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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
Ali procedeu-se regularmente ao acto eleitoral. As accusações de que o candidato governamental ameaçara os eleitores o do que o candidato governamental concorrera por todos os modos para se augmentar a votação em seu favor, são accusações graciosas, sem fundamento, sem credito, destituidas completamento do fé.
O sr. João Gallas, candidato da opposição, candidato do partido progressista, andou passeando por todas as freguezias de dia e do noite, som que ninguem o ferisse, sem que ninguem o offendesse e ainda bojo s. ex.ª passa de perfeita saude. Não teve o minimo desastre, não soffreu outro desgosto senão o de perder a sua candidatura.
Houve algumas desordens, mas antes da eleição: talvez um mez antes.
Em uma feira de Carrazeda deram-se vivas aos penicheiros, assim intitulados os influentes da opposição, o morras aos amigos do governo e aos amigos da auctoridade local.
Houve o que n'estas conjuncturas costuma haver e o que não deve estranhar-se. O candidato governamental compareceu e em vez do augmentar a desordem, em vez de concorrer para os animos se exaltarem, elle acudiu com prudencia e mereceu até por essa occasião os agradecimentos do proprio candidato progressista.
Tambem referirei que na romaria de Santa Eufemia, antes uns vinte dias do acto eleitoral, houve principios de desordem. O administrador compareceu e conseguiu manter o socego. Não consta que nenhum dos eleitores deixasse do votar porque a isso foi violentado por estes motivos. (Apoiados.)
Emquanto aos protestos, darei tambem á camara as minhas explicações.
No concelho de Carrazeda ha differentes terrenos baldios entregues á posse o goso do povo. Constou que estes terrenos seriam vendidos e o povo desapossado d'elles. Grande descontentamento.
O sr. Gallas contentou-os com a lembrança de assignarem uma representação, dirigida ao governo, no sentido de continuar o povo na posso e uso dos mesmos terrenos. A maior parte dos individuos assignou esse documento, mas assignou-o na idéa de que não era um protesto contra a eleição, e simplesmente uma representação em que se pedia ao governo se lhes mandasse entregar os terrenos de que estavam de posse o goso desde muito tempo.
Alguns individuos declararam que não votaram, que não appareceram ao acto eleitoral e que protestavam contra as descargas postas adiante dos seus nomes. Eu não sei bem se elles votaram ou não.
Mas, o que se póde assegurar é que alguns pernoitaram em Carrazeda na vespera da eleição, com o fim de votar, e outros, que dizem que foram descarregados não tendo votado, esses, como se averigua confrontando-se os cadernos do recenseamento, não votaram, nem foram descarregados.
Ahi está o que se passou nas duas assembléas do Carrazeda do Anciães e do Castanheiro.
O acto eleitoral correu com mais ou menos regularidade. Votou quem quiz e deixou de votar quem não quiz votar. Violencias não houve.
Se houve ameaças, ferimentos, coacção, foram de uma maneira tão pouco pronunciada e de tal modo invisível, que não ha noticia que possa merecer grande credito.
Vejamos tambem o que se passou em Moncorvo.
Em Moncorvo não houve reclamações, porque ficou satisfeita a vaidade do candidato opposicionista em alcançar o subido numero do votos que alcançou. Mas segue-se que tudo correu louvavelmente?
Pois fique sabendo a camara que foi o concelho onde formigaram mais desordens e mais irregularidades. Essas desordens não constam, por uma simples rasão: porque eram muito favoraveis aos elementos adversos ao governo.
Em Moncorvo houve bastantes conflictos, mas como o candidato da opposição alcançou maior numero de votos em relação ao candidato governamental, esses conflictos não tiveram importancia, não merecem critica, não são dignos de analyse!
Eu vou citar mais alguma cousa.
O sr. Gallas, candidato opposicionista, para alcançar o numero de votos que obteve, afiançou que o governo cairia dentro em pouco tempo, e que vencendo elle a eleição, os judeus seriam saqueados e expulsos da sua terra.
Aquella terra é um pouco differente das mais. Ali ha os chamados christãos novos e os christãos velhos. Os christãos novos são os principaes donos das differentes propriedades rusticas ou urbanas, e os christãos velhos são a massa fluctuante, os empregados publicos, os jornaleiros o os advogados, os que tratam de expoliar a riqueza dos christãos novos.
No dia 20 de outubro apuraram-se os votos, resultando passar-se o diploma ao candidato eleito, o sr. dr. Cazimiro Antonio Ribeiro da Silva, em consequencia de ter alcançado maioria de votos.
Lacraram-se as actas e mais papeis para serem remettidos ao ministerio do reino, e em seguida foram esses documentos lançados no correio.
Como o sr. João Gallas tinha a eleição perdida, e não havia outro recurso se não apellar para o juiz para suspender a remessa dos papeis, assim se fez a titulo do que elles tinham sido falsificados.
O juiz deferiu e intimou o director do correio para apresentar os papeis.
O director do correio obedeceu á intimação do juiz, e os papeis foram entregues a tres peritos, mas durante dois ou tres dias não houve noticia alguma d'elles.
Diligentemente o director do correio de Moncorvo pediu providencias ao sr. Guilhermino de Barros, dignissimo director geral dos correios e funccionario muito respeitavel pelo seu caracter, pela sua intelligencia e pelas condições moraes que tanto o nobilitam. (Apoiados.)
O sr. Guilhermino de Barros creio que se entendeu com o governo, e as providencias foram dadas tão promptamente, que em breve os papeis seguiam o seu destino para Lisboa.
Relembrarei igualmente a questão das descargas dos mortos. As descargas dos mortos póde dar-se.
Quando não ha opposição ninguem trata de convidar os eleitores para frequentarem a uma e os membros da mesa ou os eleitores que se reunem encarregam-se de fazer as descargas sem saberem muitas vezes quem descarregam.
Comtudo em Carrazeda de Anciães não se deu essa circumstancia.
A votação foi real, e creio que se apparece. um certo numero de criminosos e de mortos descarregados, é isso mais devido ás alterações que se fizeram nas actas por parto dos individuos da parcialidade do sr. Dias Gallas, do que a irregularidades durante o acto eleitoral.
Não havia necessidade nenhuma de inutilisar a rubrica de individuos que podiam legalmente votar para a substituir pela de individuos que não podiam ir á eleição.
Esse trabalho era, alem de pouco limpo, desnecessario.
A descarga dos mortos é effectivamente um acto irregular; mas não é novo, tem-se dado muitas vezes, e eu, para o defender careço apenas de pedir que sejamos coherentes. (Apoiados.)
Aqui está, sr. presidente, como se passou o acto eleitoral no circulo de Moncorvo. Tem alguns vicios e algumas irregularidades, mas não em tal abundancia, não do tal ordem nem tão illegaes como asseverou o illustre deputado o sr. Luciano de Castro. (Apoiados)
Mas dar-se-íam todas essas irregularidades que alteram a essencia da eleição, que podem alterar a expressão regular da uma e influir no resultado eleitoral? Não se deram (Apoiados) Se nós eliminarmos a circumstancia dos tiros,