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beranos, e ao mais Magnanimo de nossos Reis, o Senhor D. Pedro IV: com tudo, eu me levanto para sustentar o Parecer da Commissão, a que tenho a honra de pertencer. A Commissão, Sr. Presidente, estava plenamente possuida dos mesmos sentimentos do Sr. Deputado de Tras os Montes, e do Sr. Deputado do Alem-Tejo; mas julgou que aquelle Monarcha Egregio, que tão generosamente nos restituio nossas antigas Liberdades, merecia mais que os Heroes ordinarios, a quem se tem erguido Estatuas: estas honras são mui triviaes; tem sido conferidas aos Pais dos Povos, e aos seus Tyrannos: por conseguinte o Sr. D. Pedro IV devia ser distinguido; e que Monumento melhor, que a magestosa Obra do projectado Canal?

As Estatuas são vistas com indifferença pelos homens; um terremoto as lança por terra, e apparecem ás vezes Coligulas, que lhes cortão a cabeça para lhe substituir o seu busto; mas as Obras magnificas dos Canaes de Navegação affrontão os Seculos, e fazem que a todo o momento se abençoem aquelles, que lhe derão origem. Sesostris he mais conhecido, ou, pelo menos, mais estimado pelos menos Canaes, que mandou abrir no Egypto, do que por levar atados ao carro do seu triunfo os Reis vencidos. Maris não lembraria já, se não fosse o Canal, e o Lago, que lhe perpetua e o nome. Ornar em fim seria recordado com o maior horror pelo estrago da Livraria dos Ptolomeos, e pelos diluvios da sangue, com que banhou a terra, senão tivesse mandado abrir o famoso Canal, que unio o Mar Mediterraneo com o Mar Vermelho.

o mesmo projectado Canal, que lembrou a Commissão, se deve erguer um Padrão, um que se grave o nome do nosso Tilo; e me persuado que he melhor vir o Oceano todos os dias banhar-lhe a base, do que collocar a sua Estatua no estreito recinto de uma Praça.

Alem disso as vantagens, que esta Obra traz á Agricultura do Alemtejo, e ao Commercio desta Capital, me fazem persuadir que nada pode haver, que mais lisongêe a Alma Generosa do mais excellente dos Principes: por tanto julgo que a Commissão deliberou com muito acerto, e que o Parecer deve ser approvado.

O Sr. Moraes Sarmento: - Sr. Presidente, apresento a Emenda ao Parecer da Commissão, e he a seguinte: = Proponho que se levante uma Estatua á Magestade do Senhor D. Pedro IV, feita por subscripção voluntaria, aberta perante as Camaras do Reino, e remettida á Camara de Lisboa; supprindo-se pelo Thesouro Publico aquillo, que faltar, para se ultimar aquelle Monumento. O Governo ficará encarregado da Direcção da Empreza, e da escolha do Local. = Seja-me permittido accrescentar algumas reflexoes, para de alguma maneira responder ás duvidas propostas por um Sr. Deputado, contra o meu Parecer. Reconheço que tenho a combater um Antagonista de muita eloquencia, e saber. São dous os principaes argumentos, segundo pude perceber. Em quanto á primeira parte, nunca me podia passar pela imaginação, por maior, que fosse o meu enthusiasmo, e menor a minha capacidade, que eu pertendesse que o Monumento podesse desafiar as calamidades, que tem affligido a terra, e zombado de toda a força humana; apenas as Pyramides do Egypto existem, e tem suas cabeças levantadas sobre o grande numero de Seculos que tem derrubado outros muitos Monumentos levantados pelos homens.
Roma, a Cidade eterna, tem os seus Monumentos dos dias gloriosos uns despedaçados, outros desapparecidos; e aos mesmos investigadores de suas antiguidades tem apparecido duvidas sobre duvidas para se assignalarem as Localidades correspondentes hoje a certas situações, que tanta celebridade derão áquella tão distincta Cidade. Quem poderá luctar com o tempo? Ha outra objecção, e vem a ser, que O Senhor D. Pedro IV seria quem havia de rejeitar o Monumento, que se lhe pertende levantar. A immortalidade do Nome do Senhor D. Pedro IV já está decretada por elle mesmo, quando nos dêo a Carta; e ninguem proporia que se consultasse ElRei sobre este negocio. Sem ter alcançado a gloria, a que chegou ElRei, já houve um Principe, Ramo da mesma Real Casa de Sua Magestade, o Duque de Coimbra, a quem o Povo de Lisboa pertendêo levantar uma Estatua; e a unica opposição, que achou, foi a vontade do mesmo Principe. Tudo o que o Illustre Deputado disse me parecêo muito bem em theoria; porem os homens governão-se por cousas sensiveis. Que dirá do nosso esquecimento o peregrinante, que desembarcando em Lisboa, e vendo o bello Monumento alevantado ao novo Ulisses por ter novamente edificado a Cidade, e experimentando uma notavel mudança, causada por uma novo administração de cousas; vendo as rumas de Lisboa desapparecer, as estradas abertas, a segurança publica mantida, a riqueza, e commodidade espalhada por muitos, e a satisfação reinando em todas as Classes; aonde encontrará elle um signal publico de reconhecimento perpetuado ao grande Rei, Auctor de tantos Bens? Alem do que, Srs., he incalculavel a força moral de semelhantes Institutos, bem como a influencia moral rias gerações vindouras, porque he forçoso confessar que para ellas estão destinados os fructos da arvore, que nós plantámos, e he aqui que se realisa em toda a sua extensão o dicto de um antigo Poeta citado por Cicero no seu Tractado de Senectute;

Serit arbore, qua alteri soeculo prosint.

Aquelles de nós outros, que chegarmos a certa idade, em que apenas consigâmos o cheiro das flores da arvore, que plantámos, não leremos conseguido pequena vida: os fructos estão reservados para a seguinte geração. Porem estas reflexões não devem enfraquecer o nosso trabalho. Devemos deixar aos nossos vindouros um Monumento de Gratidão a El Rei. Na sua Estatua deve apparecer o mesmo, de que se fez allusão ao Senhor D. José I, vencendo dificuldades, a obstaculos: o cavallo, em que estiver montado o Senhor D. Pedro IV, deve calcar as serpentes, que novamente apparecêrão, para empecer os progressos das suas vistas liberaes.

O Sr. L. T. Cabral: - Nem a eloquência reunida do todos os grandes Oradores bastaria para fazer ao Sr. D. Pedro IV um digno elogio, nem todo o Marmore, e Bronze da Europa ser tão sufficientes para lhe erigir um Monumento, que correspondesse á grandeza do beneficio por elle feito á Nação Portugueza. E sendo assim, que pode esta Nação fazer nas Circumstancias mesquinhas em que se acha? O Sr. D. Pedro IV levantou a si mesmo neste pequeno Livro (a Carta) um Padrão, que levará seu Nome ás