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6 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Como estou com a palavra, direi alguma cousa sobre esto importantisimo assumpto, que é certamente um dos que mais podem influir nos destinos da patria, e que portanto mais merece a attenção e o estudo d'esta casa do parlamento.

Sr. presidente, pelas representações que cá têem vindo, pelas que estão chegando e ainda pelas mais, que certamente serão presentes ás duas casas do parlamento, mesmo na actual sessão legislativa, póde-se fazer conceito do que se pensa, no presente momento historico, na quasi totalidade do paiz, a respeito das missões pelos frades no nosso vastíssimo imperio colonial.

Estou convencido de que a idéa que mais preoccupa presentemente o espirito popular, e mais forte e docemente accorda no coração do povo os echos, abençoados e queridos, da regeneração e engrandecimento da patria, é a das missões no ultramar, pelos meios a que acabo de me referir (Apoiados.)

Eu, sr. presidente, tambem sou dos que ainda crêem na regeneração da nossa patria e do velho Portugal, pelo antigo e sempre novo catholicismo.
Portugal, que deu leis e deu luzes ao Oriente; que restituiu á geographia muitas terras perdidas na Europa, na Asia, na Africa, na America e na Oceania; que deu professores ás universidades estrangeiras, e mandou mais de um seu filho a assentar-se na cadeira augusta de S. Pedro, enchendo o mundo da fama de seus nobres feitos, e collocando-se á frente da civilisação europeia, tambem deu cidadãos ao ceu e encheu o florilegio das maravilhas christãs de muitos santos, muitos martyres e muitos confessores.

Ditosos tempos!

É que a cruz levada por elle ao extremo oriente, o imperio do Evangelho acrescentado e dilatado illimitadamente, apesar dos mil obstaculos que o rancor dos homens e a natureza lhe oppunhara, era como uma oração continua que incessantemente convidava a exercer-se a bondade divina, cujas manifestações se tornavam bem claras e visiveis.

E assim, aquella madrugada da sua vida alvorecia risonha e opulenta de galas, como estas manhãs de primavera que se gosam debaixo do seu declima, onde a pureza e o azul dos céus, as flores e os perfumes da terra, e os halitos fresquissimos dos adormecidos mares parecem entrar em competencia de formosura.
Portugal era então uma grande potencia, e o mundo temia-o e respeitava-o.

Todo esse grande poder desabou.

Não admira. O tempo e os seculos são os maiores inimigos de toda a grandeza humana. Grandes foram os assyrios, os medos, os babylonios, os gregos e os romanos; e todavia o que resta de todos elles?

Mas Portugal ainda vive, e felizmente com meios e forças para continuar a desempenhar com honra e dignidade a missão de que a Providencia o encarregou, e de cuja execução são solida garantia a sua excepcionalmente bella e vantajosa posição geographica no continente, a indole e genio de seus filhos, as suas gloriosissimas tradições, as suas, umas poucas de vezes, seculares e profundas crenças catholicas, e os larguissimos dominios ultramarinos que ainda lhe restam do seu vastíssimo imperio colonial. (Apoiados.)

E eu entendo, sr. presidente, que o unico meio de sustentarmos, desenvolvermos, civilisarmos e tirarmos honra e proveito das nossas colonias, é a nossa influencia moral e religiosa sobre o indigena, que será de quem o tratar melhor, maior bem lhe faça o mais lhe ganhar o coração; e que uma tal influencia só a podemos obter por intervenção da missão evangelica exercida pelo frade catholico, nacional, creado, educado, instruido, disciplinado e sujeito ás regras do instituto monastico, sem exclusão do trabalho do frade estrangeiro, que deverá ser tanto mais protegido quanto mais se approximar da obediência á jurisdicção dos prelados locaes portuguezes. (Apoiados.)

É verdade, sr. presidente, que o frade nunca foi, nem é, nem póde ser considerado no ensino catholico como colunma o firmamento da igreja. Houve, ha e haverá igreja catholica som frades. (Apoiados.)

Mas o que é certo tambem é que a instituição monastica foi sempre considerada, e justamente, na igreja de Deus e nas obras dos seus grandes pensadores, como o mais prompto, mais permanente, mais valioso, mais efficaz e mais seguro meio de sustentação, propagação, é desenvolvimento theorico e pratico da religião catholica. (Apoiados.)

Sendo, portanto, o frade um elemento tão conveniente, tão proveitoso e moralmente necessario, sobretudo em certos e determinados periodos da historia humana, para a realisação de grandes e elevados destinos sociaes, por que nos havemos nós de oppor agora a que se criem frades no reino para evangelisarem a nossa Africa?

Sr. presidente, eu creio que os tempos estão maduros, que as circumstancias são favoraveis e que as conjuncturas aconselham a nossa fé religiosa e o nosso bem entendido patriotismo a que cuidemos a serio, sem delongas, desde já, e sem prevenções e sem paixões politicas de qualquer especie, de organisar no paiz verdadeiras missões catholicas para as nossas possessões ultramarinas. (Apoiados.)

Esta questão é uma questão de crença religiosa, de bom e genuino patriotismo e até de honra e dignidade nacional.

Os que involvem n'isto a política fazem mal á civilisação, á religião e á patria! (Apoiados.).

O frade, como o padre em geral, não tem politica, não é d'este nem d'aquelle, é da igreja e para a igreja, é de todos e para todos, como de todos e para todos é a crença que elle prega, a doutrina que elle espalha, a missão que elle exerce, que é curar chagas, fortalecer corações, animar desalentos, instruir ignorantes, consolar afflictos, destruir vicios, ordenar vidas, disciplinar costumes, chamando os homens, em nome de um principio divino, a respeitarem-se mutuamente, a amarem-se uns aos outros, procurando a felicidade de todos, n'esta e na existencia ultra, mundana, pelo comprimento dos deveres impostos por Deus e pela legitima auctoridade humana. (Apoiados.)

Afastemos, portanto, bem para longe toda a questão política da questão das missões pelos frades na nossa Africa.

Os frades são precisos na Africa. Só elles a podem civilisar. Só civilisando a Africa pelo christianismo, é que o nosso patriotismo, a nossa crença e a nossa honra de nação conquistadora e civilisadora cumprirão o que devem a si e o que devem á historia. (Apoiados.)

Mas não temos nós ahi um benemerito estabelecimento, que, com bastante despendio do estado, está fornecendo ha largos annos missionarios para as nossas possessões? Melhorado, refundido, alargado, não poderia supprir as congregações religiosas?

Eu não nego prestimos nem serviços a ninguem. Louvo, applaudo e agradeço quanto se faça em bem da patria e da religião, mas entendo que nem todos nem tudo servem e bastam para tudo. Entendo que só o convento catholico é que cria homens aptos para as funcções verdadeiramente grandes, difficeis e temerosas do missionario, assegurando-lhe o futuro, garantindo-lhe os trabalhos realisados e seus augmentos pela successão não interrompida de novos operarios, fortalecendo-lhe o espirito e a vontade pelo estimulo dos votos e dos juramentos, e desligando-o da applicação e dos cuidados de outra qualquer especie, que não sejam os de seus institutos, pela renuncia a mais solemne, a mais formal e a mais absoluta. (Apoiados.)

Mas não haverá perigo na restauração das ordens e congregações religiosas? (Vozes: - Ha e muitos). Perigos para quem? Não certamente nem para a religião nem