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SESSÃO DE 14 DE MARÇO DE 1885 743

das epidemias, os principes e os generaes que commandavam as forças tinham ao seu lado, ao seu serviço pessoal medicos eminentes, sabios notaveis para o seu tempo, luminares, cujo renome ainda brilha, ou na fama dos seus actos, ou no credito das suas obras, que atravez das idades e apesar das fecundas conquistas do progresso, ainda se impõem é nossa admiração.
Mas vae já decorrido largo estadio desde que tudo mudou, tomando a educação scientifica novos e mais seguros caminhos, e fixando-se é luz da humanidade e até é luz da economia os grandes principios do desvelo e solicitude pela saude e pela vida dos soldados. Concomitantemente as corporações medicas dos exercitos assumiram o levantado e erguido papel que lhes pertencia, e o seu recrutamento começou a ser feito entre a parte selecta dos medicos mais habilitados de cada paiz.
Soou por conseguinte, com o maximo prestigio e a maxima copia de serviços prestados aos belligerantes, a hora da maxima consideração para a medicina castrense.
Assim o comprehendem e assim o praticam todos os exercitos que se reorganisam em bases novas, scientificas, modernas.
Os medicos militares são com effeito uma corporação scientifica, que faz parte integrante dos exercitos e que é n'elles indispensavel, tanto como as outras corporações fardadas.
Nem hoje se coraprehende muito bem a obsoleta distincção entre os officiaes combatentes e não combatentes, que foi, por muito tempo e por motivos que seria longo enumerar aqui, o fulcro sobre que assentaram diversas organisações.
Na feição moderna da guerra, ou todos combatem, ou ninguem combate.
E depois, o que distingue os medicos militares dos officiaes das outras armas scientificas em que se distribue a força armada?
Será a importancia, extensão e dificuldades dos cursos escolares? Mas o dos medicos é tão longo, tão trabalhoso e tão arduo, se não mais, do que o dos officiaes mais largamente habilitados.
Será o exercicio effectivo do cominando? Mas corporações ha e muito distinctas e das mais illustradas, que tão pouco exercem o cominando, se por este exercicio se deve entender o acto de conduzir e guiar é linha de fogo os soldados empenhados na acção; e se o commando representa a superintendencia e direcção dos diversos actos necessarios na guerra, e para a guerra, então, assim como o official de engenheria commanda as companhias de sapadores, pontuneiros, artifices e outras, cuja collaboração é necessaria para o exito da lucta, assim tambem o medico militar exerce, em todos os paizes modernos, e é mister que exerça, o commando das tropas sanitarias, de enfermeiros, maqueiros, conductores de transportes de feridos e doentes e pessoal dos postos de soccorros, das hospitalisações ligeiras e das hospitalisações fixas.
Será a distincção baseada acaso na utilidade e alcance dos serviços prestados? Mas quem, mais que o medico militar, trabalha assidua e constantemente, na paz e na guerra, para a grande obra, em que se empenham as forcas vivas dos exercitos? Vejâmos! Robustece o engenheiro, pelos dictames da sciencia, as fortificações de toda a especie, augmentando as resistencias, abrigando os soldados contra o fogo do inimigo; e, depois de finda a acção, repara com presteza os estragos feitos nas obras materiaes. Pois bem! O medico, dia a dia, cuida em fortalecer, por todos os desvelos da hygiene, o organismo dos soldados, confiados é sua vigilancia, estudando a alimentação que mais lhes convém, o vestuario que lhes é mais apropriado, os aquartellamentos onde uns se não tornem nocivos aos outros, combatendo as mil causas deleterias da atmosphera deprimente das casernas, prevenindo ou contrariando a marcha das epidemias especiaes, alem da grande lucta contra as epidemias geraes; e se, na paz, ensina é poupar as vidas e as forças dos defensores da patria, por fim, terminada a batalha, repara, desvelado, os estragos feitos na muralha humana, n'essa muralha dos peitos dos valentes, que segundo o dizer dos estrategistas, é a mais solida defeza contra a aggressão dos inimigos 5 e se consegue salvar vidas preciosas, como são as de todos os que derramam o seu sangue pela patria, consegue tambem poupar avultados valores, pois que essas vidas, sob o ponto de vista material e economico, representam um avultadissimo capital, que os dietames da prudencia mandam poupar.
Porventura dos medicos militares se distinguirão os outros officiaes pelo privilegio de intervirem no plano da acção?
Diga-o o bom senso e diga-o a historia!
Mal irá aos generaes, se não consultarem os medicos superiores que junto d'elles servem, sobre os promenores desse plano, sobre os meios de evitar funestas influencias climatericas ou o desenvolvimento de mortiferas doenças.
Os annaes dos feitos militares estão cheios de dolorosas narrativas, em que se evidenceiam os deploraveis revezes, soffridos por brilhantes exercitos, só porque o voto dos medicos não foi escutado no delinear do plano de batalha, sendo sobretudo nos longos assedios que este facto se tornou vulgarissimo, por isso que os sitiantes, que por si teriam talvez a victoria, se viram, muitas vezes, forçados a levantar o cerco, cujo exito lhes não parecia militarmente duvidoso, só porque as enfermidades, não previstas, lhes fizeram maior damno do que o fogo dos sitiados, e lhes deixaram mortos no campo, sem gloria, a melhor parte das tropas.
Tambem o medico em chefe não póde ignorar o plano estrategico da acção, porque, a par do movimento das forças que se hão de empenhar n'ella, virá, de necessidade, outro movimento de feridos o doentes, embaraçando o primeiro que, sendo por elle embaraçado, com grave detrimento das operações em qualquer dos casos, se não forem os dois concertados e combinados de antemão entre o chefe de estado maior e o chefe do serviço medico.
Será acaso a bravura individual, emfim, que distinga dos medicos militares os outros officiaes do exercito?
Não! que esta virtude, a primeira das virtudes militares, não póde deixar de ser apanagio commum de todas as corporações fardadas!
E hoje, nas condições da guerra moderna, quando a lucta corpo a corpo, braço a braço é mais do que excepcional, quando os rasgos de valentia pessoal são raros e quasi estereis, quando a sciencia, de mil modos, suppre a força; hoje, que o artilheiro lucta com o adversario a distancias a que não alcança a vista desarmada, que o engenheiro fortifica os pontos inacessiveis é fusilaria inimiga, que o cavalleiro raro se empenha nas cargas, rompendo os quadrados por sobre bayonetas, e que o proprio infante mal distingue ao longe o alvo dos seus tiros e mal é distinguido a distancia pelas pontarias da linha contraria, o medico militar, se está tão arriscado como os seus camaradas no primeiro e ainda no segundo dos postos de soccorros, corre com elles perigos iguaes na linha de fogo, onde, ainda mais do que o exercicio da sua philantropica missão, o chama a necessidade, reconhecida desde os tempos de Napoleão I, do inspirar confiança e alentar a coragem aos soldados.
E se aos perigos da guerra se acrescentarem os da lucta com as epidemias, sempre suas companheiras, e sempre mais mortiferas do que o fogo dos inimigos, a bravura individual do medico, a abnegação com que sacrifica a vida pela causa commum do exercito, não se envergonham, nem empallidecom ao lado das dos seus bravos companheiros de trabalhos e riscos, dos seus gloriosos camaradas de todas as armas. Dil-o a estatistica, tambem gloriosa, do obituario dos medicos, militares em campanha.