determinado por uma necessidade nacional, ou obedeça apenas a um capricho, ou a uma futilidade!