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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

pertendia fazer o mesmo, Portugal bloqueava a bahia, e tomava os pangaios que ali se dirigiam a commerciar.

Não pude conseguir o tratado em Zanzibar porque o Izman se encontrava em Mascate e não em Zanzibar, e as ordens que tinha era para ir sómente a Zanzibar.

Gostei immenso da commissão de Zanzibar porque conhecia os filhos do sultão.

Em 1852, houve em Zanzibar uma grande esterilidade de mantimentos para as classes pobres, em consequencia de falta de chuvas, e o sultão recorreu a Moçambique, invocando o auxilio do governador geral, a quem se dirigiu.

Eu declaro a v. ex.ª, que a medo mandei consultar a alfandega, e reuni o conselho do governo para vermos se era possivel permittirmos a saída dos generos alimenticios para Zanzibar, sem prejuizo de Moçambique.

A alfandega informou que poderia saír um pangaio, e mais nada. Deu-se permissão, e constando isto no sertão, afluiu tanto arroz, milho e feijão a Moçambique, que successivamente saíram muitos outros navios carregados d'aquelles generos para Zanzibar, porque em Moçambique era tudo muito bem pago aos indigenas.

Estes pangaios traziam a bandeira de meia lua e eram commandados pelos filhos do sultão de Mascate.

A saída livre dos generos de Moçambique, e boas relações com Zanzibar, facilitavam o desenlace para a questão da Bahia de Tungue, mas infelizmente não estava em Zanzibar o sultão.

E agora digo eu, que a crise agricola que se deu na ilha de Zanzibar, mostra quanto são ferteis os sertões de Moçambique, fazendo afluir á capital da provincia tantos generos colonias..

Quando eu entrei em Zanzibar, fui muito bem recebido pelos filhos do sultão do Mascate, demorando-me ali quinze dias e precorrendo toda a ilha de Zanzibar, porque os filhos do sultão facultaram me todos os meios de examinar as suas grandes plantações de cravo gerofe, cujo producto vae para os Estados Unidos da America; os inglezes carregam ali uns poucos de navios todos os annos.

Quando por incidente tratei com o filho mais velho do sultão, que estava governando a ilha sobre a maneira como se havia de limitar a Bahia de Tungue, elle disse-me: «Sempre que o rio Luri seria a divisoria d'essa Bahia, e que se admirava que Portugal não colonisando as bahias do Mocambo, Conducia, Fernão-Veloso e Pemba, juntas a Moçambique; fizesse tantos esforços por Tungue, que não tinha a importancia d'aquella, e que estava no extremo limite de Zanzibar!

Esquivava-se sempre a outras explicações, e estas rasões chegavam a incommodar-me, porque eram desgraçadamente verdadeiras.

N'essa occasião fui ver com os meus proprios olhos o que era a bahia de Tungue, para ver que valor tinha o conflicto que se estabelecêra entre a corôa de Portugal e a corôa de Mascate.

Devo dizer a v. ex.ª que ha um rio que desagua quasi no extremo d'aquella bahia pelo lado, de Moçambique; e o sultão de Mascate queria que elle servisse de limite ás possessões portuguezas, ficando o resto da bahia, que é a maior parte, pertencendo aquelle sultão.

Ora, pelos documentos antigos, que foram ministrados pela secretaria de marinha e pela secretaria do governo de Moçambique, provava-se que Portugal tem direito até o extremo da bahia, onde existe uma especie de saibro branco.

Este caso de Tungue ainda está por liquidar com o sultão de Zanzibar, e no ultimo tratado feito com o mesmo sultão, ficou Tungue para um accordo especial.

Mas deixando a descripção d'esta parte dos dominios da corôa portugueza, onde não existe uma pollegada do terreno que pertença á concessão Paiva de Andrada, porque a concessão Paiva de Andrada não tem nada com a bahia de Lourenço Marques, onde se encontram as minas de oiro chamadas campos de oiro, junto ás serras do Libombo, não tem nada com o districto de Inhambane, nem com o districto de Sofala, ou com o districto de Moçambique, ou com o districto das ilhas de Cabo Delgado, vamos procurar o sitio onde é essa concessão.

Para isso vamos entrar pelo Zambeze dentro. Digo a v. ex.ª que os documentos de que me vou servir são a correspondencia official, as memorias do sr. Sebastião Botelho, que descreve a Zambezia perfeitamente, e que se deu ao trabalho de colligir todos os documentos que mostram o direito da, nossa posse ali; as obras de Levingstone e do sr. Lacerda, e o roteiro do sr. Gamito, que fez a viagem de Quilimane com 50 soldados até o Cazembe, locando na Manica e Zumbo, e cujo roteiro offereceu ao sr. marquez de Sá da Bandeira; o tanto o sr. Gamito como Levingstone dão o Cazembe como o meio caminho de Angola, para onde se dirigia Gamito por ordem do governo, o que não póde conseguir por doença dos soldados e outras muitas difficuldades.

Mappas perfeitos não ha nenhuns. O mappa feito pelo sr. marquez de Sá da Bandeira, o de que o sr. Mariano de Carvalho se serviu é tambem imperfeito.

Esse mappa foi feito como eu agora estou fazendo o meu, com o auxilio de sr. Fernando da Costa Leal, á vista de documentos officiaes e informações particulares.

N'esse trabalho do sr. marquez de Sá, de que se serviu o sr. Mariano não póde haver certeza mathematica, porque fez como eu estou fazendo a descripção d'aquelles terrenos, faço-a segundo os documentos officiaes, segundo os escriptos de Sebastião Botelho, de Gamitto, de Levingstone, etc.. e não segundo os estudos e indicações de Cameron e de Stanley, porque esses encaminharam as suas viagens e explarações por outra parte.

Entramos, pois, pelo Zambeze dentro, e passadas 60 leguas chegamos a Sena.

Esta distancia de 60 leguas é a official, porque é em relação a ella que se passam as guias aos militares e é a ella que se referem todos os documentos do governo.

Mais acima do Sena, outras 60 leguas, existe a villa de Tete, é n'esta zona aonde foi feita a concessão.

Vou fallar agora do praso Bolor, aonde existem as minas do carvão de pedra.

Se o governo ou uma companhia qualquer se encarregasse da exploração das minas de carvão de pedra, havia tirar grande resultado, porque tinha um consumo extraordinario e um ponto fatalmente forçado para ali estabelecer o mercado, que era Aden, na bôca do mar Roxo, porque de Moçambique a Zanzibar e a Aden se podia ir a vapor em tres ou quatro dias de viagem.

Se o sr. Paiva de Andrada empregasse todo o seu cuidado e diligencia na exploração d'essas minas, no meu entender, elle ou outro qualquer, poderiam alcançar grandes interesses.

(Interrupção do sr. Mariano de Carvalho sobre o praso Bolor).

V. ex.ª naturalmente funda-se nos mesmos documentos que eu consultei, não podia ter outros.

(Nova interrupção do sr. Mariano de Carvalho que se não percebeu).

Não tem o illustre deputado rasão porque por ora ainda não disse uma só palavra sobre a concessão Paiva de Andrada: logo tratarei d'esse ponto e mostrarei onde ficam os terrenos a que a concessão se refere. E hei do mostrar ao illustre deputado que nem o sr. Sebastião Botelho, nem nas obras do sr. Lacerda, nem nas informações dadas por um naturalista allemão mr. Pitters, que esteve em Moçambique e de quem fui amigo descreveram bem onde fica o Zambo, Cazengo e a Manca.

O sr. Mariano de Carvalho: — Era um simples esclarecimento geographico que eu pretendia obter.

O Orador: — Eu lamento não poder definir bem aposição em que ficam a Zumbo, Cazengo o Manica; sabe-se que no seculo passado a Manica era muito frequentada por