SESSÃO N.° 42 DE 31 DE MARÇO DE 1900 3
viços, pegar n'um juiz auditor de 2.ª, o collocal-o em 3.ª classe; mas obrigado, não me julgo senão n'estas condições: quando passe do 3.ª para 2.ª classe, ou quando o governo o exonere das funções que estava exercendo.
(O sr. ministro não reviu.)
O sr. Moreira Junior: - Mando para a mesa duas representações.
Uma é dos fabricantes de carruagens e de vehiculos de carga, pedindo que sejam reduzidos quanto possivel os direitos aduaneiros nos artigos indispensaveis á sua industria.
Outra é das associações de soccorros mutuos de Lisboa, pedindo para continuarem completamente em vigor as isenções estabelecidas no decreto de 2 de outubro de 1896.
Estas representações estão nos devidos termos, e por isso peço a v. exa. consulte a camara sobre se permitte que sejam publicadas no Diario do governo.
Consultada a camara, resolveu affirmativamente, e vão por extracto no fim da sessão.
O sr. Fuschini: - Dia que foi procurado por uma commissão delegada da classe dos pedreiros, pedindo-lhe que intercedesse perante o governo, a fim de que fosse dado trabalho nas obras do estado a muitos operarios que o não encontram nos serviços particulares. Faz este pedido ao governo, principalmente ao sr. ministro das obras publicas, dentro dos recursos do thesouro e para obras de verdadeira utilidade publica, que na realidade não faltam.
Aproveita a occasião para dizer ao sr. Lourenço Cayolla que se é indiscutivel que ha seis ou oito annos a esta parto a riqueza publica cresceu, tambem não é menos certo que esta uquoza, accumulando-se em certas classes o até em poucos individuos, deixa bastante a desejar na sua distribuição. Ás classes populares, essas, soffrem. Ha muitos indicadores d'esta má distribuição de riquezas. O caso presente é um symptoma d'este facto.
Paizes ricos são aquelles em que a riqueza está bom repartida, não aquelles era que se acha concentrada em classes pouco numerosas e em individuos archimillionarios.
Manda para a mesa uma representação da associação de soccorros mutuos José Estevão Coelho de Magalhães, contra as taxas do sêllo, que as propostas ministeriaes pretendem impor a estas sociedades. O caracter vexatorio das medidas apresentadas, recaindo principalmente sobre as classes pobres, torna-se bem manifesto n'este caso, em que as taxas vão incidir directamente sobre os velhos, os doentes e os desamparados. É cruel este systema de violenta tributação.
Estes assumptos e o outro de que vae occupar-se, têem sidos demorados na sua apresentação ao parlamento, não por culpa sua; mas pela extrema difficuldade que um absurdo regimento oppõe a que qualquer deputado obtenha a palavra antes da ordem do dia, a menos que não empregue o systema do aviso previo, nem sempre applicavel e que aliás tambem póde dar resultados semanas depois.
Vem associar o seu desejo e o seu voto ao d'aquelles que desejam a trasladação dos venerandos restos de João Baptista de Almeida Garrett para o panthoon dos Jeronymos.
O que vae dizer não tem por fim engrandecer o nome do grande homem, porque a historia já lhe marcou o seu indiscutivel e glorioso Jogar na galeria litteraria nacional. Successivas gerações fizeram a critica, das suas bellas obras e fixaram absolutamente a poderosa individualidade do grande artista e do delicado estylista da lingua patria.
Pretende demonstrar que Alexandre Herculano e Garrett, contemporaneos durante a vida, pelo seu genial talento devem repousar juntos, cobertos pela mesma abobada de granito, como outr'ora os cobriu a mesma aureola de gloria, durante a sua formosa e util existencia. Foram dois grandes homens.
Refere-se ao movimento romantico da litteratura, que se desenvolve e inflora no segundo e terceiro quartel do seculo XIX. Não póde expor agora as causas d'este movimento, nem o logar é adequado, nem sobra o tempo. O romantismo foi uma reacção benefica contra o classicismo um pouco ridiculo do directorio e do primeiro imperio. A figura genial que symbolisa esse movimento é incontestavelmente a de Victor Hugo, o maior épico do seculo XIX, grande entre os maiores, que illustraram até hoje a humanidade.
A França tinha então a hegemonia politica e a litteraria na Europa, pude dizer-se até em todo o mundo. As suas idéas irradiavam com extrema rapidez.
Portugal soffreu em breve a acção benéfica do romanticismo, cujas figuras primaciaes, entre outras de grande valor, são, por certo, as do Herculano e de Garrett
Foram tambem politicos os grandes homens; mas a sua gloria litteraria e scientifica offuscou o seu valor de estadistas. Herculano retirou depressa para a thebaida de Valle de Lobos, amargurado e triste, prevendo as dolorosas dificuldades da nação de que elle havia traçado com mão de mestre e de artista as paginas sublimes da sua primitiva historia. Amargurado e triste, pronunciou aquella admiravel phrase, que é ao mesmo tempo uma prophecia e um aviso salutar para as actuaes gerações: isto faz vontade de morrer...
A acção intellectual o artistica que estas duas poderosas individualidades produzem sobre o sou espirito póde traduzir-se pela seguinte comparação, nascida naturalmente da sua educação scientifica. Quando se absorvo na contemplação da obra artistica do Herculano, parece-lhe estar dentro de uma grande cathedral ogival, enorme o sumptuosa, a cathodral de Milão, por exemplo, de linhas complexas, de variados aspectos, rica do primorosos rendilhados o coberta do centenares de estatuas; quando lê Garrett sente a pureza simples do estylo do nosso bello mosteiro da Batalha.
As duas bellas cathedraes differom na grandeza, na sumptuosidade; mas constituem ambas admiraveis concepções do mesmo estylo da arte. Herculano e Garrett são assim; mas, na realidade, o ultimo tem nas suas obras um caracter mais nacional.
Estes homens, que viveram juntos, tão proximos no genio litterario, têem o direito de esperar na eternidade que as gerações actuaes, por elles ensinadas e engrandecidas, os reunam para sempre na mesma crypta gloriosa.
Depois, quem sabe o que existe alem tumulo?
Na sua mocidade leu o Memorial de Santa Helena, seguiu essa agonia terrivel, lenta, da pobre victima, que remiu, sem duvidar os crimes monstruosos do que fora o grande imperador Napoleão.
N'esse rochedo, isolado no meio do oceano, Napoleão, ralado pelo cancro que lhe rasgava as entranhas, morreu onde devo talvez expirar outro heroe, Kronje, o defensor da independencia da admiravel nação boer.
Animando o seu espirito com a esperança de um porvir eterno - delicioso sonho das grandes almas - Napoleão dizia aos seus mais intimos amigos, os poucos que lhe restavam na decadencia pavorosa da sua enorme grandeza, que em breve na eternidade discutiria com Alexandre e Cesar as campanhas da Gallia e a invasão da India, pensando sempre na sua amada França.
Quem sabe só os grandes espiritos de Herculano e de Garrett, ligados na profundidade azul do céu infinito, não pensarão tambem na sua amada patria; e se agradecidos pelo nosso justo e respeitoso preito não virão- reanimar no sangue portuguez esse amor da independencia e esse respeito pela liberdade, que só por si podem ser os mais energicos agentes da nossa regeneração nacional!
Quem sabe...
A representação foi mandada praticar no Diario do go-