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SESSÃO NOCTURNA N.º 55 DE 21 DE JUNHO DE 1893 35

de vista technico de que forças de terra e de mar podemos carecer para a nossa defeza; mas parece-me que a questão da defeza nacional deve estar intimamente ligada á situação politica de um paiz em relação ás outras potencias; penso mesmo que a questão da defeza nacional deve estar dependente da situação politica externa; por isso procurarei examinar qual é o logar de Portugal no convivio das nações, para vermos de que lado teremos ataques a recear, e quaes serão os melhores meios de os evitar.

Costuma-se repetir invariavelmente, entre nós, nos discursos da corôa, que são boas as nossas relações com as demais potencias; eu não sei, sr. presidente, se seria mais verdade dizer-se que as nossas relações politicas com as potencias são nenhumas. (Apoiados.)

No convivio das nações, na balança do equilibrio europeu, nós quasi que não temos logar!

As potencias lembram-se de nós sómente, quando nos querem arrebatar uma parte das nossas possessões ou quando lhes convém enviar-nos uma nota desagradavel a favor dos interesses dos seus nacionaes; de resto, vivemos no mais completo isolamento! Será esta, situação vantajosa para a nossa autonomia?

Será pelo contrario um perigo para a nossa existencia como nação independente?

Se ámanhã rebentar um conflicto europeu, e se no momento da liquidação geral as nações poderosas entenderem-se sobre os meios de partilharem a patria portugueza, quaes serão os elementos de defeza de que poderemos dispor?

Bastarão, porventura, para resistir a um ataque pela nossa raia secca, as nossas forças de terra?

Chegarão para defender das garras da Inglaterra o nosso dominio ultramarino, as nossas forças maritimas?

Se não, que vantagens praticas poderão advir para o paiz das sommas que dispendemos nos serviços de defeza nacional?

O isolamento em que vivemos na Europa, afigura-se-me como um perigo!

Não é bastante que, em caso de uma conflagração geral, qualquer potencia tenha desejos de manter-se neutra, como nós certamente temos; é preciso que não lhe faltem elementos para assegurar a sua neutralidade. (Apoiados.)

Para que todos respeitem a nossa autonomia e o nosso direito de nos conservarmos neutros, é indispensavel que possamos ser uteis, como amigos, ou perigosos como inimigos, para que todos tenham interesse em não nos lançar nos braços dos rivaes. Se descansarmos confiadamente nos principios incontestados do direito das gentes, receio que póde-nos vir cedo ou tarde uma triste desillusão!

Temos contado muito com a nossa situação geographica para nos embalarmos na doce esperança de que não seremos desinquietados em caso de uma guerra europêa!

E não sei, sr. presidente, se diante do estado actual das cousas, na Europa, é precisamente a nossa situação geographica que póde pôr em perigo a nossa neutralidade e talvez a nossa autonomia!

Ha muitos annos que se falla na probabilidade de um conflicto na Europa central; é certo que acima da questão de amor proprio da França, profundamente ferido em Sedan e no cerco de Paris, está a grave questão de Metz que deixa aberta aos estrangeiros uma das portas das suas fronteiras orientaes; Metz na mão dos allemães é um perigo que nunca poderá deixar descansada a França; mas ao, lado d'estas causas latentes de conflictos na Europa central, existem rasões de ordem superior que devem difficultar muitissimo um rompimento no coração da Europa.

Uma das potencias que mais predomina nas sociedades modernas, é o mundo financeiro; hoje as bolsas de Paris, de Londres e de Berlim podem ter mais influencia na politica internacional, do que chegaram a ter em tempos passados os monarchas absolutos.

Com os novos systemas de guerra, os combates têem de ser rapidos e decisivos; para entrar em campanha os estados precisam de dispor de sommas collosaes para as mobilisações.

Se tivermos em vista os quadros militares da triplice alliança de um lado, e da França e da Russia de outro lado, veremos que terão de entrar em campanha na primeira guerra 13.223:000 homens de terra e 1:078 vasos, de guerra com as respectivas tripulações, isto sem contar com os barcos torpedeiros, os hiates, as escunas, sem contar com a formidavel armada ingleza, que provavelmente não se poderá manter neutral, e sem contarmos ainda com os vapores das companhias particulares, que são construídos com subsidios dos governos, para serem armados para o corso por conta das potencias. Imagine-se as sommas colossaes que serão necessarias para mobilisar essa massa enorme de gente.

Ora, como os estados não dispõem hoje de reservas de guerra, dos chamados thesouros, de guerra, com excepção da Prussia, cujo thesouro é tambem relativamente insignificante, é evidente que as potencias terão de recorrer aos emprestimos; por conseguinte, póde depender do mundo financeiro facilitar ou difficultar os rompimentos, facilitando ou dificultando os emprestimos de guerra.

São tão consideraveis os capitaes que estão hoje em jogo na Europa, empenhados em emprezas tão intrincadas, que uma conflagração europêa deve perturbar poderosamente a marcha dos negocios e provocar kraes tremendos, de onde resultarão para qualquer nação rica mais ruinas do que todas as compensações possiveis de uma victoria militar. Estas considerações podem influir no mundo financeiro para difficultar conflictos no centro da Europa.

Ainda ha pouco escrevia um antigo ministro austriaco, o sr. Shoeffle, n'uma revista estrangeira, um artigo, em que avalia em 5 milhões de contos de réis ou 25 billiões de francos o custo de uma futura guerra para a potencia ou o partido que ficar vencido, e isto sem contar as despezas das guerras sociaes, como a guerra da communa de 1870, que custou á França l milhão de contos de réis ou 5 billiões de francos, e sem contar ainda os prejuizos para a economia nacional pelo chamento ás armas de toda a população valida de vinte e um a quarenta e cinco annos de idade.

O que se tem passado entre nós desde esse celebre conflicto com a Inglaterra póde-nos dar uma idéa, embora fraca, do que deve succeder em caso de um conflicto na Europa central. O theatro dos nossos conflictos esteve longe da metropole, as cousas não chegaram ao ponto de um rompimento violento; comtudo, v. exa. e a camara bem sabem quantos sacrificios não têem custado ao paiz essa desgraçada questão; os prejuizos não se limitam ás despezas com as expedições militares e civis para a Africa; o estado de tensão dos espiritos paralyson a marcha dos negocios; a situação politica tornou-se instavel; a confiança abandonou as cousas e as pessoas; a sociedade portugueza entrou n'um verdadeiro caminho de desmoronamento!

Para evitar possivelmente consequencias d'estas, podem as nações ver-se na necessidade de liquidar as situações politicas n'um duello ferido em campo menos exposto a soffrer prejuizos enormes. A questão do Oriente parece estar adormecida; a Austria e a Russia parecem mesmo entenderem-se por esse lado; as vistas das grandes potencias voltam-se para os nossos lados para se dirigirem sobre Marrocos! Ora, no caso de um conflicto tanto ao pé de nós, podemos ter a segurança de que não será violado nenhum dos nossos portos por qualquer belligerante que possa encontrar nas nossas costas ponto de apoio para as evoluções das suas esquadras? E se essa possivel vio