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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
O que poderemos fazer então? O que ê indispensavel fazer para que as colonias possam prosperar?
E já que estamos tratando da questão colonial, a camara desculpar-me-ia de eu tocar n'um assumpto que tem relação com ella.
Eu não acredito nas colonias artificiaes, n'aquellas que se afazem em virtude de concessões de favores, e de premios que -se dão áquelles que para lá vão exploral-as. (Apoiados.)
Creio na emigração espontanea que nasce da liberdade do homem, que vae procurar onde lhe convem o terreno pára estabelecer o seu trabalho e a, sua familia. N'essa é que eu creio, e é a que se faz para o Brazil.
A emigração para o Brazil, podem fazer o que quizerem, não se evita. Talvez não devesse dizer isto perante os poderes publicos do meu paiz, mas costumo dizer sempre a verdade. E, mesmo de nada servia, evital-a.
Essa emigração, se por um lado nos cerceia os braços á agricultura, por outro lado traz-nos capitães para desenvolver o trabalho nacional. (Apoiados.)
Agora mesmo estamos luctando com uma crise que em parte é devida á falta de possibilidade que têem os capitães do Brazil de virem para Portugal..
Não acredito senão n'estas colonias.
Mas o governo tem de fazer alguma cousa. Não podemos cruzar os braços; não podemos limitar-nos a dizer: venham as companhias, e ahi tendes as concessões. Dá cá, toma lá, não basta. O governo tom de fazer alguma cousa maia.
O governo tem, primeiro do que tudo, do dar segurança individual áquelles que forem para as colonias; (Apoiados.) tem de lhes garantir a boa e recta; administração da justiça, tem de organisar a força publica para os livrar das Correrias e das aggressões dos selvagens, tem n’uma palavra de satisfazer a todas as necessidades a que uma companhia, e muito" mais um particular, não póde satisfazer.
(Apoiados.)
Quando ha annos o, governo francez tomou posse da Algéria, procurou organisar ali colonias poderosas que satisfizessem ao seu duplo desejo.
O governo francez tinha determinado fazer da Algéria uma escola militar de gente aguerrida, porque a França é uma nação guerreira; tem muitas vezes de pôr a sua espada na balança dos destinos europeus, e por isso precisa de soldados promptos e de generaes instruídos; o governo francez, digo, tinha determinado fazer da Algéria uma escola guerreira, de praticas militares, e, alem d'isso, queria fazer outra, cousa, queria fazer ali colonias agricolas.
Foz todos os esforços para levar os colonos para lá; fez tudo quanto podia fazer. Instituiu premios, concedeu recompensas, mandou com licença soldados que faziam parte do exercito, dando-lhos terrenos para elles cultivarem, para elles desenvolverem a sua actividade...
Pois a par d'isto havia na Algéria umas colonias, as colonias mahonenses, que eram compostas quasi exclusivamente de gente das ilhas Baleares, que emigrava espontaneamente para ali, não sei por que condições das Baleares.
Não posso estar a discutir e a apreciar quaes eram as condições d’aquellas ilhas, mas, fosse qual fosse a rasão, aquella gente emigrava espontaneamente para a Algéria, e essas, colonias, para onde ninguem mandava colonos, que ninguem aconselhava, que ninguem recompensava para irem para aquella, terra, eram as que podiam servir de typo ás outras.
Tudo isto digo para provar que a colonisação organisada em virtude, do circumstancias artificiaes, nunca póde dar o resultado que nós desejámos.
Por consequencia, o que é preciso fazer?.
É preciso fazer estradas; (Apoiados.) é: preciso fazer caminhos de ferro, quando se poder, e como se poder (Apoiados.)
N'estas cousas nós temos difficuldades, mesmo no reino, e, portanto mais as devemos ter nas colonias; mas é preciso entrar n'este caminho, e seguil-o implacavelmente, (Apoiados.) para chegarmos ao resultado que queremos.
E preciso tratar da segurança, como disse, occupando diversos pontos estratégicos onde as nossas forças, ainda que pequenas, possam defender-se eficazmente de gentio numeroso e aguerrido, no sentido de defender tambem ás plantações dos colonos. (Apoiados.)
É preciso termos marinha, (Apoiados.) que nos dê força nas margens dos rios, e nas costas e portos, das differentes provincias ultramarinas; marinha, que é a principal força nas colonias e que é ali do immensa utilidade, porque se transporia facilmente e leva de um a outro ponto a força e a auctoridade, o que ainda é milito entre povos d'aquella natureza, entre povos barbaros e atrazadissimos; e com ella se póde impor a nossa vontade e o nosso direito.
E preciso fazer tudo isto e, quando tivermos feito tudo isto, teremos bem merecido da patria e teremos concorrido para o seu desenvolvimento. (Apoiados.)
Nós luctâmos ainda com os resultados de uma situação que não creámos, de uma situação que herdámos dos nossos maiores.
E não condemnemos aqui os nossos maiores, porque os nossos maiores eram tão patriotas como nós, somos, o sabiam tão bem quaes eram os seus interesses, como nós sabemos quaes são os nossos.
Mas n'aquelle tempo acontecia o que nos acontece a nós, aquillo de que, havemos de ser accusados d'aqui a cem ou duzentos annos. Respirava-se uma atmosphera em que se era, levado a praticar certos principios que se reputavam soberanos e que faziam da administração das colonias unia cousa que hoje, ninguem faz ou ninguem adopta;
D'aqui nasceu o trafico da escravatura que foi aqui tão bem descripto pelo sr. visconde da Arriaga, trafico que aniquilava e destruia completamente a força das colonias.
Eu estive na Africa, havia ainda o trafico da escravatura, e digo que hoje elle seria ainda grande, e que nem com todas as esquadras da Inglaterra, nem com, as nossas pequenas forças se acabaria, se houvesse ainda mercado para os negros. O que acabou com a escravatura foi a impossibilidade de vender os negros, porque uma só carregação a salvo, dava para dez carregações perdidas. (Apoiados.). Quando se comprava por 20$000 réis um escravo que se vendia por 1:000$000 réis, o que se ía vender ao Brazil ou a Havana, vejam quantas carregações se podiam perder para ainda se ganharem sommas fabulosas! Então todo o commercio licito era impossivel. (Apoiados.)
E aqui presto homenagem ao homem illustre que tomou em mão esta questão; fallo do sr. marquez de Sá da Bandeira. (Apoiados.) De nós, não quero dizer nada, mas todos sabem que faz parte d'este gabinete um cavalheiro que póde conseguir o resultado final d'esta questão (Apoiados.) e que este acto da sua vida publica ha de ficar ligado ao sou nome para o futuro com honra. (Apoiados.)
Não. quero fallar n'isso; fallo do sr. marquez de Sá, o fallaria d'elle do mesmo modo se estivesse aqui presente, porque nunca neguei os grandes serviços por elle prestados n'esta questão o porque era um homem de coração, um homem incapaz de se torcer ou vergar; quando entendia que estavam do seu lado a justiça e a rasão. (Apoiados.)
Esse homem do quem tive sempre a honra de ser amigo e cuja amisade ou tinha herdado dos meus maiores, tomou a questão da escravatura em mão o fez grandes serviços ao seu paiz.
Quando se entrava n'uma colonia e se via que ella existia no mesmo estado era que ha trezentos annos se encontrava, fazia doer o coração reconhecer que não haviamos podido andar um passo. Era a questão dá escravatura. Nem era a, exiguidade dos nossos recursos, nem a pequenez do nosso territorio, tudo isto alguma, cousa; mas o