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6 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Para completar a commissão de obras publicas nomeio como vogal o sr. Sarrea Prado.

O sr. Alfredo Barjona: - Mando para a mesa a seguinte:

Proposta

Por parte da commissão de obras publicas, tenho a honra de propor que seja aggregado a esta commissão o sr. deputado Diniz Moreira Motta. = Alfredo Barjona.

Foi approvado.

O sr. Visconde de Pindella: - Pedi a palavra para mandar para a mesa duas representações das camaras municipaes dos concelhos de Villa Verde e de Amares, concelhos que formam o circulo que tenho a honra de representar n'esta camara, pedindo desde já a v. exa. que proceda nos termos do regimento, a fim de que sejam publicadas no Diario do governo.

Estas representações pedem a organisação de ordens religiosas para as nossas colonias.

Se bem me recordo, foi v. exa. o primeiro dos srs. deputados que n'esta camara apresentou uma representação igual ás que tenho a honra de mandar para a mesa; e, seguindo o nobre exemplo de v. exa., e de todos os deputados que têem trazido a esta camara representações no mesmo sentido, é meu dever fundamentar estas quanto possa. Não procurarei fazel-o com eloquencia. As minhas palavras serão apenas sinceras, e terão o valor que lhes dará a logica da minha opinião compromettida de ha muito sobre a materia.

Vivi dois annos no ultramar, aonde estive á frente da administração de uma provincia, da provincia de S. Thomé e Principe, aonde deixei de mim, pelos meus actos, memoria limpa, (Apoiados.) e de onde trouxe saudades, porque se não sabe nem podem esquecer os logares em que se trabalhou honradamente. (Apoiados.) Alem da tranquillidade da minha consciencia e das gratas recordações que conservo, trouxe de Africa um livro. O meu livro, hoje justamente esquecido, não deixou de produzir um certo acontecimento, por sobre elle ter recaído a critica de alguns publicistas distinctos, quando vae em dez annos o publiquei.

Esse livro, que tantas vezes n'esta camara o sr. Pinheiro Chagas, então ministro da marinha, citou, e muitas vezes a elle recorreu para defender actos seus, esse livro tem um capitulo consagrado á educação e ao ensino nas colonias portuguezas.

Honro-me com ter visto, sr. presidente, pôr em pratica algumas das idéas expostas no meu livro; aproveitarem d'elle governos e governadores indicações e bases de reformas sobre differentes pontos de administração; mas não vi adoptar nada do que escrevi em relação á educação e ao ensino no ultramar.

Vem isto a proposito para mostrar como penso sobre o assumpto das representações, e como, e de que modo, estão compromettidas as minhas opiniões.

Para mim, o problema do ensino e da educação moral dos habitantes das nossas colonias, deve fazer-se consoante se tratar de logares onde temos administração assente em bases definidas e elemento europeu fixo; ou de logares onde o elemento europeu falte e nosso dominio não esteja caracterisado pela occupação que deriva da colonisação europea tal como nós a fazemos. Assim nas cidades precisâmos de collegios com internato e escolas de officios em mais larga escala; no interior bastam-nos pequenas estações civilisadoras, verdadeiros postos scientificos e politicos de caracter permanente, que pela religião e pelo trabalho agricola moralisem os indigenas.

Ora, esta educação moral e esta instrucção pratica só se póde conseguir por meio de padres e de padres de ordens regulares. (Apoiados.)

Quando, sr. presidente, expuz mais largamente este modo de pensar não pedi, é certo, a organisação das ordens religiosas, porque então seria um tal pedido um atrevimento. Não tive, talvez, a necessaria coragem de levar tão longe o meu pensamento, mas da convicção que tinha que só com o clero se póde educar e ensinar na Africa, é prova sufficiente o que fiz como governador, entregando aos padres de Sernache todo o ensino elementar nas ilhas de S. Thomé e Príncipe. Os padres de Sernache eram o melhor elemento de que podia dispor, embora o tempo me mostrasse que em geral elles eram insuficientes em numero e qualidade. Em muitos encontrei excellente boa vontade. A boa vontade nem sempre, porem, satisfaz. E porque me faltava pessoal e meios cheguei a propor ao governo o estabelecimento na ilha de S. Thomé de duas casas de educação e ensino profissional sob a direcção da congregação franceza do Espirito Santo. Fiz esta proposta sr. presidente, porque sabia que no Gabão havia duas casas d'essa ordem, funccionando com resultado, sob todo o ponto de vista excellente, com tão grande nomeada que alguns dos naturaes de S. Thomé, mandavam educar os filhos á colonia franceza do Gabão nos collegios dos dois sexos que ali tem a referida congregação. Não me amedrontou a idéa de trazer para S. Thomé uma ordem religiosa estrangeira, porque as condições especiaes da colonia que governava, pelo facto de se tratar de duas ilhas ha seculos occupadas e colonisadas por nós, não eram de molde a receiar perigo algum proveniente do estabelecimento de uma congregação estrangeira. Entendi que os missionarios francezes do Espirito Santo podiam vir para S. Thomé, visto que no meu entender de então nós não organisariamos nunca congregações religiosas de caracter nacional, e sem ellas nada fariamos de valor. Fazendo a proposta que fiz ou não generalisava por fórma alguma a idéa de chamar para a nossa Africa continental, e sobre tudo para o interior, frades estrangeiros. Fique isto assente claramente porque eu sou dos que querem frades portuguezes para o ultramar. (Apoiados.)

Como disse, sr. presidente, não me attrevi ha dez annos a pedir o estabelecimento de congregações religiosas para o ultramar.

Mas hoje, decorridos sessenta annos depois da revolução liberal; hoje, que o bom senso começa a fazer-se sobre a forma porque se deve comprehender e observar os bons principios d'essa revolução; hoje, que o paiz se começa a libertar de preoccupações jacobinas, é dever pensar e fallar por fórma differente. É facto que então já se desenhava no horisonte, se não para todos, para muitos aquella questão do Zaire, que havia de ser o começo de todas as nossas questões africanas que nos haviam de levar ao desastre de 1890, e, dar subsidio aos Padres Brancos, frades estrangeiros na nossa costa oriental. Não soubemos tirar todo o ensinamento que era mister tirar do que nos succedeu com a questão do Zaire, que podia e devia ser para nós uma larga lição de muito proveito, tornando-nos cautelosos e aprendendo a pôr em pratica os meios de propaganda de que as outras nações lançam mão.

O tempo foi caminhando, o bom senso do paiz tem igualmente caminhado; a experiencia tem presistentemente influido sobre nós de fórma que muitos dos governadores e altos funccionarios que, posteriormente á minha estada em Africa, ali têem ido, proclamam hoje abertamente, e sem receios, a necessidade de fundar ordens religiosas para o ultramar. Entre os que pedem a organisação de congregações religiosas para a Africa, basta-me citar o sr. Dantas Baracho, com cuja amisade me honro, por ter sido s. exa. o primeiro que aqui n'esta camara e no começo d'esta sessão levantou nobilissimamente esta questão. (Apoiados.)
S. exa. referiu-se ao seu relatorio que, sem duvida ha de ser sobre todos os pontos de vista muitissimo importante, relatorio que eu desejaria muito ver publicado, e cuja publicação não peço desde já officialmente, porque o sr. Dantas Baracho ha poucos dias me disse que tencio-