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4 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

patria, da patria, sr. presidente, que é a nossa mãe: que é a terra sagrada, de onde nos vem o sangue que gira nas nossas veias; que é o logar que guarda nossas primeiras illusões, onde desapparece o ultimo suspiro saído do nosso peito; o templo onde se perdeu a primeira oração saída das nossas almas; da patria, cuja historia é a nossa historia; cujas dores são as nossas dores; cuja riqueza é a nossa riqueza; cuja honra e gloria é a nossa honra e a nossa gloria; da patria, cujo solo está cheio de sangue dos nossos progenitores; da patria, emfim, onde nós derramamos a ultima e a mais santa de todas as lagrimas ao fugirmos para sempre da presença das nossas familias. (Vozes: - Muito bem.)

Eu sei bem que muitos dos que me ouvem hão do acoimar-me de reaccionario e de ultramontano. Sei tambem que outros me darão qualquer qualificativo. Mas de nada d'isso me arreceio nem melindro. Sou apenas um simples padre, com profundas crenças arreigadas no meu peito e que trabalho por fazer realisar a harmonia que pôóde existe entre os principios da igreja e os verdadeiros principios liberaes.

Obedeço apenas a uma idéa que a minha consciencia me dicta, e nada tenho com o juizo que qualquer, seja quem for, possa de mim formar.

Hei de expor as minhas idéas como entendo, porque não me envergonho de dizer o que sinto, e não é crime fazel-o, nem diante de Deus, nem diante dos homens. (Apoiados.)

Porque disse e affirmo que hei de dizer o que sinto, exponho francamente á camará que desejo o restabelecimento das ordens religiosas no ultramar, porque o clero colonial não satisfaz ás necessidades impreteriveis que ali existem. (Apoiados.)

Nós não temos, nem os governos os concedem, os meios indispensaveis para crear missionarios á altura e com o conhecimento pratico das missões modernas.

O zeloso director do seminario de Sernache do Bomjardim emprega todos os seus esforços para que os governos lhe acudam com os meios indispensaveis á organisação conveniente e modernamente exigida para os missionarios africanos; mas póde constituir a sua residencia nas proprias secretarias d'estado que nem por isso conseguirá ser attendida pelos srs. ministros esta necessidade.

Os missionarios portuguezes estão n'uma situação verdadeiramente lastimosa. Não têem nem liberdade nem auctoridade, estão subordinados a um poder que lhes tira todos os elementos da verdadeira vida apostolica.

Não têem liberdade nem auctoridade, e estes dois elementos são indispensaveis para a verdadeira missão.

Affirmo mais, sr. presidente, que em parte alguma a igreja precisa do ser mais seriamente, mais severamente, e mais energicamente governada do que nas nossas possessões ultramarinas, onde a mistura das raças, os inconvenientes dos climas, e os antecedentes da vida social são taes, que se o missionario não tiver inteira auctoridade e liberdade em toda a sua plenitude não produzirá bons resultados a sua missão.

Como havemos de obter que estes resultados sejam efficazes, sejam proveitosos e satisfactorios em relação ao que indica, e que reclama a ida dos missionarios para as provincias ultramarinas? Na minha opinião obtem-se isto com o restabelecimento das congregações religiosas, que constatam a sua efficacia nos resultados materiaes, em construcções, em estabelecimentos, nas escolas e na regeneração moral tão indispensavel á verdadeira civilisação nas colonias, e no nosso dominio de alem mar.

No mundo inteiro não ha população, que mais disposta esteja a receber as impressões religiosas, como a negra, nenhuma mais prompta a obedecer á acção bem disciplinada da igreja catholica do que a população de alem mar.

E por isso que os inglezes, que são praticos, que encaram e protegem as cousas coloniaes com o zêlo que todos nós infelizmente lhes conhecemos, nos foram obrigando, no ultimo e. celebre convenio approvado, a que lhes garantissemos a liberdade de cultos; e, aproveitando-se d'esta garantia, elles auferem da missão ingleza largamente remunerada todos os resultados que fazem inveja a nós outros, inclinando o indigena á sua amisade e ao seu nome. (Apoiados.)

Eu lamento que estes factos se dêem por esta fórma; mas não lamento menos que nós nos não despreoccupemos de uns certos principios, de um certo jacobinismo, permitta-se-me a phrase, o qual eu considero n'esta parte como inimigo do paiz, dando inteira liberdade de associação á igreja, como a têem as differentes classes da sociedade.

Pois que?! Que liberdade é esta, digo francamente, que restringe, que muitas vezes supprime um dos elementos mais fundamentaes, mais essenciaes d'esse bello principio, a tolerancia?!

Em nome da religião e da liberdade eu defendo e quero, como o paiz, a liberdade da associação religiosa.

Que liberdade é esta que se arreceia de alguns homens sujeitos, como todos os portuguezes, ás leis geraes do paiz, e portanto ao codigo penal?!

As nações mais civilisadas da Europa e fóra d'ella, não se arreceiam, nem têem medo nem do breviario nem da cruz, antes a desejam e a querem. (Apoiados.)
As nações civilisadas da Europa e fóra d'ella querem as associações religiosas, querem, como eu, que a liberdade não seja uma chimera, nem uma mentira, mas que ella seja real e proficua. Para que havemos de dar esto triste exemplo de incoherencia com os bons principios liberaes?

A satisfação d'esta necessidade é um direito inseparavel das differentes classes sociaes, que se regem por uma constituição liberal.

Eu, defendendo o restabelecimento das ordens religiosas no ultramar, note-se bem, tenho para mim, á vista do estudo da historia, que ellas encheram o mundo de trabalhos seus proprios, prestaram-lhe assignados serviços, conservaram o deposito e a tradição das sciencias, ou manuscriptos de litteraturas, as cartas e os monumentos da nossa historia patria, e produziram e conservaram todos esses elementos de cultura intellectual, de que hoje muitos abusam para as combater, e aonde vão buscar armas para as aggredir.

Sr. presidente, os frades cultivaram, sem excepção, todas as artes, e a levantaram em toda a parte, onde se encontraram, monumentos gigantes, cujas ruinas, e só ruinas, ainda hoje assombram e espantam e surprehendem os intrepidos viajantes que por ali passam.

Entre outras paragens, refiro-me especialmente ao Congo, que bem attesta o quanto valem e podem as ordens religiosas em alem mar.

E, sr. presidente, não se fazia isto pelo temor; tudo isto se fazia pela liberdade, tudo isto se fazia pelo amor da patria.

Havia um unico processo, que era a obediência; havia um unico principio, que era a abnegação de si mesmo, havia ainda um unico fim, era o amor da fé religiosa, que é a base da paz e da ordem, e ainda o desejo espiritual da salvação das almas.

Eu bem sei, sr. presidente, e digo-o francamente, bem sei, que na sua historia ha faltas e degenerações.

Mas aonde lia instituição humana que esteja ao abrigo d'essas faltas e d'essas
degenerações?

Uma Voz:- Degenerações divinas.

O Orador:- Divinas... o que é divino é perfeito. Sabe-o o illustre deputado. Passemos adiante. A origem das ordens religiosas discute-se nas academias, e não n'esta assembléa politica.

O sr. Simões Ferreira: - Será bom dizer que Deus não tem nada com os frades.

O Orador:- Discutiremos, quando quizer, e ha de encontrar-nos por nossa parte promptos para defendermos os nossos principios, mas serena e liberrimamente, mas sem paixão, como parece, haver no illustre deputado.